Espécie de abelha não tem ferrão e produz um mel de qualidade incomparável
Na subida morrada do “Mata Cavalo”, enquanto eu me esfolegava procurando forças pra dar conta de vencer aquele monstruoso “S” antes de chegar à vila do Milho Verde, dei de olhar de soslaio nos barrancos da estrada pra disfarçar o esforço que a subida exigia. De repente, percebi um movimento discreto de abelhas entrando e saindo num pequeno canudo plantado na barroca. Foi desse jeito que topei pela primeira vez com um enxame de mandaçaia-de-chão (Melipona quinquefasciata).
Ao chegar mais próximo, dei reparo que as abelhas eram grandes, quase do mesmo tamanho das europeias africanizadas. Só que as listras amarelas e pretas são bem mais destacadas, dando enfeito formoso no abdômen das bichinhas – o nome “quinquefasciata” é derivado justamente da presença dessas listras. As abelhas não têm ferrão, são mansas, muito delicadas e tranquilas, e mesmo quando se mexe na casa delas sua defesa é de leve, quase imperceptível. Forma um enxame pequeno e por isso a produção de mel também é menor que a abelha europa, mas a qualidade é incomparável.
Fiquei eufórico com o achado, pois essa é uma abelha considerada raríssima. A dificuldade de se dar com elas é o tipo de moradia que a danada desenvolve: só faz o ninho no chão, quase sempre no aproveito dum formigueiro abandonado ou no oco de alguma raiz podre.
Com a febre desmatadeira que vem assolando o sertão e com o uso insano de veneno na terra, ela tá correndo sério risco de extinção. Pra piorar o trem, tem ainda os meleiros, esse povo que só coleta o mel e deixa o enxame pra lá, não se importando pelo paradeiro da rainha, deixando na maioria das vezes o ninho todo revirado que acaba por se extinguir pelo ataque das formigas.
Delas se aproveita o cerume, o geoprópolis, uma mistura do própolis com terra, além do pólen, da geleia real e também de seu finíssimo mel, que tem sabor delicado. O pólen é coletado nas flores e processado por elas com algumas enzimas para ajudar na conservação. Depois ele é depositado nuns potinhos que vão sendo levantados do ladinho da colmeia. É um alimento rico em proteínas e pode ser comido puro ou misturado com um tiquim de mel, com gosto levemente fermentado. Essa pasta de pólen por aqui é chamada de “borá”, mas tem lugar que recebe o nome de “samburá” ou “saburá”.
Mas a maior tarefa das abelhas nativas é, sem dúvida, na polinização. Pra se ter uma ideia, perto de um terço da alimentação humana é dependente direta ou indiretamente da polinização realizada por esses minúsculos seres. Trabalhar com elas é uma aventura que nos remete a um labirinto de perguntas ainda sem muitas respostas, mas o fascínio é imenso.
Inté a próxima lua!
