A glória do miserável
Germano Romero
O olhar daquele cachorrinho perebento, abandonado num canto de calçada, certamente seria capaz de se contrapor à austeridade ou indiferença de qualquer ser humano, inclusive daquela senhora. Voltando de um restaurante, ela trazia consigo a parte do jantar que se excedeu ao apetite e que seria oportuna e posteriormente degustada.
Quem primeiro se condoeu da situação foi o seu companheiro, mestre Gonzaga Rodrigues, ao se deparar com o quadro, que mais lembrava os meninos de rua de Murillo. O de Sevilha.
Talvez fosse difícil imaginar qual dos olhares era mais penoso. O do cachorro faminto que, ao farejar traços de saciedade no semblante da família satisfeita, pressentiu haver comida naquele embrulho, ou o do cronista intimando compaixão à sua mulher.
Em crucial verdade, ambos mendigavam. O cotovelo de Gonzaga insistia tocando a cintura da patroa, fitando-a com a mesma súplica que vinha da calçada, no outro olhar. Ambos esperançosos pela aquiescência da sensibilidade feminina.
Segundo ele, só um grande poeta, um Drummond, um Bandeira, seria capaz de decifrar a intensidade de tamanha sofreguidão na esfaimada fisionomia do rabugento. Mas felizmente não foi necessária poesia de origem tão notável para impelir o gesto de dar de comer a quem tem fome .. Posto o regalo no avesso da tampa do recipiente, eis a glória do miserável! Agora literalmente refestelado. Poema algum era mais preciso e nem superaria a emoção de ver, ao vivo, tanta alegria.
Neste momento o dócil semblante do animalzinho exibia simultaneamente dois olhares, difusos e divididos. Um, regozijado pela saciedade, e o outro com a plenitude da gratidão. Talvez não exista um bicho tão expressivo como um cachorro quando quer falar pelos olhos.
Daí Gonzaga invocou novamente o desafio drummondiano, duvidando se algo além da poesia lograria descrever aquela expressão com tamanha magnitude? Foi quando suscitei ao cronista: A poesia ou a música, não é, amigo? “Ah, a música, ainda mais! A música é direta, imediata, não tem intermediários” – respondeu.
E cá com meus botões, balbuciei: Ah, Gonzaga… A música ou tua crônica, que é toda poesia.
