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A invasão do oceano Atlântico provoca grandes perdas em Atafona, no Rio de Janeiro

A invasão do oceano Atlântico provoca grandes perdas em Atafona, no Rio de Janeiro

ATAFONA, RIO DE JANEIRO A maré está alta e as ondas se aproximam da casa à beira-mar onde vive José “Nenéu” Rosa. Ele acabou de almoçar um robalo, que pescou logo antes do amanhecer. Descalço e sem camisa, com a pele bronzeada por 46 anos sob o sol, o pescador verifica a estabilidade de um paredão rochoso de mais de um metro de altura ao redor de sua casa, que oferece proteção contra o agitado oceano Atlântico. Ele suspira de alívio ao ver que sua propriedade está segura, pelo menos por mais um dia.

À tarde, fortes rajadas de vento vindo da direção nordeste levantam ondas de quase três metros que se chocam contra o muro da casa de Nenéu. Seus cinco cachorros latem assustados, enquanto seus três gatos se refugiam no telhado. Nenéu sobe na barreira, parcialmente destruída por uma tempestade há cerca de um ano, e aponta para o fundo do mar onde estão os restos da casa onde ele e seus sete irmãos, também pescadores, nasceram. Foi levada pelo oceano há 30 anos, diz ele, assim como outras duas residências dele nos anos que se seguiram.

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Uma rua em Atafona enterrada pela areia. Desde a década de 1960, 14 quarteirões foram perdidos para o mar.

FOTO DE FELIPE FITTIPALDI
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José Luiz Rosa é pescador e morador da Praia de Atafona. Ele já perdeu três casas para as ondas nos últimos anos.

FOTO DE FELIPE FITTIPALDI

Desta vez, decidiu revidar. Com o dinheiro que ganhou com a pesca e a confecção de redes, Nenéu investiu cerca de R$ 15 mil na contenção que ele espera que salve sua casa, embora saiba que a solução é apenas temporária. “O mar não está errado, quer de volta o que lhe pertence”, comenta Nenéu. “Vai engolir tudo, mas eu vou resistir.”

A 320 quilômetros das famosas praias cariocas de Copacabana e Ipanema, esta pequena cidade brasileira de 6 mil habitantes é apocalíptica: casas abandonadas e em ruínas, além ruas que repentinamente terminam na areia. Em Atafona, no litoral norte do estado do Rio de Janeiro, a combinação do aumento do nível do mar causado pelas mudanças climáticas com um fenômeno conhecido como erosão costeira assusta os moradores, intriga os cientistas e fascina os turistas ansiosos para testemunhar a destruição. Nos fins de semana, ônibus lotados vindos de cidades próximas estacionam na praia.

Os visitantes tiram selfies em meio aos destroços cobertos de grafite e repletos de alusões ao fim do mundo, citações bíblicas do Livro do Apocalipse e mensagens que dizem “Jesus está voltando”.

Atafona é atingida por uma tragédia ambiental que não dá trégua e se repete em diversas outras regiões costeiras do mundo. No estado do Texas, Estados Unidos, por exemplo, a cidade de Freeport, ao sul, sofre quase 14 metros de erosão por ano — uma média que tem sido observada ao longo dos últimos 30 anos e é considerada a mais intensa do mundo.

Segundo especialistas, em 2050, mesmo se a humanidade conseguir controlar as emissões de gases de efeito estufa que superaquecem o planeta, 200 milhões de pessoas poderão ser atingidas pelo aumento do nível do mar e inundações frequentes em todo o mundo. Presumindo o aumento das emissões e um alto nível de degelo das geleiras, em 2100 o número de pessoas afetadas poderia chegar a 480 milhões, de acordo com um estudo da Climate Central publicado no periódico Nature Communications em 2019.

O mar e seus desabrigados

A erosão costeira destrói Atafona como nenhum outro lugar ao longo dos 11 mil quilômetros da costa brasileira. Todos os anos, o mar avança em média 2,7 metros, mas já chegou a aumentar até oito metros em alguns anos, como entre 2008 e 2009. Desde que a erosão se acelerou há cerca de 60 anos, as ondas destruíram mais de 500 construções. Quatorze quarteirões da cidade estão totalmente submersos.

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A paisagem decadente de Atafona revela as crises existentes entre os humanos e a natureza. Suas dunas ocultam cerca de 400 construções, incluindo residências, hotéis, um posto de gasolina e uma igreja.

