“Nós só queremos que os animais sejam deixados em paz”, diz vice-presidente da Peta
Há duas semanas, as pessoas que frequentavam a Avenida Paulista, em São Paulo, se depararam com uma cena estranha em plena hora do almoço. Ativistas “embalados” em plástico, como se fossem uma peça de picanha, chamavam a atenção e defendiam uma dieta vegetariana. A ação foi organizada pela People for the Ethical Treatment of Animals (Peta), uma organização de defesa dos animais americanas conhecida pelo apoio de celebridades e uso de um marketing agressivo.
Dan Mathews, vice-presidente da Peta, organizou a ação na Paulista. Ele visitou o Brasil para participar da Vegfest, uma feira vegana organizada em São José dos Campos. Por telefone, Mathews conversou com a reportagem de ÉPOCA.
ÉPOCA – O que foi o protesto que a Peta organizou na Avenida Paulista?
Dan Mathews – Nós fizemos uma ação para dar às pessoas algo a se pensar antes de elas fazerem o pedido para o almoço. Pensamos em fazer um paralelo de carne empacotada, morta, que as pessoas compram em mercados e açougues, com a carne humana. Assim, mostramos que somos todos carne e que, quando comemos um bife, estamos comendo essa mesma carne. Fazer uma comparação com o canibalismo mesmo, e deixar algo na mente das pessoas, para que elas refletissem sobre o assunto.
ÉPOCA – Como o público brasileiro recebeu essa manifestação? Porque sabemos que a carne, o churrasco, tem uma presença muito forte na cultura brasileira.
Mathews – Acho que as pessoas reagiram de forma pensativa. Nós fizemos o ato em um cruzamento, com muitas pessoas passando, e as pessoas pararam, olharam, viram o que estávamos dizendo. Eu acho mais fácil fazer as pessoas prestarem atenção em um protesto como esse. É diferente de uma passeata com pessoas gritando e levando cartazes. É uma imagem simples, sangrenta, e as pessoas relembrarão. É uma imagem que desafiará as pessoas intelectualmente, mas sem forçá-las a tomar uma posição naquele momento. Ninguém ficou irritado ou com raiva, acho que eles interpretaram como uma imagem interessante.
ÉPOCA – O objetivo é fazer com que todas as pessoas sejam vegetarianas ou veganas? Acha isso possível?
Mathews – Certamente parece como uma utopia agora. Mas está acontecendo muito rapidamente. A primeira vez que eu visitei o Brasil foi em 1992, para um protesto na Conferência de mudanças climáticas do Rio. Naquela época, havia pouco ativismo. Hoje, 25 anos depois, eu vejo pratos veganos em quase todos os restaurantes que passamos em São Paulo. É uma mudança geracional. É muito bom ver tantos jovens interessados nessa causa.
ÉPOCA – A Peta é muito famosa pela sua campanha contra o uso de peles na indústria da moda. Mas pele não é realmente uma questão no Brasil, já que aqui é um país tropical. O que ativistas deveriam focar aqui no Brasil?
Mathews – Eu acho que o mais importante é olhar para a sua própria vida. Questões animais não são realmente questões de política, e sim de consumo. É sobre o que comemos, as roupas que vestimos, os produtos que usamos. Eliminar a crueldade animal na sua vida é um passo simples a se dar. Você pode decidir virar vegetariano ou vegano, ou mesmo reduzir o consumo de carne por um dia. É mais fácil do que parece. Isso fará você se sentir melhor, reduz o risco de obesidade, de câncer, e permite uma velhice mais saudável. Nós não precisamos matar animais para ter uma vida incrível. Pessoas como Paul McCartney e Pamela Anderson, que são parceiros em nossas campanhas, mostram que é possível ter uma vida brilhante ser causar dano a nenhum animal.
ÉPOCA – Há alguns anos um grupo de ativistas aqui no Brasil invadiu um laboratório científico porque ele fazia testes com animais. É possível fazer ciência sem testes?
Mathews – Experimentos com animais é a forma antiga de se fazer ciência. É como se você dissesse que só pode viajar a cavalo. Não faz sentido, nós já temos carros. Animais e humanos têm características distintas. Usar animais para testes não resolve problemas dos humanos. Mas há uma característica que humanos e animais têm em comum: ambos podem sentir dor.
ÉPOCA – Peta também faz bastante barulho por campanhas consideradas apelativas, seja com imagens de crueldade, seja com pessoas nuas. É preciso apelar para passar a mensagem de defesa dos animais?
Mathews – Basicamente há muita competição pela atenção das pessoas esses dias. As pessoas estão coladas nos seus smartphones, video games, na televisores. Para competir com isso, precisamos ter imagens fortes e memoráveis. As pessoas tendem a ter um desejo de ver imagens provocativas. Nós temos várias campanhas mostrando sofrimento dos animais. Em muitos casos, as pessoas ficam revoltadas com imagens de crueldade animal, sofrimento. Para atingir outras pessoas, as que não querem ver essas imagens, usamos campanhas com celebridades, mostramos mais sex appeal.
ÉPOCA – Não há o risco dessa estratégia sair pela culatra e acabar alienando pessas que poderiam apoiar a causa?
Mathews – Honestamente eu não conheço ninguém que não queira ver imagens de pessoas nuas (risos).
ÉPOCA – Claro, mas há pessoas mais conservadoras em questão de sexualidade.
Mathews – Sim, mas não todo mundo. E se você olhar para a publicidade, há pessoas atraentes vendendo todo e qualquer produto. Peta não é diferente disso. Nós queremos atingir o máximo de pessoas possíveis, mesmo que elas não se importem com animais.
ÉPOCA – A sua organização defende um “tratamento ético” para os animais. O que exatamente é um tratamento etico?
Mathews – Nós vemos animais como vizinhos. Eles são nossos vizinhos no planeta, e nós precisamos ser vizinhos melhores. Os animais não querem morrer, não querem ser separados de seus filhos. Em todas as questões importantes, os animais são exatamente como nós. Nós aprendemos com gatos e cachorros, que admiramos e valorizamos, mas há outros animais, como vacas, e porcos e galinhas, que também merecem tratamento ético. Eu acredito que quando você percebe que eles têm muito mais em comum do que diferenças, você entende que é preciso tratá-los com respeito, e não confiná-los, matá-los ou usá-los de formas diabolicas em laboratorios. Nós querems que os animais sejam deixados em paz, que não sejam produzidos em massa pela indústria.
