Centenas de urubus são envenenados e mortos por caçadores
No Zimbábue, caçadores utilizaram cianeto para matar dezenas de elefantes por suas presas de marfim. Em Moçambique, três leões morreram depois de comerem uma isca com um pesticida.
Envenenar animais selvagens africanos é uma prática antiga, mas os ativistas temem que isso esteja aumentando em algumas áreas, principalmente com o acesso relativamente fácil aos produtos químicos agrícolas e com o crescente mercado de partes de animais, que aumenta a pressão sobre diversas espécies.
A ameaça é agravada pela natureza indiscriminada dos assassinatos por envenenamento, em que um único cadáver contaminado pode matar vários animais, especialmente urubus. Neste mês, um banco de dados foi lançado em todo o continente para coletar informações sobre o envenenamento da vida selvagem e compreender melhor um fenômeno muito documentado no Sul da África, onde 70 leões foram fatalmente envenenados nos últimos 18 meses.
Embora a African Wildlife Poisoning Database não possua registros de áreas subdeclaradas, incluindo a África Central, ela existe desde 1961 e lista quase 300 incidentes de envenenamento em 15 países africanos que mataram mais de 8 mil animais de dezenas de espécies, incluindo leopardos, hienas, impalas e cegonhas.
“Ainda é um grande trabalho em progresso”, ressaltou Darcy Ogada coordenadora do banco de dados sediado no Quênia e diretora-assistente de programas da África do The Peregrine Fund, um grupo de proteção.
O objetivo, segundo ela, é conseguir que os governos prestem mais atenção ao “mundo subterrâneo” do envenenamento da vida selvagem que também ameaça bois, vacas, fontes de água e as pessoas que consomem carne.
Caçadores armados já mataram centenas de milhares de elefantes e milhares de rinocerontes na África nos últimos anos, mas cada vez mais traficantes de animais selvagens têm envenenado cadáveres para matar urubus.
Anteriormente, os venenos, como a estricnina, eram usados principalmente por fazendeiros para matar chacais, cães selvagens e outros predadores que atacam bois e vacas embora algumas comunidades tenham respondido positivamente a campanhas contra a prática cruel.
Em 2013, entre 400 e 600 urubus morreram depois de comerem um elefante que foi morto por seu marfim na área do Zambezi, na Namíbia, disse Andre Botha, gerente do banco de dados de envenenamento e gerente de projetos especiais da Endangered Wildlife Trust, um grupo sul-africano. “Este é o maior número de urubus mortos em um único incidente de envenenamento que temos no banco de dados até o momento”, ressaltou.
Algumas das espécies de urubus da África, cujas partes também são consideradas valiosas pela medicina tradicional, estão listadas como criticamente ameaçadas de extinção. As populações do Sul da Ásia são uma parcela do que eram principalmente devido à alimentação de bois e vacas contaminados com diclofenaco, uma droga veterinária que é tóxica para urubus. As proibições do governo em relação à droga, no entanto, ajudaram a controlar um pouco as perdas.
Os leões africanos estão em perigo em parte devido à invasão de seus habitats pelos humanos e à caça que os priva de suas presas. A morte de leões por envenenamento, muito praticada por fazendeiros, parece refletir a crescente demanda local e asiática pelas garras, ossos e outras partes dos leões usados na medicina tradicional, de acordo com Botha.
Cerca de 70 leões foram envenenados no Sul da África desde o ano passado. A base de dados informa um total de 51 leões mortos dessa maneira entre 1980 e 2015.
Em Julho, funcionários do Mozambique’s Limpopo National Park, em Moçambique e na fronteira com a África do Sul, encontraram pistas de caçadores, iscas com veneno e cadáveres de três leões e uma hiena, de acordo com a Peace Parks Foundation.
As autoridades acreditam que os caçadores utilizaram uma substância contendo o pesticida aldicarb, proibido pela África do Sul devido à ameaça ao meio ambiente, revelou a VOA News.
Outro pesticida, o carbofurano, é usado em países como o Botswana, a Tanzânia e o Quênia, disse Tim Snow, um ativista sul-africano que ajuda a treinar guardas-florestais do sul da África para atuar em regiões de envenenamento.
De acordo com ele, os caçadores do Zimbábue mataram mais de 90 elefantes desde 2015 ao envenenarem fontes de água com cianeto, um produto químico usado para extrair o ouro do minério. As autoridades encontraram cianeto dentro de veículos em bloqueios policiais e em um armazém na cidade de Bulawayo, disse Snow.
Educar as comunidades sobre as consequências dos envenamentos da vida selvagem é fundamental, disse Mark Anderson, CEO da BirdLife África do Sul. Proibir venenos possui um impacto restrito porque “há um suprimento ilimitado e uma variedade de venenos que podem ser utilizados”, enfatizou.