FOTO DE FELIPE FITTIPALDI

O mar devorou o farol histórico da praia, bares, boates, mercados, um hotel de quatro andares, um posto de combustível para barcos, uma escola, suntuosas mansões de veraneio, duas igrejas e uma ilha onde moravam 300 famílias de pescadores. A Ilha da Convivência, como era conhecida, ficava a 200 metros da costa. Nenéu nasceu na ilha em 1974, quando os moradores, temendo um oceano já em avanço, começaram a se deslocar da Convivência para o continente. Hoje, a única coisa que resta é uma estreita faixa de terra com tristes ruínas. Ao todo, os pesquisadores estimam que a erosão tenha contribuído para o surgimento de mais de 2 mil refugiados ambientais no local desde cerca de 1960.

Muitos nunca se recuperam do trauma de perder suas casas. Érica Ribeiro Nunes, de 48 anos, fugiu do mar a vida toda, diz ela. Filha, irmã e esposa de pescadores, Nunes ficou recentemente desabrigada, desta vez devido a uma tempestade. Nunes e sua família pescavam e vendiam caranguejos, mas o aumento do nível do mar matou 90% do habitat desses animais nos manguezais de Atafona. Ela guarda, dentro de uma Bíblia, um pouco do benefício mensal de R$ 150,00 que recebe do governo e ora a Deus para que o dinheiro se multiplique. Com pesadelos constantes, Nunes raramente dorme bem.

“Ninguém sabe como é perder tudo até que aconteça. E, depois, ainda perder tudo novamente. Nenhum presidente, nenhum prefeito cuida de nós. A verdade é que ninguém se importa com Atafona”, ela desabafa, com os olhos cheios de tristeza.

O enigma de Atafona

Desde a década de 1970, pesquisadores tentam entender por que a elevação do mar e a erosão são tão extremas em Atafona. Alguns moradores têm suas próprias teorias, baseadas na crença de que a praia possui poderes curativos devido a sua areia monazítica.

“Em Atafona, principalmente entre os antigos moradores, existe uma mistura de misticismo, religião e ciência. Para eles, o oceano é um ser vivo, e a erosão costeira um castigo pelos erros cometidos pelos humanos, como ter construído a velha igreja na orla com as costas voltadas para o oceano”, conta o engenheiro civil Gilberto Pessanha Ribeiro, coordenador do Observatório da Dinâmica Costeira da Universidade Federal de São Paulo, que pesquisa Atafona há 18 anos.

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Uma casa em Atafona destruída pelo mar.

FOTO DE FELIPE FITTIPALDI
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Sônia Ferreira, moradora da Praia de Atafona, em frente à sua casa, muito próxima de ser tragada pelo mar. As ondas já derrubaram uma parede, mas Sônia não pensa em ir embora. Ela é muito conhecida em Atafona por documentar o processo de erosão da cidade.
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Sônia, vista aqui em uma das fotos que conseguiu salvar da destruição, costuma falar com jornalistas, cientistas e estudantes sobre a erosão da cidade e conta histórias de vizinhos que perderam suas casas.

FOTO DE FELIPE FITTIPALDI

“Não há uma explicação única”, afirma ele. “Temos as mudanças climáticas, mas também os eventos regionais: a influência do vento, o clima das ondas, os efeitos astronômicos das marés e o transporte de sedimentos pelas correntes costeiras.”

Cientistas acreditam que a convergência de todos esses fatores em um local único da costa brasileira ajuda a explicar o que acontece em Atafona. Contudo uma modificação feita pelos humanos na geologia do rio pode ser responsável por grande parte do desastre.

Atafona fica na foz do rio Paraíba do Sul, a hidrovia mais importante da região sudeste do Brasil, onde estão localizadas duas das cidades mais industrializadas e populosas — São Paulo e Rio de Janeiro. A bacia hidrográfica fornece água para mais de 15 milhões de pessoas em 184 municípios.

O Paraíba também percorre cerca de 1,1 mil quilômetros de sua nascente no estado de São Paulo até o oceano Atlântico e, no passado, trazia areia sedimentar suficiente para o delta, estabilizando a costa e formando uma barreira natural que protegia Atafona do mar.

Mas no fim da década de 1950, 70% do fluxo do Paraíba foi desviado para o sul para fornecer água à região metropolitana do Rio de Janeiro. Barragens e outros projetos de desvio em prol da indústria e da agricultura também reduziram muito o curso do rio para o oceano, que antes era volumoso. A diminuição da carga de sedimentos e areia não consegue mais impedir que o Atlântico destrua a praia de Atafona.

