As flores que nasceram no lugar do lixo renovam a esperança da Vila Kennedy

A gente colhe o que planta. Na Vila Kennedy, os moradores da Rua Adis Abeba estão colhendo hortelã, acerola, coentro selvagem, rosas brancas e aguardam o abacaxi que está nascendo e o maracujá que já brotou. De manhã, se encantam com as borboletas. De noite, as crianças brincam com os vaga-lumes. O cenário é bastante diferente do encontrado há dois: no mesmo lugar, a calçada servia como um depósito de lixo.

— A gente tem uma máxima: “Quer borboletas, plante flores. Quer ter doença, jogue lixo” — diz Naldomar da Silva, conhecido na comunidade como Mazola, de 48 anos.

Local era um lixão
Local era um lixão Foto: Arquivo pessoal

A iniciativa dos vizinhos começou em 2016. Cansados do lixão, jogaram os entulhos para o meio da rua, o que obrigou a Comlurb a retirá-los do local. Começaram a plantar algumas coisas pequenas, em vasinhos. No entanto, outros moradores começaram a levar as plantas para casa. A solução foi usar pneus — doado pelos garis — com terra, que ficam fixos no local.

Ali, tudo que se planta dá. As senhorinhas da vizinhança dão pitacos sobre o que deveriam colocar no jardim. Mazola e os amigos se revezam nas tarefas de plantar, regar e podar. Tudo intuitivamente.

— Aqui, a gente não sabe nada. Seria até bom se alguém ensinasse — diz.

Dadai diz que tudo que se planta, dá
Dadai diz que tudo que se planta, dá Foto: Gustavo Miranda / Agência O Globo

A Vila Kennedy era ainda um bairro rural quando Maria José da Silva, conhecida como Dadai, de 62 anos, foi morar na comunidade, antes de o filho Mazola nascer.

— A gente nem escolhe o que vai plantar. O povo pede e a gente coloca — diz Dadai.

A comunidade mudou muito desde que ela chegou. Virou um dos pontos mais violentos do Rio e, no começo da última semana, a antiga chácara recebeu a visita das Forças Armadas, numa das primeiras ações da intervenção federal no estado do Rio. Os militares percorreram toda a comunidade. Mas ainda não entrou a tão esperada melhoria de serviços. Colado ao jardim dos moradores, há um valão sobre o qual a turma nada pode fazer, a não esperar para que o poder público dê um jeito. Há ainda questões importantes de saúde, educação e lazer (veja ao lado) a serem resolvidas. Mas eles não desistem. O grupo de Dadai, Mazola e amigos já aprendeu que flores podem nascer no lugar onde existia o lixão.

UPA da VK passou de 60 mil atendimentos em janeiro de 2017 para 20 mil no mesmo mês de 2018
UPA da VK passou de 60 mil atendimentos em janeiro de 2017 para 20 mil no mesmo mês de 2018 Foto: Gustavo Miranda / Agência O Globo

Saúde

O número de atendimentos da UPA da Vila Kennedy caiu de 60 mil, em janeiro de 2017, para 20 mil, no mesmo mês de 2018. O problema foi o atraso nos repasses. A unidade chegou a fazer greve entre os dias 12 e 28 de fevereiro. A prefeitura diz que a situação foi normalizada. “Cheguei com meu marido morrendo de dor e dei com a cara na porta”, diz Patrícia Ferreira, de 28 anos.

Escola ficou inundada na Vila Kennedy
Escola ficou inundada na Vila Kennedy

Educação

A falta de professores atrapalha a comunidade. “De tarde, minha filha fica sem aula”, diz Rafaela Souza, de 33 anos. Na última terça, uma escola ainda sofreu um alagamento, que não causou danos. A secretaria municipal de Educação informou que está resolvendo a falta de docentes e que desenvolve projetos para a formação de leitores e músicos. “Com relação à falta de professores em Unidades Escolares da Vila Kennedy, a Coordenadoria Regional de Educação está se organizando para realizar este atendimento com professores lotados em sua sede e a referida Creche se inclui nesta estratégia. A Vila Kennedy é um caldeirão de criatividade. As diretoras das Unidades Escolares, com o objetivo de envolver os alunos em atividades que os tirem da triste realidade que vivenciam, são incansáveis na realização de ações pedagógicas que ultrapassam os muros das escolas e envolvem as famílias e a comunidade como um todo. A equipe da UPP que atua na área organizou a Orquestra Bela Oeste e alguns alunos de nossas Unidades participam deste Projeto. A região conta com o Teatro Grande Otelo que recebe nossas escolas em eventos que realizam, contando com a parceria junto ao equipamento”, afirmou a secretaria.

CVT da Vila Kennedy está fechada desde 2014
CVT da Vila Kennedy está fechada desde 2014 Foto: Gustavo Miranda / Agência O Globo

Profissionalização

A comunidade espera desde 2014 pela abertura do Centro Vocacional Tecnológico (CVT) construído no local. O prédio, que custou R$ 2 milhões, nunca foi utilizado. Ele daria cursos profissionalizantes. A Faetec, que administra os CVTs, afirmou que não pode abrir por causa da crise e aguarda recursos federais para fazer a unidade funcionar.

Vila Olimpíca da Vila Kennedy sofre com problemas
Vila Olimpíca da Vila Kennedy sofre com problemas Foto: Gustavo Miranda / Agência O Globo

Esporte e lazer

Fazer esporte na comunidade também está difícil. A Vila Olímpica Jornalista Ary de Carvalho, na Vila Kennedy, está com problemas estruturais, como pistas quebradas. Moradores contam que os campos e outras instalações também estão com problemas. A subsecretaria de Esporte e Lazer foi procurada, mas não se pronunciou sobre os problemas da vila olímpica.

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