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Super-ricos concentram emissões e lucram com a reconstrução após desastres climáticos, aponta Oxfam

Super-ricos concentram emissões e lucram com a reconstrução após desastres climáticos, aponta Oxfam

A crise climática tem responsáveis e vítimas em proporções bastante diferentes. Uma pequena parcela da população mundial concentra uma quantidade desproporcional das emissões de gases de efeito estufa, enquanto bilhões de pessoas, que pouco contribuíram para o aquecimento global, enfrentam os impactos mais severos das mudanças no clima. Mas a desigualdade não termina na origem do problema: os grupos econômicos mais ricos também encontram oportunidades de lucro nas atividades de preparação e recuperação após desastres.

Essa relação entre concentração de riqueza, emissões de carbono e exploração econômica das catástrofes é o tema de um novo relatório da Oxfam Internacional, publicado em 27 de outubro, às vésperas da COP31, conferência climática da Organização das Nações Unidas (ONU), que acontece na Turquia entre 9 e 20 de novembro.

Intitulado “O fosso das catástrofes”, o estudo revela que os 0,1% mais ricos do planeta, aproximadamente 8 milhões de pessoas, produzem mais poluição por carbono do que os 3,5 bilhões de indivíduos mais pobres somados. A contribuição desse grupo para o aquecimento global também é desproporcional. Uma pessoa pertencente a essa parcela da população responde por uma influência quase 400 vezes maior sobre as ondas de calor extremas do que alguém entre os 50% mais pobres da humanidade.

Em conjunto, os 0,1% mais ricos geram mais de três vezes a poluição por carbono produzida por toda a população da África Subsaariana, região que reúne aproximadamente 1,3 bilhão de pessoas.

A disparidade evidencia como a responsabilidade pelo aquecimento global está concentrada em uma parcela muito pequena da população. E não se trata apenas de hábitos individuais de consumo, como viagens frequentes e aquisição de bens de luxo. A forma como os mais ricos investem seu patrimônio também tem papel importante na manutenção de atividades poluentes.

A aviação privada é um exemplo emblemático dessa desigualdade. Uma análise da Oxfam baseada em dados de rastreamento de jatos particulares aponta que, somadas, essas aeronaves emitem mais carbono em apenas dois segundos do que uma pessoa pertencente à metade mais pobre da humanidade libera durante um ano inteiro.

Emissões dos mais ricos deixam um rastro de mortes e prejuízos

Quando a análise considera o 1% mais rico da população mundial, os efeitos sobre o aquecimento global também são expressivos. Segundo a Oxfam, esse grupo foi responsável por 20% do aquecimento registrado desde 1990. Individualmente, suas emissões são, em média, 100 vezes superiores às de uma pessoa entre os 50% mais pobres.

Para dimensionar as consequências dessa desigualdade, a organização combinou dados sobre a distribuição das emissões de carbono com modelos de atribuição climática, que permitem relacionar a influência das atividades humanas sobre o aquecimento global a determinados impactos ambientais e sociais.

Os resultados apontam que apenas um ano de emissões do 1% mais rico deverá provocar 1,9 milhão de mortes adicionais relacionadas ao calor ao longo do tempo. Desse total, aproximadamente 1,18 milhão, ou 78%, ocorrerão em países de renda baixa e média-baixa. São nações que, juntas, respondem por apenas 8% das emissões globais.

Os danos também atingem a economia. A estimativa da Oxfam é que as emissões acumuladas do 1% mais rico provoquem perdas de US$ 52,6 trilhões na produção econômica mundial até 2050, valor que corresponde a aproximadamente 0,5% do Produto Interno Bruto (PIB) global acumulado no período.

Desde 1990, a organização calcula que as emissões desse grupo já tenham reduzido a produção econômica mundial em US$ 2,9 trilhões. Os países mais pobres, que apresentam menor responsabilidade histórica pelo aquecimento, devem concentrar uma parcela especialmente severa desses prejuízos.

A distribuição desigual dos impactos também aparece na exposição a eventos extremos. Enchentes, incêndios florestais, secas e ondas de calor podem destruir moradias, comprometer plantações, reduzir a disponibilidade de alimentos e eliminar fontes de renda. Para famílias com poucos recursos, a recuperação costuma ser mais difícil, especialmente quando não há infraestrutura pública adequada, seguros ou mecanismos de proteção social.

Já os super-ricos conseguem investir em imóveis mais seguros, seguros privados, sistemas particulares de proteção e até estruturas de emergência, como equipes privadas de combate a incêndios e bunkers preparados para situações extremas.

O resultado é um ciclo em que a vulnerabilidade aumenta para quem tem menos condições de enfrentar os eventos climáticos, enquanto a riqueza oferece mecanismos de proteção para aqueles que mais contribuem para o problema.

O relatório também chama atenção para a dimensão dos deslocamentos populacionais. Com base em estimativas da Organização Internacional para as Migrações (OIM), a Oxfam aponta que até 1 bilhão de pessoas poderão ser deslocadas pela crise climática até 2050. A maioria deverá estar em países do Sul Global, mais expostos aos impactos e frequentemente com menor capacidade financeira para investir em adaptação.

