Graças à tecnologia, você vai saber a verdadeira origem dos frutos do mar à sua mesa
Milhões de pessoas no mundo todo dependem de frutos do mar para a sobrevivência. Um número estimado de 450 milhões de pessoas obtêm sua fonte principal de comida do oceano e, de acordo com o Banco Mundial, a pesca compõe pelo menos 10 por cento da economia global.
Mas com toda essa popularidade e importância, a cadeia de fornecimento da indústria de frutos do mar é notoriamente obscura, complexa e cercada de problemas, que incluem a pesca ilegal e a fraude com os frutos do mar, que podem acabar definitivamente com as populações de peixe e prejudicar o habitat marinho.
Os amantes de frutos do mar frequentemente não sabem de onde realmente vem o peixe ou camarão que comem e inclusive não sabem se o seu peixe era mesmo um pargo.
Graças à avanços tecnológicos e esforços de empresas, instituições sem fins lucrativos e governos, no entanto, a visibilidade do “mar para a mesa” está rapidamente se tornando uma realidade. E isso, dizem os especialistas, pode ajudar a salvar nosso mar de uma situação crítica.
Um pirata somali mascarado em Hobyo, na Somália, em 2012
“A indústria me faz lembrar de uma neblina forte em San Francisco”, disse Mark Barnekow, CEO da BluWrap, uma empresa de transportes de frutos do mar — uma neblina que acaba escondendo uma série de problemas bem arraigados.
A pesca pirata, por sua vez, é uma preocupação global. Um valor de até $12 bilhões de frutos do mar é capturado ilegalmente por piratas a cada ano, de acordo com o Departamento do Estado. A pesca pirata está associada a enormes impactos ambientais, incluindo práticas de pesca destrutivas, assim como o tráfico de drogas e tráfico humano entre outros crimes.
A pesca excessiva é outra fonte importante de preocupação. O secretário de estado John Kerry catalogou o problema como “gigantesco” em uma entrevista esta semana.
“Um terço das pescas no mundo são de pesca excessiva, e as que não são estão no máximo, com uma demanda cada vez maior”, disse para o jornal The Washington Post. “Basicamente, metade da população mundial depende das proteínas provenientes do oceano para a sobrevivência. É um ecossistema que exige sustentabilidade para subsistir e nós não estamos tratando com isso de forma sustentável”.
E também existe a fraude com relação aos frutos do mar. Um recente relatório do Oceana revelou como este problema é surpreendente: 1 de cada 5 dos mais de 25,000 frutos do mar colhidos para a pesquisa foram rotulados de forma inapropriada.
Em muitos casos, o peixe era na verdade mais barato e menos importante do que o indicado na etiqueta. É bem problemático visto que 16 por cento do peixe rotulado como de outra espécie, era considerado vulnerável, ou até mesmo parte de espécies em extinção.
“Existem alguns poucos controles agora na cadeia de fornecimento de frutos do mar então é bem fácil fazer propaganda enganosa”, disse Beth Lowell, diretora sênior de campanhas na Oceana, esse mês para a revista National Geographic.
Ou, será que o aparente amigável e ecológico pargo americano comprado no supermercado foi na verdade etiquetado indevidamente? Com uma indústria que sofre com a falta de rastreamento, tais perguntas têm sido praticamente impossíveis de serem respondidas.
“A indústria de frutos do mar não está atualizada para entender o movimento do cultivo para a mesa; é um dinossauro escrito em sua maioria nas fichas de peixes, encomendas por telefone e baseado em relacionamento”, disse Sean Dimin, cofundador da empresa de frutos do mar sustentável Sea-To-Table (“ Do Mar Pra Mesa”, em tradução livre) em um evento em Nova York este ano.
Mas a tecnologia agora está trazendo mais mudança e visibilidade para esse setor que há muito tempo é obscuro.
Recentemente, um novo e gratuito sistema de rastreamento online que possivelmente transformará a indústria chamado Global Fishing Watch (Monitoramento de Pesca Global) foi lançado, em um esforço colaborativo entre Oceana, Google e a organização sem fins-lucrativos SkyTruth.
O sistema de monitoramento em satélite permite que os consumidores, pesquisadores e autoridades reguladoras monitorem dezenas de milhares de barcos comerciais de pesca em todo o mundo quase que em tempo real.
“Você consegue dividir [esta] informação em várias formas diferentes que achamos pode ser útil quando se trata do cumprimento da lei, aumentando o entendimento do público e flagrando pessoas que estão fazendo coisas indevidas”, falou Lasse Gustavsson, diretor executivo do Oceana na Europa, para a Fundação Thomson Reuters sobre o possível rastreador.
A Ecotrus, uma organização de conservação, por exemplo, lançou uma plataforma de rastreamento chamada ThisFish , que permite aos pescadores anexar os códigos de rastreamento dos peixes pescados.
Dessa forma, ps consumidores podem usar seus smartphone, tablet ou computador e ler o código, descobrindo exatamente de onde o peixe vem e que o pescou.
A FairAgora Asia, empresa baseada em Bangkok, desenvolve uma plataforma de software que monitora e exibe informação social e ambiental sobre as pescas. A TRUfish, baseada na Carolina do Norte, está trabalhando em um serviço que oferece aos varejistas um teste de DNA dos peixes ― serviço este que poderia certificar aos clientes a autenticidade dos frutos de mar encontrados nas lojas.
Um pescador peruano, 2012
Certos tipos de informações estão “lá em teoria, mas é quase impossível acessar e difícil verificar”, disse Timothy Moore, conselheiro da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional, ao jornal USA Today.
Entretanto, parece que a mudança está a caminho ― não só com os frutos do mar, mas na indústria alimentícia como um todo.
Em 2014, o Instituto de Pesquisa Allied Market Research disse que o mercado para o rastreamento de alimentos e tecnologias cresceria um estimado $14,1 bilhão até 2019.
“O rastreamento de comida está se tornando a norma para todos os produtores de alimentos no mundo todo resultado das exigências dos consumidores e de normas governamentais com relação a segurança dos alimentos”, escreveu a empresa.
Isso, dizem os especialistas, é uma ótima notícia para os oceanos do mundo ― e para as pessoas que dependem deles para sobreviver.
Populações de peixe debilitadas, por exemplo, podem se recuperar se as práticas destrutivas e ilegais forem combatidas, disse Gustavsson do Oceana para a Fundação Thomson Reuters.
“Se fizermos todas as coisas certas agora”, disse ele, “em 10 anos teremos duas vezes mais peixes no oceano a nível global”.