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Bancos de areia e assoreamento do rio Paraíba do Sul próximo à cidade de Campos dos Goytacazes. O acúmulo de sedimentos causado por barragens torna o fluxo do rio cada vez mais fraco perto do delta, tornando-o incapaz de proteger Atafona das ondas do oceano.

FOTO DE FELIPE FITTIPALDI

“A cidade do Rio de Janeiro consome 44 metros cúbicos de água por segundo, mas recebe quatro vezes mais, 160 metros cúbicos por segundo. Isso está matando o rio desde a década de 1960”, afirma João Siqueira, secretário-geral do Comitê do Baixo Paraíba do Sul. “Os moradores de Copacabana e Ipanema ficam abastecidos, mas, do ponto de vista ambiental e ecológico, isso é um desastre. As consequências são as observadas em Atafona.”

Segundo os pescadores mais velhos, a foz do rio já teve pelo menos 4,5 metros de profundidade em Atafona. Hoje, tem apenas meio metro e os barcos de pesca só podem acessar o oceano por meio de um canal estreito.

Rezando por ajuda

O tempo parece passar mais rápido em Atafona, pois todas as manhãs a paisagem da praia muda um pouco. Dunas se deslocam na direção das casas, ruínas emergem da areia e outras desaparecem. Todos os dias, pescadores rezam para que o governador realize obras de dragagem da foz do rio, reativando o canal de navegação, e construa um quebra-mar para proteger a costa da força das ondas. Um projeto foi criado, mas não sai do papel há quatro anos por falta de recursos.

Outra resposta poderia estar perto da praia, no leito do rio, afirma o geógrafo Eduardo Bulhões, professor da Universidade Federal Fluminense que estuda a situação há mais de 10 anos. Ele recomenda uma solução implementada nos Estados Unidos e na Holanda: devolver à praia sua areia que se acumula no fundo do rio Paraíba do Sul, reabastecendo-a. “É uma medida moderna, mas que depende de manutenção regular”, explica Bulhões.

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Gervasio é pescador e estaleiro em Atafona. Devido ao acúmulo de sedimentos no delta, barcos maiores como o dele não conseguem mais alcançar o oceano porque a foz do rio está obstruída e muito rasa.
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Fernando Antônio Lobato Borges em sua casa, que foi condenada devido à aproximação das ondas. Borges diz que não sairá de lá até que a água entre pela porta.

FOTO DE FELIPE FITTIPALDI
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Emídio da Silva é pescador aposentado e refugiado ambiental. Sua casa na Ilha da Convivência foi destruída pelas ondas, obrigando-o a se mudar para o continente em meados da década de 1990.

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O oceano Atlântico inundou diversas casas de Érica Nunes. Ela continua em Atafona apesar do aumento do nível do mar, porque não tem para onde ir.
FOTO DE FELIPE FITTIPALDI

Independentemente da solução, Nenéu tem sua própria opinião sobre a causa.

“Os humanos provocaram a revolta do oceano. A culpa é nossa”, diz ele logo após sair da água carregando dois peixes enormes. Ele tem um profundo respeito pelo mar, onde encontra seu alimento, trabalho e sustento. “O mar rouba minha casa, mas eu pesco nele. Não sei ler nem escrever, mas disso eu entendo. Minha única preocupação é saber que as ondas continuarão avançando”, afirma.

No fim da tarde, Nenéu toma uma xícara de café enquanto acaricia um gato ferido que não sai do seu lado. Sua vida mudou nos últimos anos. No passado, ele ficava em alto-mar por cerca de um mês. Nesse período, usava drogas e bebia muito enquanto pescava. Ele decidiu começar uma nova vida depois de conhecer um pastor evangélico.

Os dois tornaram-se grandes amigos — o pastor muitas vezes fica sem alimentos e costuma comer o peixe que Nenéu pesca. Todos os dias, eles rezam na casa do pescador. Naquela noite, enquanto rezava, o pastor olha pela janela e levanta as mãos na direção do oceano Atlântico. “Somos pecadores arrependidos, Pai. Pedimos misericórdia. Em nome de Jesus, não deixe o mar tomar esta casa.”

Felipe Fittipaldi é um fotógrafo brasileiro focado em temáticas ambientais, colaborador de publicações como National GeographicNew York Times Magazine e Nações Unidas, entre outros. As fotografias desta reportagem são parte do projeto Eustasia, iniciado pelo fotógrafo em 2014 e ainda em andamento. Em 2019, ele recebeu o Explorer Grant da National Geographic Society, um programa destinado a financiar projetos de pesquisa e documentação. Para conhecer mais o trabalho de Fittipaldi, acesse o site.