A economia que cresce com a destruição

Além de investigar quem emite mais e quem sofre as consequências, a Oxfam analisa como os desastres climáticos alimentam novos mercados. A organização aponta que o setor global de recuperação e reconstrução após catástrofes deverá passar de US$ 70 bilhões para US$ 92 bilhões por ano até 2029.

Esse mercado reúne atividades essenciais para enfrentar emergências e reconstruir comunidades, como fornecimento de equipamentos de combate a incêndios, sistemas de proteção contra enchentes, transporte, refrigeração, seguros, alimentos e empréstimos.

A questão levantada pelo relatório é a participação de empresas e investidores que mantêm interesses financeiros tanto em setores que contribuem para o agravamento da crise climática quanto em negócios relacionados à preparação e à recuperação de desastres.

Para identificar essa conexão, a Oxfam desenvolveu o índice Destroy & Rebuild (Destruir e Reconstruir), que mapeou 217 empresas com atuação nos dois lados desse mercado: atividades associadas ao agravamento do aquecimento global e serviços voltados à resposta e à reconstrução após catástrofes.

Entre os resultados, o estudo destaca a presença de duas das maiores gestoras de investimentos do mundo. BlackRock e Vanguard possuem participações em 92% das empresas identificadas pelo índice. Somados, os investimentos das duas gestoras nessas companhias ultrapassam US$ 1 trilhão.

O levantamento chama atenção para o que considera um duplo benefício econômico da crise climática: enquanto investimentos em atividades poluentes contribuem para o agravamento do problema, aplicações em setores de preparação e reconstrução permitem obter retornos financeiros com as consequências.

Essa dinâmica preocupa porque pode criar incentivos econômicos contrários à redução das emissões. Se determinados investidores conseguem obter ganhos tanto com atividades que agravam o aquecimento quanto com os negócios que surgem para enfrentar seus efeitos, a manutenção de um cenário de crise pode se tornar financeiramente interessante.

A organização também alerta que os desastres podem ser utilizados para promover políticas que aprofundam desigualdades, como a privatização de serviços públicos, a apropriação de terras, a desregulamentação e a concessão de benefícios fiscais aos mais ricos.

Desigualdade também determina quem consegue se recuperar

Os impactos econômicos dos eventos extremos não terminam quando as águas baixam ou os incêndios são controlados. Para populações vulneráveis, a perda de uma casa, de uma plantação ou de uma pequena atividade comercial pode comprometer anos de renda e poupança.

Em muitos casos, a falta de recursos impede que essas famílias reconstruam suas condições de vida antes da chegada de um novo evento extremo. Assim, cada desastre pode ampliar a vulnerabilidade e tornar os impactos seguintes ainda mais difíceis de enfrentar.

A Oxfam destaca que as mortes provocadas por enchentes são sete vezes maiores em países com níveis mais elevados de desigualdade. O dado reforça que a dimensão social e econômica de uma comunidade também influencia sua capacidade de resistir aos eventos climáticos.

O problema, portanto, não está apenas na frequência ou na intensidade das catástrofes, mas também na distribuição dos recursos necessários para prevenir, enfrentar e superar seus efeitos.

Na avaliação da organização, enfrentar a crise climática exige ir além da redução das emissões. É preciso discutir quem concentra a responsabilidade pelo aquecimento, quem acumula os ganhos econômicos associados às atividades poluentes e quem arca com os prejuízos provocados pelos eventos extremos.

Às vésperas da COP31, o levantamento coloca a desigualdade no centro do debate climático e questiona um modelo no qual os mesmos interesses econômicos podem se beneficiar da poluição e, posteriormente, da destruição causada por ela.

Propostas:

Diante desse cenário, a organização defende que os governos adotem medidas para responsabilizar os grandes poluidores e reduzir a concentração de riqueza associada às emissões. Entre as propostas estão impostos permanentes sobre grandes fortunas e rendas elevadas, tributação de empresas de combustíveis fósseis e cobranças específicas sobre bens de luxo com alta pegada de carbono, como jatos particulares.

Outra recomendação é ampliar o financiamento climático destinado aos países do Sul Global, priorizando recursos públicos e doações, em vez de empréstimos que aumentam o endividamento. A entidade também defende que os investimentos em adaptação climática sejam triplicados até 2035.

O fortalecimento dos serviços públicos e da infraestrutura resiliente ao clima aparece como outra medida fundamental para reduzir a exposição das populações aos eventos extremos. Isso inclui investimentos em moradia, saúde, abastecimento de água, transporte e sistemas de prevenção e resposta a emergências.

Por fim, a Oxfam pede que os governos limitem o poder corporativo em setores relacionados à resposta a desastres, à reconstrução e aos sistemas alimentares durante crises, para evitar que situações de emergência sejam transformadas em oportunidades de enriquecimento privado.