O lixo de cara nova

Por Raul Marques

Guilherme Baffi
Carlos Pereira Rodrigues com brinquedo inflável recuperado

Materiais de construção, sobras de tinta, madeiras, ferragens, vasos e até brinquedos descartados por moradores de condomínios de luxo de Rio Preto foram resgatados do ponto de apoio do Jardim Yolanda, reformados e ganharam função especial. Foram usados para melhorar a infraestrutura e equipar duas creches localizadas em bairros pobres da zona norte. Quem descobriu o valor desse verdadeiro lixo extraordinário foi Carlos Pereira Rodrigues, 45 anos. Graças a seu olhar treinado, empenho (a despeito da rotina atribulada) e boa dose de romantismo, o empresário exerceu a cidadania de maneira criativa, mostrou que é possível poupar o meio ambiente, e o mais importante: mudou, para muito melhor, a realidade de 400 crianças.

A revolucionária ideia, em prática há dois anos e meio, não nasceu de uma hora para outra. Surgiu a partir de intensa observação. Rodrigues sempre fez trabalho voluntário. Roçava mato, consertava brinquedo e distribuía balas e pirulitos em ocasiões especiais. Nessas andanças, percebeu que o prédio da creche João Paulo 2º, no bairro homônimo, necessitava de reparos. Não demorou para ir ao ponto de apoio procurar objetos que pudessem ajudá-los na empreitada. Foi a pedra fundamental para seu projeto, tocado sobretudo nos fins de semana e nas brechas de sua agenda. Começou a percorrer o local de descarte e recolher todas as peças que poderiam ser úteis. Deu muito certo.

Guilherme Baffi
Creche do Solo Sagrado que está sendo reformada

 

 

Trocou lâmpadas, pintou paredes, substituiu vasos sanitários e reformou brinquedos na creche. Ficou um ano trabalhando no João Paulo 2º. Até que decidiu migrar para a creche Sylvia Purita, no Solo Sagrado. Além dessas mesmas ações, instalou toldo, construiu caixa de areia para a criançada brincar, pintou salas, arranjou panelas grandes, colocou em ordem as torneiras e substituiu chuveiros. Detalhe: todos os materiais, a maioria em bom estado de conservação, foram jogados no lixo. “Fazer isso é uma realização pessoal. Gera sensação de dever cumprido. Se Deus me deu essa missão, vou fazer com o maior empenho. Não é porque a instituição é pública que devemos deixar tudo para o governo resolver. Mas eu faço o trabalho somente para o bem das crianças. São o meu foco.”

“Os pais podem colaborar e trabalhar junto com a escola”, acrescenta a coordenadora da Sylvia Purita, Lúcia Cabral. Rodrigues leva tudo o que encontra para a marcenaria que mantém no Solo Sagrado. Usa o tempo livre para reformar, limpar e adaptar as peças. Nada se perde. Ele percebeu como é contraditório o conceito de obsolescência programada, ou seja, aparelhos, eletrônicos e eletrodomésticos se tornam ultrapassados mesmo com pouco tempo de uso e perfeito estado.

 

Guilherme Baffi
A escolinha do João Paulo, a primeira a ganhar as benfeitorias feitas por ele

 

 

“É grande o consumismo. Tem um monte de coisa seminova no lixo. Já encontrei objetos até com etiqueta. Parece que o aparelho se modernizou, joga fora e compra outro. Se as pessoas soubessem como certas coisas pequenas podem fazer a alegria de uma criança…”, comenta Rodrigues, que não tem parentes nesses lugares que ajuda e resolveu ampliar suas ações. Quando está em São Paulo, sempre visita ferros-velhos, onde encontra macas, cadeiras de rodas e andadores. As peças são reformadas e doadas para dois asilos da região.

