Harry Potter impulsiona tráfico de corujas e ameaça a espécie
Um estudo realizado por pesquisadores da Universidade Oxford Brookes e publicado no periódico “Global Ecology and Conservation” concluiu que o número de corujas vítimas do tráfico na Indonésia saltou de forma perigosa após a exibição da série “Harry Potter” no cinema. Nos filmes, as corujas são companheiras dos bruxos.
Os pesquisadores recomendaram aos governos que as corujas sejam incluídas entre as espécies protegidas, já que, de acordo com eles, “a popularidade das corujas como animais domésticos na Indonésia aumentou a tal ponto que pode colocar em risco a conservação de algumas das espécies menos abundantes”.
Coruja vendida em mercado na Indonésia (Foto: Andrew Walmsley / Universidade Oxford Brookes)
Para realizar o estudo que avaliou o quanto a exibição de “Harry Potter” impactou na população de corujas, os pesquisadores Vincent Nijman e Anne-Isola Nekaris quantificaram o volume de corujas vendidas em mercados de aves entre 1979 e 2010, além de 109 pesquisas de campo realizadas em 20 mercados entre 2012 e 2016. Os resultados indicam que até o ano de 2000, não era possível encontrar corujas à venda, mas a partir de 2001, quando o primeiro filme foi lançado, a estimativa é de que centenas de corujas tenham sido vendidas. Em 2016, foram mais de 13 mil aves comercializadas. Tratam-se de dados alarmantes.
Antes da estréia de “Harry e a Pedra Filosofal”, o primeiro filme da série inspirada nos romances de JK Rowling, em 2001, o número de corujas comercializadas nos mercados da Indonésia era baixo, representando menos de 0,1%. No ano passado, esse percentual subiu para 1,5%.
Com o estabelecimento de um mercado ilegal de corujas após o lançamento do primeiro filme, a variedade de aves aumentou, sendo possível encontrar 17 espécies diferentes à venda. Houve também uma queda do preço das espécies consideradas comuns e o encarecimento das aves raras. Mas os valores, que oscilam entre US$ 6 e US$ 30, são acessíveis para praticamente qualquer indonésio que esteja empregado.
A pesquisadora Nijman comentou, em entrevista ao O Globo, que há uma diferença significante entre o número de corujas comercializadas em 1990 e atualmente. “Nos anos 1990, quando pesquisava esses mercados de pássaros eu via tipicamente uma ou duas corujas à venda entre milhares de outros pássaros, mas normalmente nenhuma coruja ficava exposta. Agora, retornado a esses mesmos mercados, nós podemos ver dezenas de corujas de várias espécies, todas capturadas no ambiente selvagem.”
Os pesquisadores explicam que não há como estabelecer uma conexão causal entre os filmes e o aumento exponencial na venda de corujas, mas afirmam que a relação é bastante provável. Até o mesmo o nome pelo qual as aves eram chamadas na Indonésia mudou após o lançamento do primeiro filme. Na língua local, elas eram conhecidas como “Burung Hantu”. Na tradução, “ave fantasma”. Após a estréia da série, as corujas passaram a ser chamadas de “Burung Harry Potter”, que significa “ave do Harry Potter”.
Outro ponto levantado pelos pesquisadores é a influência da internet na popularização da coruja como animal doméstico. Técnicas para criação e lojas que comercializam as aves são assuntos discutidos nos fóruns online. De acordo com Nijman, “apenas um ano antes da publicação de “Harry Potter” foi aberta a primeira lanhouse na Indonésia, e o aumento no uso das redes sociais coincidiu com o aumento de “Harry Potter” como um fenômeno.”
Harry Potter e a coruja Edwiges no filme Harry Potter e a Pedra Filosofal (Foto: Reprodução)
A pesquisadora conta ainda que as aves são mantidas em péssimas condições nos locais em que são comercializadas. “É particularmente doloroso ver animais noturnos como as corujas nos mercados, tontas e estressas sob o brilho do sol, alimentadas apenas com água e arroz”, disse.
O mercado que vende corujas, de acordo com a pesquisadora, não parece sustentável. Ela afirma que cerca de metade das aves encontradas nesses locais eram filhotes retirados de seus ninhos. “A maioria delas deve morrer em semanas”, lamentou.
A ausência de estudos populacionais sobre as corujas selvagens na Indonésia dificulta a realização de uma avaliação do impacto que o mercado representa sobre as espécies. Entretanto, a recomendação dos pesquisadores é de que oito das 17 espécies recebam atenção especial, já que estão listadas como ameaçadas pela União Internacional pela Conservação da Natureza.
Nota da Redação: corujas, assim como qualquer animal selvagem, não devem ser retiradas da natureza. É preciso que as particularidades dessas aves – como os hábitos noturnos – e a necessidade de viver em seu habitat sejam respeitados. Animais, domésticos ou selvagens, não são mercadoria e, portanto, é inadmissível que sejam comercializados.
