Adapta Sertão
Projeto de adaptação climática transforma a vida de sertanejos
Como se já não fosse seco o bastante, ao longo dos últimos 50 anos, os municípios da Bacia do Jacuípe, no semiárido baiano, sentiram uma piora nos efeitos das mudanças climáticas. Durante esse tempo, a região viu as chuvas diminuírem em torno de 30% e a temperatura média subir 1,75°C, como apontam pesquisas recentes do Centro Clima da Universidade Federal do Rio de Janeiro, em parceria com a Universidade da Califórnia. Mas por incrível que pareça, aquele local se tornou uma espécie de oásis no meio de um deserto. Ali se produz alimento suficiente para alimentar os filhos daquela terra durante o ano todo.
Milagre?
Só se for por meio do trabalho “abençoado” e duro realizado pela equipe da Rede de Desenvolvimento Humano (REDEH), uma associação civil sem fins lucrativos, que tem a missão de promover a melhora nas condições de vida de comunidades carentes. Foi esse grupo, liderado pela empreendedora social Thais Corral, que desenvolveu o Adapta Sertão, um projeto de adaptação às mudanças climáticas, que busca fortalecer a agricultura familiar da região da Bacia do Jacuípe.
“Já beneficiamos desde 2006 cerca de 200 famílias de 14 municipalidades e seis cooperativas. Nos próximos quatro anos, vamos chegar a 800 famílias”, celebra Thais. “Estamos proporcionando uma melhor qualidade de vida a essas pessoas, com segurança alimentar e a possibilidade de se adaptar melhor às condições climáticas locais”, diz.
Esses resultados renderam diversos reconhecimentos à iniciativa. O Adapta Sertão já foi honrado, por exemplo, com o SEED das Nações Unidas (2008), o Prêmio Celso Furtado de Desenvolvimento Territorial (2013) e o Prêmio Mandacaru do Instituto Ambiental Brasil Sustentável (2013). Mais recentemente, o trabalho foi um dos 30 selecionados pelo prêmio Objetivos do Milênio (ODM), coordenado pela Secretaria-Geral da Presidência da República, em parceria com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) e com o Movimento Nacional pela Cidadania e Solidariedade.
Mas o que faz do Adapta Sertão um projeto merecedor de tanto reconhecimento?
Segundo Thaís Corral, é o que ele traz de inovação. Na prática, como explica a empreendedora, isso significa o desenvolvimento e disseminação de um sistema produtivo que aumente a resiliência climática, aprimorando a ação das cooperativas rurais como agentes transformadores da agricultura familiar.
A estratégia de trabalho começa pela estruturação das propriedades rurais a partir do Modulo Agroecológico Inteligente e Sustentável (MAIS), que, segundo os responsáveis pela iniciativa, foi cuidadosamente desenhado para permitir que as famílias agricultoras continuam a produzir alimentos também durante os períodos de seca.
Para se alcançar esse resultado, o programa teve que promover uma verdadeira reengenharia de políticas públicas, articulando recursos antes disponíveis, porém não utilizados.
Um outro ponto foi a busca pelo acesso às tecnologias. Afinal, de nada adianta ter uma linha de crédito disponível se no fim das contas o produtor não tem acesso aos outros ingredientes que permitem com que ele de fato produza. Pensando nisso, o Adapta Sertão fez um acordo com os fabricantes para que os kits de irrigação fossem revendidos pelas próprias cooperativas, fazendo com que esses produtos se tornassem acessíveis aos agricultores, tanto no que diz respeito ao aspecto financeiro da operação quanto ao logístico. Sem esse acordo, seria preciso buscar os equipamentos em lugares distantes e a um custo muito alto para a realidade local.
“Como se percebe, estamos conectando todas essas políticas e conseguindo resultados maravilhosos. Uma metáfora disso tudo seria como se nós estivéssemos revitalizando um ecossistema”, compara Thais. “Mas é um trabalho de formiguinha. Se você visse de onde começamos há oito anos, não iria acreditar que estamos ganhando todos esses prêmios”, lembra ela, que atribui o sucesso da empreitada ao engajamento da própria comunidade. “Construímos em um alicerce forte”, conclui.
Fonte: Mercado Ético