Rodrigues não é um exército de um homem só. De vez em quando, não tem tempo de fazer a melhoria. Viaja quase toda semana a trabalho. Nessas ocasiões, contrata um profissional para executar o serviço. Pede ajuda financeira aos amigos para custear as despesas. Não raro, coloca a mão no bolso para complementar os gastos. O empresário conseguiu ajuda para instalar alarme e sistema de câmeras nas duas creches. A medida foi motivada por casos de furto. A meta é ficar pelo menos um ano em cada entidade. Como ele diz, ‘se cada oferecer um grão de areia, o mundo será muito melhor’. Difícil discordar.

 

Pierre Duarte
TV, geladeira duplex, fogão, sofá, tanquinho, mesa, panelas, som: do ponto de descarte para casa

Casa mobiliada com móveis reciclados

A vida da coletora de material reciclável Laiane Vieira, 30 anos, foi transformada graças a objetos que muita gente considera lixo. Ela mobiliou a sua casa com geladeira, fogão, sofá, televisão e mesa. As peças estão em bom estado de conservação, mas foram descartadas em pontos de apoio da Prefeitura. Piauiense de Regeneração, a 140km de Teresina, Laiane desembarcou em Rio Preto há dois anos com uma pequena mala, um punhado de sonhos e enorme vontade de conquistar uma existência mais digna. A primeira vitória foi justamente o emprego na Cooperlagos, que recicla materiais na cidade.

Sua função é separar garrafas, papelão e latas que podem ser reaproveitadas. De vez em quando, é surpreendida, assim como suas colegas de labuta, com um eletrodoméstico seminovo no meio dos materiais. A regra é simples: quem tem maior necessidade fica com o exemplar. Só é necessário oferecer contrapartida, isto é, a doação de um saco de café ou açúcar para a alimentação coletiva das funcionárias. Sem essa forcinha do destino, Laiane não imagina quanto tempo levaria para equipar a moradia com o mínimo necessário para viver decentemente.

“No Piauí, eu não tinha noção do que é reciclar. O povo joga no lixo muita coisa que funciona direitinho. Poderia ser doado a quem precisa. Cheguei em Rio Preto sem ter nada. Estou muito feliz aqui.” Só para ter ideia dos tesouros encontrados por Laiane, a geladeira é Brastemp, de grande porte. A televisão tem 29 polegadas. O fogão é de seis bocas. Sanduicheira, sofá, tanquinho, relógio de parede, mesa, panelas, liquidificador e aparelho de som completam a lista.

Tudo funciona perfeitamente e está limpo com esmero. Na casa de Laiane, quase tudo teve a mesma origem. Por mês, a coletora ganha R$ 900 como cooperada. Não há dinheiro disponível, portanto, para investir na compra de mobília nova. Agora, ela sonha com um aparelho microondas para turbinar sua cozinha. Ainda não encontrou nenhum. Mas não perde a esperança.

Pierre Duarte
Gilson Ribeiro no jardim que ele montou, e cuida, no ponto de apoio do Jardim Yolanda

Jardim criado com plantas ignoradas

Gilson Roberto Ribeiro, 46 anos, criou um aprazível jardim em lugar inesperado: o ponto de apoio que recebe entulhos dos condomínios de luxo da zona leste de Rio Preto, entre os quais Damha, Figueira e Gaivota. Tudo o que usou na empreitada foi lançado no lixo. Ribeiro, que coordena a repartição, criou o jardim embaixo de uma frondosa árvore. Colocou objetos que foram descartados, entre os quais banco de madeira, cadeiras, dezenas de vasos de planta, estátua, arco, animais de jardim e até mesmo placa. O chão foi coberto com pedras de mármore.

Todos os dias na hora do almoço, o jardim é usado pelas funcionárias de uma cooperativa que trabalham no local. Elas ocupam os assentos, fazem a refeição tranquilamente em generosa sombra e descansam um pouco antes de retomar as funções no período da tarde. “Tive a ideia de fazer o jardim porque muita gente jogava lixo aqui. Pintei os vasos e ajeitei as plantas. Tem uns bichinhos em ótimo estado. O lugar ficou mais bonito.”

