Cotias do Campo de Santana ajudam a reflorestar Parque Nacional da Tijuca

Entre os prédios imponentes, a vida segue acelerada. Trânsito intenso e uma multidão com muita pressa. No meio de tanta agitação fica o Campo de Santana, um pequeno parque urbano bem em frente à Central do Brasil, em uma das avenidas mais movimentadas e barulhentas da cidade. O curioso é que a área verde, espremida no Centro do Rio, é o refúgio de muitos animais.

Entre pavões, patos e famílias de gansos, moram as cotias. Quase 500, que aprenderam a viver ali. Os bichos nem estranham o vai-e-vem de tanta gente. Para alimentar os animais, funcionários do parque servem pedaços de abóbora, repolho, batata doce. A hora do almoço é uma festa. As cotias saboreiam tanta fartura. E por pouco, a câmera do Globo Repórter não faz parte do banquete.

“Os bichos estão aqui, estão sendo alimentados. É uma atração para as pessoas, tem gente que vem aqui desde criança ver os bichos. E aqui, certamente não é o lugar natural dos bichos”, diz Bruno Cid, biólogo da UFRJ.

Lugar de animal silvestre é na floresta.

“Hoje você anda numa floresta dessa, você não vê bicho nenhum. Nós vivemos hoje num mundo de florestas vazias”, defende Fernando Fernandez, biólogo da UFRJ.

Parque Nacional da Tijuca, uma das maiores florestas urbanas do mundo. A Sol é uma cotia selvagem que foi capturada, examinada e ganhou um colar com radiotransmissor. Em breve, vai ser solta. Sol nasceu nas matas. É filha ou talvez neta de cotias que um dia viveram no Campo de Santana.

Globo Repórter: E você sente meio pai das cotias?
Caio Kenup, biólogo da UFRJ: Sim, sim. A gente fica triste quando elas morrem, fica torcendo para elas engravidarem. A gente se sente meio pai mesmo.

Assim que o Caio abre a gaiola, Sol corre em direção à mata para fazer o que mais gosta: dispersar sementes. As cotias têm o hábito de enterrar os frutos e alguns, esquecidos, acabam germinando.

“São conhecidas por essa razão, como verdadeiras jardineiras da floresta. A cotia é um roedor que tem dentes bastante robustos, grandes, que conseguem então quebrar frutos que outros animais não conseguem”, explica Alexandra Pires, bióloga da UFRJ.

Não é à toa que um dos principais alimentos da cotia é a fruta da árvore cotieira.

O Globo Repórter conseguiu pegar uma das frutas da cotieira. Ela é o alvo da cotia.

Globo Repórter: Só a cotia consegue comer?
Alexandra: Imagina que animal vai engolir isso aqui ou carregar. Então a cotia pega essas sementinhas e ou come ou então enterra essas sementes e vai permitir a regeneração dessas árvores.
Globo Repórter: E ela enterra certinho?
Alexandra: Enterra de um jeito inacreditável, profundidade exata. E ela ainda coloca a parte que vai virar raizinha para baixo e a folhinha para cima.

Essas “jardineiras” da natureza não eram vistas por lá há quase 40 anos. Até que um grupo de biólogos começou um projeto ambicioso: refaunar a floresta.

“Refaunação é você preencher com vida a floresta vazia. É você colocar de novo essas espécies animais daqui mesmo, nativos, que um dia desapareceram, a relativamente pouco tempo atrás”, explica Fernando.

Foi assim que 19 cotias mudaram de endereço: saíram do Campo de Santana, passaram por exames e depois de 40 dias, foram introduzidas na mata.

“A gente sempre faz o exame de sangue em todos os animais que a gente solta para entender se eles realmente podem contribuir para a população lá no futuro ou se vão espalhar doença lá na floresta”, diz Bruno Cid.

“Uma vez que a gente faça isso, a gente tem que acompanhar essa população para ver se ela está diminuindo, se ela está aumentando, se ela está se no início do ano que vem, ganham a liberdade e mudam de endereço: vão viver na Mata Atlântica.

Globo Repórter: Vocês querem ver essa floresta aqui povoada de bichos?
Alexandra: É. Principalmente funcionando como uma floresta, com animais e as plantas, interagindo e garantindo a sobrevivência, não só da floresta, mas da gente também.

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