Não há nada mais agradável do que o cheiro do próprio lixo

Por Marcelo Mirisola*

Muito comum encontrar colunistas de jornalões e revistonas praguejando contra o lixo que circula na internet. O mantra deles é a qualidade da informação vendida na empresa onde trabalham. Quase verdade. Circulam – fato – quantidades astronômicas  de porcarias na rede, mas no meio do lixão encontramos verdadeiras pérolas que jamais teriam chance de existir nas empresas onde os tais “dinossauros da qualidade”  tiram o sustento.

O mais incrível é que o controle de qualidade ou a suposta idoneidade são os responsáveis diretos pelo bloqueio do ouro que brota do lixão. Por mais diversidade de opiniões que uma rede de tevê, um jornal ou uma revista imagina e/ou possa abrigar em suas grades/páginas, jamais conseguirá competir – até por uma questão de espaço físico – com o precioso lixão que circula pela net.

A opinião nos veículos formais (independentemente da qualidade em si), cada vez menos irá surpreender o leitor/internauta.  Rodrigo Constantino, por exemplo, jamais vai defender a invasão da propriedade privada nas páginas da Veja, e Guilherme Boulos dificilmente concordará com a política fundiária de Katia Abreu em sua coluna da Folha.

Os xerifes diriam: tanto faz a plataforma, a opinião de Boulos e Constantino será a mesma nas páginas da Folha ou da Veja ou nos sites do Instituto Millenium e do MTST: eles jamais iriam abraçar as causas um do outro.

Eu digo: existe um exército de Boulos e um exército de Constantinos babando na rede. Impossível no meio de um oceano de opiniões iguais (até mesmo nesses casos extremos), tanto de um lado como de outro, não aparecer algo diferente que ilumine um novo ângulo, que transforme a discussão em matéria – por que não? – de interesse antropológico, psiquiátrico, e muito provavelmente humorístico. Trata-se do ouro supracitado que reluz no lixo.

Isso aqui não é apenas otimismo, exagero ou uma suposição tresloucada de minha parte, é matemática pura.

No lixão do feicibuque é comum encontrar opiniões e pontos de vista preciosos que jamais circulariam nas plataformas tradicionais de informação. Ultimamente, aliás, a proporção de ouro e lixo encontrados nas redes sociais e nas plataformas tradicionais é quase equivalente.

Ontem no feicibuque, por exemplo, me deparei  com um depoimento inusitado que fugiu completamente do ramerrame de especialistas e palpiteiros politicamente corretos – que infestam não apenas jornalões e revistonas, mas  programas de auditório, consultórios dentários, spas, clínicas geriátricas, oficinas de literatura, creches e pet-shops.

Camilla Lopes dizia que, na infância, usava roupas de menino: “Queria ser goleiro. Depois usava camiseta bem larga pra esconder o peito. Era o “tomboy” em pessoa. Mas era somente porque eu tinha um irmão mais velho e primos, queria brincar com eles. Ao mesmo tempo sonhava com vestido rodado que minha mãe achava brega. Usava kichute também. E era tão grossa que meu apelido era Ângela RoRo ou “Vidigal”. Mas não me tornei lésbica – o que nao seria nenhum problema. É por isso que acho que essa moda de enxergar orientação sexual em crianças tão cedo é bem cretina”.

Concordo 100%.  Não me lembro de ter lido algo parecido na coluna de Rosely Sayão.  Só existe uma coisa mais cretina e nefasta que isso, enfiar criança em igreja.

A regra dos manuais, do bom-mocismo e da tolerância, diz o contrário. A raíz dessa regra (que na prática virou uma lei obrigatória) é clara: saia do armário o mais rápido possível: de preferência incendeie o berço antes de entrar no embutido. No entanto, uma postagem trivial de feicebuque renovou e revirou toda essa discussão pelo avesso.

Quantas inteligências com o mesmo potencial de Camilla Lopes existem no feicibuque?

Não quero fugir muito do tema da crônica, e não resisto a um parêntese a partir da postagem de Camilla: E o enrustido?  Não é gente?  E se o prazer dele (a) está na culpa e no anonimato?  E se o enrustido (a) não prejudica ninguém dentro do conforto do seu armário, qual o problema?

Enfim. Nenhuma dessas questões foi levantada pela mídia tradicional. O que Constatino, Boulos e os doutores Jairo Bauer e Draúzio Varella pensam a respeito? Sinceramente? Não tô nem aí com a opinião deles.

Só dei o exemplo da Camilla pra dizer que dispenso os encerramentos de expediente. Pra dizer que a página foi virada. Que dentro de pouquíssimo tempo a quantidade vai engolir definitivamente a suposta qualidade. Que dispenso  o lixo que não produzo. Que dispenso igualmente o destaque dado a celebridades instantâneas, o horóscopo, os editoriais que defendem a tradição, a família e a propriedade,  o carnaval de todo ano e as respectivas brigas na apuração das escolas de samba, o novo corte de cabelo do Neymar e, sobretudo, dispenso a idoneidade de quem repete sempre as mesmas mentiras, lixo por lixo, agora posso/podemos escolher o meu/nosso lixo.

É bem mais divertido, e o cheiro é muito melhor.

*Marcelo Mirisola tem 47 anos, é paulistano e radicado na ponte-rodoviária Bixiga-Rio de Janeiro há dez anos. Escreveu mais de uma dúzia de livros, dentre eles destacam-se Bangalô, O Herói Devolvido, Joana a Contragosto e O Azul do Filho Morto. Não se identifica com nenhuma corrente da literatura brasileira contemporânea, embora alguns críticos o considerem o Pedro Alvares Cabral da autoficção aqui em nossas plagas. Também é dramaturgo.

Fonte: Yahoo! Brasil

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