Além das suas obrigações normais no dia a dia, Gilson faz um trabalho especial por conta própria. Ele separa brinquedos e materiais de construção que podem ser reaproveitados pelo empresário Carlos Pereira Rodrigues na reforma das creches. Também guarda materiais que não são reciclados, mas podem fazer a diferença na vida de outras pessoas.

 

Pierre Duarte
Débora Miceli mostra alguns dos objetos de decoração com matéria-prima que saiu do lixo

 

 

A arte que vem da reciclagem

O lixo pode ser transformado até mesmo em arte. Uma vez por mês, a artista plástica Débora Dantas Miceli, 59 anos, percorre pontos de apoio em busca de madeiras, plásticos e peças que possam ser adaptadas, reaproveitadas e usadas em mirabolantes ideias. Com inspiração e boa dose de disposição, Débora cria peças especiais, que deixaram sua casa aconchegante e decorada de maneira especial. Como misturam estilos, são únicas, ou seja, não se encontram nas lojas.

Exemplos não faltam. A cúpula do abajur da sala é de cano PVC. A base do sofá nada mais é do que dois paletes. A mesa, usada na área de lazer, tem como base um carretel de fio. O vaso, na essência, é uma lata. A bancada usada para colocar objetos é uma estrutura de ferro. “Tudo pode ser reaproveitado. Sou apaixonada por isso. Saio de um ponto de apoio com a mesma alegria quando faço compras no shopping”, brinca a artista plástica. Ela lembra que, no passado, havia abundância de material. Hoje nem tanto. Talvez outras pessoas descobriram essa ‘mina’.

A sala e área da residência da artista, em um condomínio fechado, estão repletas de peças fabricadas do mesmo modo. Cada uma tem uma história. Em comum: todas foram abandonadas por seus proprietários. Débora já perdeu as contas do número de objetos que produziu. “Sempre gostei de reaproveitar. Infelizmente, a população brasileira não trata o lixo da melhor forma. Muita gente não consegue visualizar sua importância”, explica. De vez em quando, vende alguma das suas criações. Nem fica chateada em se desfazer. Sabe que não faltam materiais para criar outras ainda mais interessantes.

Objetos à disposição da população

A retirada de objetos que não podem ser reciclados nos 18 pontos de apoio de Rio Preto segue determinadas regras. É o que afirma o encarregado do setor na Prefeitura, Paulo Sérgio da Silva. Garrafas, papelão, plásticos, ferro e madeiras são direcionados para entidades de reciclagem, que separam e promovem a destinação correta de cada item. O material é vendido e revertido para os associados. O que não é reciclado, como pias de banheiro, pisos, sofá, brinquedos, tintas e privadas, pode ser retirado por qualquer cidadão de forma gratuita. “Se alguém pedir, a gente deixa levar. Só não pode ser os materiais da cooperativa.”

Silva esclarece que é comum aparecer nesses locais móveis, sofás, cômodas e até mesmo colchão. No ponto de apoio do Jardim Yolanda, que serve condomínios de luxo da zona leste, era possível encontrar na última semana pia de cozinha, privada, tanque, caixa de água e aparelho de fax. Em grande escala ou trabalho de ‘formiguinha’, o fato é que a reciclagem é fundamental para um País que se preocupa com o planeta. “O resíduo irá esgotar os aterros e cada vez mais ocupar imensos espaços que poderiam ser aproveitados de maneira melhor. Além disso, se não reaproveitarmos os resíduos, os recursos naturais cessarão muito mais rápido”, afirma Alexandre Furlan Braz, fundador do Instituto Muda.

Ele acrescenta. “Reciclar aumenta a vida útil dos aterros sanitários, gera novas matérias- primas a partir da reciclagem e cria milhares de empregos e renda a cooperativas e indústrias de reciclagem.” Em Rio Preto, a Cooperlagos e a Ares (Associação Rio-pretense de Educação e Saúde) reciclam juntas 108 toneladas de materiais por mês. O trabalho é feito por 70 pessoas, que ganham entre R$ 800 e R$ 1 mil mensais.

Fonte: Diário Web

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