Efeitos do aquecimento global na saúde ainda são desconhecidos
As mudanças climáticas são uma ameaça séria à saúde humana? A lógica simples poderia sugerir que a resposta é sim, um ponto que a administração Obama está usando para conseguir apoio aos esforços presidenciais para tornar as mudanças climáticas o ponto central de seus últimos meses no salão oval.
Um documento da Casa Branca listou os maiores riscos. Os casos de asma vão piorar, as mortes relacionadas ao calor aumentarão e o número e a variedade de insetos transmissores doenças, que antes estavam confinadas aos trópicos, também.
Mas os pontos expressam uma certeza que muitos cientistas dizem ser ainda inexistente. Os estudiosos concordam que cresce a evidência de que climas mais quentes têm um efeito na saúde, mas dizem que é apenas uma parte de um conjunto muito complexo de forças que influenciam o todo.
Por exemplo, os cientistas explicam que as viagens pelo globo e o comércio, e não as mudanças climáticas, trouxeram os primeiros casos de chikungunya (lê-se chicungunha), uma doença tropical transmitida por mosquitos, para a Flórida.
As temperaturas podem estar subindo, mas a quantidade total de mortes pelo calor não estão, em parte porque a marcha do progresso ajuda as pessoas a se adaptar – o fato de o ar condicionado ter se tornado mais comum, por exemplo, e os tratamentos para doenças do coração, um grande risco para mortes relacionadas com o calor, terem melhorado.
O ressurgimento de florestas no leste dos Estados Unidos e o subsequente aumento na população de veados fizeram crescer rapidamente o número de carrapatos e a doença de Lyme. Mas o aumento da incidência da doença nos Estados Unidos tem pouco a ver com o clima, dizem especialistas de saúde.
“Há muita evidência mostrando que os climas extremos podem ser prejudiciais às pessoas, mas o que não sabemos é se esses efeitos estão ficando piores”, afirma Patrick L. Kinney, diretor do Programa de Clima e Saúde da Universidade Colúmbia, explicando que os cientistas não têm as informações de longo prazo necessárias para identificar como as mudanças climáticas estão afetando a saúde.
Ainda assim, as mudanças climáticas são um fator importante. A tasneira agora floresce por cerca duas ou três semanas a mais no centro-norte americano do que há poucas décadas, fazendo com que os sintomas de alergias continuem outono adentro, de acordo com pesquisas lideradas por Lewis H. Ziska, cientista de plantas do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos.
O mosquito tigre asiático, que foi do Japão para o Sul dos Estados Unidos nos anos 1980, provavelmente em um carregamento de pneus usados, recentemente se espalhou mais para o norte até Connecticut, uma invasão que os cientistas relacionaram ao aumento das temperaturas, afirma Dina Fonseca, professora de Entomologia na Universidade Rutgers.
“Não acho que podemos deixar de lado o papel do clima”, diz Mary H. Hayden, cientista do Centro Nacional de Pesquisa Atmosférica em Boulder, no Colorado, que estuda clima e saúde, sobre a dengue, uma doença tropical disseminada por mosquitos. “Mas podemos afirmar que há uma ligação direta de causa e efeito? Não. É mais complexo do que isso.”
A ciência está em sua infância. Informações sobre insetos, contagem de pólen e doenças em países em desenvolvimento normalmente não são muito regulares. Muitos estudos mostram associações, o que significa que duas coisas estão ocorrendo ao mesmo tempo, mas não deixam claro se uma está causando a outra. Alguns especialistas comparam este estágio com o estado da ciência quando se começou a entender os efeitos do cigarro no câncer de pulmão.
No entanto, a evidência está se acumulando. Em 2000, a primeira Avaliação Nacional do Clima, um documento do governo que tece as melhores evidências das mudanças climáticas, tinha apenas 21 páginas sobre saúde. A avaliação mais recente inclui uma seção especial sobre saúde que cobre mais de 400 páginas.
Dois jornais especializados – Philosophical Transactions B e The Lancet – dedicaram muitas páginas ao assunto este ano. Os europeus, que não estão sobrecarregados com o nível de controvérsia política a respeito das mudanças climáticas dos Estados Unidos, normalmente fazem interpretações mais conclusivas sobre o assunto.
“Temos muito mais certezas agora”, afirma Nick Watts do Instituto de Saúde Global da Universidade College London, coautor da análise do Lancet. “Nos sentimos muito confortáveis de falar sobre os efeitos diretos das mudanças climáticas na saúde.”
