Entenda por que a sensação térmica do verão está muito além do que marcam os termômetros cariocas
Nesses dias de verão intenso, além do trivial “mas que calor!”, entrou no repertório das rodas de conversa a sensação térmica. Quase sempre bem mais alta do que a temperatura real do ar, ela é citada por todos, no entanto poucos sabem o que exatamente significa. A única certeza é de que o termômetro da esquina não reflete o desconforto sentido.
Pois é precisamente isso: a sensação térmica estima a relação entre a temperatura real e os fatores externos que potencializam este desconforto. Não é um termo novo, remonta à década de 1970, mas se encaixou como uma luva neste período de temperaturas máximas recordes. Tanto que o próprio Alerta Rio, sistema da prefeitura que faz medições meteorológicas, passou a registrar diariamente, neste verão, a sensação térmica.
— Esses registros começaram há cerca de um mês, exatamente porque é um verão atípico, com índices que vêm chamando a atenção — comentou Pedro Jourdan, meteorologista-chefe do Alerta Rio, destacando que o recorde da estação ocorreu no dia 21 de dezembro, quando, em Guaratiba, o termômetro oficial do órgão marcava, às 15h, a máxima de 40,7°C, e a sensação térmica era de escaldantes 55°C.
UMIDADE DO AR INFLUI
São três fatores que influenciam na sensação térmica: a temperatura real, a velocidade do vento e a umidade relativa do ar. Equações nada simples nos levam a um número, mas especialistas deixam claro que se trata apenas de um cálculo empírico e lembram que a subjetividade é outro fator importante na percepção de calor ou frio do ambiente. Para os leigos e curiosos, não é preciso perder muito tempo em equações complicadas, quando só se quer saber se o dia está realmente infernal. O Serviço Nacional de Meteorologia dos EUA (Noaa, na sigla em inglês) disponibiliza em seu site uma calculadora, em que basta colocar a temperatura e a umidade do ar para saber a sensação térmica.
Em linhas gerais, quando queremos medir o quão rigoroso é um dia de inverno, a velocidade do vento é determinante. Já quando o cálculo é para os dias de calor intenso, usa-se o indicador de umidade. Em ambos os casos, a temperatura é o item que não pode faltar.
— Em dias úmidos e quentes, transpiramos mais, porém o suor não evapora, o que prejudica o resfriamento do corpo — explica Jourdan.
Quanto mais altas a temperatura e a umidade, maior o desconforto. Em dias secos, ao contrário, a percepção de calor fica próxima da temperatura real. Para se ter ideia, se os termômetros marcam 30°C e a umidade está em 50%, a sensação térmica será de 31°C, segundo a Noaa. Já se nesse mesmo dia que marca 30°C, a umidade for de 90%, considerada muito alta, a sensação pula para 41°C.
O Rio de Janeiro tem índices de umidade relativa do ar geralmente altos, devido à proximidade com o oceano, segundo Jourdan. Ontem, por exemplo, embora a temperatura do ar tenha dado uma pequena trégua se comparada a dias anteriores e marcado a máxima de 33,5°C, a sensação térmica chegou a 43°C em Guaratiba.
— É uma amplitude bastante grande, que ocorreu porque o dia estava muito úmido (de 99% naquele local) — explicou Jourdan. — Em média, esta diferença é de até 5°C.
Meteorologista do Climatempo, Bianca Lobo acrescenta que o Rio apresentou dias bastante secos, por conta da dificuldade da chegada da frente fria, mas, mesmo assim, a percepção de calor continuou elevada. Isso ocorreu porque as temperaturas já eram extremas.
— As temperaturas do início do ano beiravam os 40°C. Neste caso, se tivermos uma umidade de 40%, então a sensação pula para 48°C — exemplifica a especialista.
TEMPO ABAFADO E PANCADAS DE CHUVA
Apesar da chuvinha tímida que refrescou um pouco a cidade nos últimos dias, a tendência é que as altas temperaturas e a sensação térmica igualmente elevada se mantenham nos próximos dias, segundo o Alerta Rio. A partir de hoje, existe a possibilidade de pancadas de chuva atingirem a cidade, mas a temperatura deve permanecer em torno dos 35°C. E no meio da próxima semana poderá voltar a 40°C.
— Será um quadro climático mais típico da estação, com tempo abafado e pancadas de chuvas à tarde — afirma Jourdan.
Já segundo o Climatempo, apesar das temperaturas acima da média para janeiro, uma frente fria está chegando com uma massa polar forte para afastar o ar muito quente. Este ar polar vai conseguir enfraquecer o calor gerado pelo bloqueio atmosférico de alta pressão subtropical do Atlântico Sul.
