Da margem à centralidade: racismo climático sai da borda e entra na agenda – Artigo 17
Emergência Climática: E nós com isso?
Nesta coluna trago outro assunto delicado que pouco é falado dentro da agenda das Mudanças Climáticas com a importância que tem. Precisamos que ele ganhe voz, seja reconhecido o seu espaço dento das discussões globais e nacionais, pois afeta muitas pessoas. Na COP 30 saiu da borda rumo ao centro das discussões. Estou falando do racismo climático.
Sabemos que quando as águas sobem, nem todas as casas são atingidas da mesma forma. O calor extremo não é igual para todos, nem todos os bairros têm árvores, sombra ou ar-condicionado em suas casas. Quando a chuva escolhe suas vítimas, ela raramente escolhe ao acaso: apesar de ser igual para todos, ela afeta áreas geográficas, econômicas e sociais mais vulneráveis com impactos diferentes. Esse padrão não é coincidência nem fatalidade, é um fato gerado pela desigualdade que vivemos em nosso país.
Ele também é umas das facetas das Mudanças Climáticas que traz um paralelo da relação de forças que existe entre os países desenvolvidos e os em desenvolvimento, da interação entre norte e sul global, dos que tem condições e dos que não tem.
E o nome deste fato é racismo climático, uma face dura de um fenômeno que atinge muitas pessoas no Brasil e no mundo, que foi falado a primeira nos anos 80, e que no Brasil, na COP 30 deu um passo importante para caminhar rumo ao centro das discussões.
O conceito de racismo ambiental nasceu em 1982, nos Estados Unidos, quando comunidades negras de Warren County, na Carolina do Norte, resistiram à instalação de um depósito de lixo tóxico em seu território. De lá para cá, a expressão ganhou o mundo: hoje engloba a exposição desproporcional de quem tem piores condições de vida, como as populações negras, indígenas, quilombolas e periféricas por consequência dos impactos causados pela degradação ambiental, falta de infraestrutura e a crise do clima, todas juntas e ao mesmo tempo.
No Brasil, os números mostram uma realidade complexa e desafiadora. A população negra, cerca de 56% dos brasileiros, vivem em sua grande maioria, nas periferias urbanas, localidades que mais sofrem e sofrerão as consequências das mudanças climáticas.
Quando chuvas torrenciais provocam deslizamentos, rios transbordam e cidades ficam ilhadas pelo calor, quem sofre primeiro e com mais intensidade são os mesmos territórios historicamente negligenciados pelo Estado.
O tema esteve por muito tempo na borda das discussões climáticas, tratado como pauta secundária, quando não invisível. Esse cenário ganhou um novo capítulo na COP30, que colocou a justiça climática no debate e produziu um marco inédito: a Declaração de Belém sobre o Combate ao Racismo Ambiental, o primeiro documento internacional a tratar o tema de forma estruturada.
No Brasil, o Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) também aprovou em dezembro de 2025, a primeira resolução que incorpora de forma estruturante os princípios da justiça climática e o combate ao racismo ambiental, que reconhece que a crise climática afeta de forma desigual populações vulneráveis.
Reconhecer o racismo climático não é um exercício retórico: é uma necessidade para que as discussões sobre as políticas climáticas sejam justas, eficazes e verdadeiramente transformadoras para o bem de todos e principalmente daqueles que estão com maior exposição ao risco.
A crise climática pede ação e urgência. Nenhuma estratégia de adaptação, mitigação ou resiliência será completa se não considerarmos as desigualdades que temos em nossa sociedade.
E Eu, Você, Nós com isso? Como vamos nos posicionar frente a esta questão e exigir de nossos governos ações e políticas assertivas?
Trago este assunto delicado e desafiador para nossa reflexão, pois o racismo climático é uma preocupante realidade. Ele está saindo da borda e precisa ser considerado de forma consistente nas discussões, trazendo escuta e voz de quem está vivendo nos territórios, não como pauta acessória, cumprir o protocolo ou ter como anseio e plano futuro. Mas como um dos eixos de debates para fazer parte dos planos e leis climáticas que precisamos ampliar e co construir para um Brasil mais justo e sustentável à Todos.
Boas leituras, aprofundamento e reflexão sobre o tema!
Organizações e Referencias
Livro Editora Fio Cruz
SciELO Books | Injustiça ambiental e saúde no Brasil: o Mapa de Conflitos https://books.scielo.org/id/468vp
Mapa de Conflitos e Saúde no Brasil
Início – Mapa de Conflitos Envolvendo Injustiça Ambiental e Saúde no Brasil
https://mapadeconflitos.ensp.fiocruz.br/
Rede Brasileira de Justiça Ambiental
RBJA – Rede Brasileira de Justiça Ambiental https://rbja.org/
Portal Combate Racismo Ambiental
Combate Racismo Ambiental – O blog Combate Racismo Ambiental foi criado e é mantido por Tania Pacheco, sem fins lucrativos e utilizando tecnologia WordPress. A reprodução de seu conteúdo é incentivada, desde que citando a fonte e também sem fins lucrativos. https://racismoambiental.net.br/
Quem precisa de Justiça Climática no Brasil?
Quem_precisa_de_justica_climatica-DIGITAL.pdf https://oc.eco.br/wp-content/uploads/2022/08/Quem_precisa_de_justica_climatica-DIGITAL.pdf
Declaração de Belém
C:\Users\ferna\Downloads\2025 11 07. Cúpula de Belém. Nota. Racismo. Rev DEMA_RevDDH.pdf
Resolução do CONAMA
RESOLUÇÃO CONAMA Nº 511, DE 19 DE DEZEMBRO DE 2025 – RESOLUÇÃO CONAMA Nº 511, DE 19 DE DEZEMBRO DE 2025 – DOU – Imprensa Nacional https://conama.mma.gov.br/?option=com_sisconama&task=arquivo.download&id=846

Fernando Eliezer Figueiredo atua há mais de 30 anos em sustentabilidade, clima e desenvolvimento sustentável. Teve passagens marcantes como diretor do CDP na América Latina, head de Sustentabilidade da Schneider Electric Brasil e presidente da Câmara de Energia e Clima do CEBDS. Atualmente é consultor na Thinker & Associados, diretor de conteúdos de sustentabilidade na Miração Filmes, professor, curador e empreendedor. Como Líder da Realidade Climática, dedica-se a projetos estratégicos, educativos e audiovisuais para ampliar a consciência climática e traduzir essa agenda para públicos além da “bolha” da sustentabilidade.