O efeito do clima na saúde é geralmente menos pronunciado em países ricos como os Estados Unidos, onde muitas pessoas estão protegidas dos fatores climáticos em suas casas. Um estudo comparando Laredo, no Texas, e uma cidade do outro lado da fronteira do México descobriu que a incidência de dengue era muito maior no México, apesar de os mosquitos que transmitem a doença serem mais abundantes no Texas. Os pesquisadores atribuem as vantagens do Texas à economia – ar condicionado e janelas que fecham bem – não ao clima.
Mas as mudanças climáticas também estão afetando a saúde em países desenvolvidos. No Canadá, a população de carrapatos explodiu nos últimos anos, de duas áreas onde os insetos vivem e se reproduzem para 13 áreas desde 1997. Os pesquisadores descobriram que algumas regiões se tornaram mais quentes, e assim mais apropriadas para os carrapatos. Temperaturas altas permitem que um número maior de carrapatos imaturos sobrevivam até se tornarem adultos, expandindo a população.
“As áreas apropriadas para as colônias de carrapatos estão mudando”, explica Patrick Leighton, professor assistente de Epidemiologia Veterinária da Universidade de Montreal.
Insetos como carrapatos e mosquitos não podem regular sua temperatura corporal, por isso sua reprodução, alimentação e ciclo de vida são extremamente sensíveis às temperaturas. O número de casos de doença de Lyme localmente adquiridos no Canadá aumentou de 40, 15 anos atrás, para cerca de 700. Quase todas as infecções anteriores costumavam acontecer fora do Canadá. Hoje a maioria é adquirida no país.
“Essa questão da doença de Lyme foi um pulo da teoria para a realidade para nós”, confirma Nick Ogden, cientista sênior da Agência de Saúde Pública do Canadá. “Agora os carrapatos estão realmente se mudando para cá.”
Mas a doença de Lyme é também um exemplo de quão difícil é tirar conclusões amplas sobre como as mudanças climáticas afetam a saúde. A doença também está indo em direção ao sul, com grande parte da Virgínia e da Carolina do Norte agora cheias de carrapatos que transmitem a doença. Mas esse padrão parece ter pouco a ver com o clima.
C. Ben Beard, diretor associado para mudanças climáticas do Centro de Controle e Prevenção de Doenças, diz que o reflorestamento no leste dos Estados Unidos e o aumento da população de veados e pessoas podem ser fatores mais preponderantes.
“Provavelmente não é o clima que está causando a expansão para o sul”, diz ele. Em geral, os efeitos da mudança de temperatura nos carrapatos são mais significantes nos climas do norte, explica ele.
O calor causou centenas de mortes no Paquistão recentemente, com as vítimas concentradas entre os idosos e pessoas que passam muito tempo nas ruas, como os mendigos. Os cientistas dizem que é impossível apontar um evento climático específico como resultado das mudanças no clima, mas afirmam, cada vez com mais certeza, que as temperaturas estão subindo.
Mas mesmo falar sobre o calor é complicado. Uma revisão recente da mortalidade por calor nos Estados Unidos descobriu que a taxa de mortes relacionadas às altas temperaturas diminuiu para menos da metade dos anos 1987 a 2005. Os pesquisadores concluíram que a população se tornou mais resistente ao calor ao longo do tempo, o que pode ser resultado em parte do uso crescente de sistemas de alerta de calor nas cidades e das melhorias nos tratamentos médicos para condições que são fatores de risco para mortes causadas pelas altas temperaturas.
Em maio, um estudo do The Lancet analisou 74 milhões de mortes de 1985 a 2012 em mais de dez países, incluindo os Estados Unidos, e descobriu que cerca de 8 por cento das mortes foram causadas por temperaturas anormais. Dessas, a taxa de mortes pelo frio – mais de sete por cento – é muito maior do que a de calor, cerca de 0,42 por cento.
Os riscos para a saúde por causa das mudanças climáticas são fundamentalmente locais. Os perigos do calor são maiores em Nova Deli do que em Nova York, não porque é mais quente na cidade indiana, mas porque menos gente tem eletricidade, casas resistentes e cuidados médicos modernos. O que torna difícil tirar conclusões. Mas isso não significa que os riscos não existem. Como nota Kinney: “Se esperarmos até que a evidência nas questões de saúde seja forte, pode ser muito tarde”.
