Deserto em Cabo Verde é formado por grãos de areia que atravessam o Atlântico

Chove o tempo todo. Mas não é de água que falamos, muito pelo contrário. É deserto. Chove areia.

Das dez ilhas de Cabo Verde, Boavista é a que fica mais perto do continente africano. São menos de 500 quilômetros até a costa do Senegal.

O Deserto de Viana é um filho legítimo do maior e mais quente deserto do mundo, o Saara. São 7 quilômetros quadrados com areia que sobrevoa o Atlântico até chegar ao deserto. Não é a cara do pai?

Um pequeno Saara, de desenhos ondulados, um galho ou outro fincado na areia, seco.

Em um país tão modesto em recursos naturais, que importa mais de 80% dos alimentos que consome, a riqueza mais óbvia vem do mar.

Garoupa, bica, vidião, moreia, lula, variedade. Peixes desfilam pelas ruas à procura de comprador.

Quem vê o tamanho do dourado imagina uma situação de fartura, de facilidade de trazer do mar peixes tão grandes. Foi-se o tempo.

Aos 68 anos, a mão segue firme no controle do barco. É o seu Armando. É meio-dia, ele saiu às 4h, sozinho, para bem longe, onde passou 30 minutos batalhando com o Marlim, que, como vemos, foi o perdedor. Se tudo der certo, seu armando vai vender o peixe por R$ 60. Um dinheiro suado e arriscado.

Globo Repórter: E não é perigoso não, seu Armando?
Armando, pescador: Ah, perigoso, é perigoso. Muito cansado.

Um toco bate em outro toco para firmar o mastro. Um leme de muitos mares dantes navegados é fixado na popa. Sobe a vela feita de sacas de arroz e farinha. É quase uma jangada um pouco mais estruturada. O problema é que tem levado para destinos cada vez mais distantes.

João dos Santos, pescador: Vamos para longe.
Globo Repórter: É perigoso?
João dos Santos: Perigoso, é risco, tem que arriscar.

Reclamam que a pesca internacional em Cabo Verde diminuiu muito a oferta de peixes e asfixia ainda mais a frágil economia do país. Longe das águas calmas da baía, a busca pelos peixes é de alto risco.

Cabo Verde se tornou independente de Portugal há menos de 40 anos. A vida de colônia, quando os portugueses viviam sob a ditadura de Salazar, era ainda mais dura.

Um antigo campo de concentração foi o cenário de tortura e, segundo os números oficiais, foram 36 mortes. Nos anos 60, entre as centenas de cabo-verdianos presos, estava um senhor, que revisita a prisão.

“Nós fizemos uma luta revolucionária para a independência do nosso país”, contou Fernando Tavares, comerciante.

Para o seu Fernando Tavares, foram três anos lá.

“Eles esperavam que nós devíamos ficar a chorar. Nós enfrentávamos a polícia assim, de cara, faça o que quiser, não tínhamos medo de morrer”, disse Fernando Tavares.

O som ainda é aquele típico som de cadeia. E tudo remete a dor, perda, sofrimento. E o seu Fernando aceitou voltar ao campo de concentração, sem rancor, sem ódio. O velho militante não desaprendeu a sorrir.

Para o seu Fernando, manter o campo de concentração é lembrar a vitória sobre ele. No corredor onde estão as fotos de alguns presos políticos, seu Fernando aparece sorrindo.

A síntese de um país cheio de histórias cruéis, mas que não perde o sorriso e o bom humor. Um povo que aprendeu a ser solidário para sobreviver.

Um país que oferece um mar padrão caribe aos turistas e mergulhos cheios de cores e de vida, como pudemos confirmar.

Um país de mulheres equilibristas, que levam acima da cabeça uma extensa e incrível variedade de artigos. Mãos livres, coluna ereta, as mulheres de Cabo Verde, que em geral falam melhor em crioulo do que em português. A gente até que estava se entendendo, até que ela pediu um dinheirinho, o equivalente a uns R$ 5.

Ela ri feliz, porque percebeu que Tino Marcos entendeu, mas… “Quando é para dar dinheiro, a gente não entende não”, brincou o repórter.

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