Descoberta de ave rara impulsiona proteção de milhares de hectares no Equador
Jocotoco, considerada ameaçada de extinção, levou à criação de uma rede de reservas que hoje protege habitats usados por mais de 1.350 espécies de aves
A descoberta de uma pequena ave que a ciência desconhecia ajudou a desencadear uma das maiores iniciativas privadas de proteção de habitats do Equador. Conhecida como jocotoco, a espécie foi encontrada em 1997 nas florestas nubladas dos Andes e, diante do risco de desaparecer, levou à criação da Fundação Jocotoco, que atualmente protege e administra 19 reservas no país.
A Grallaria ridgelyi é classificada como ameaçada de extinção e possui uma população estimada entre 480 e 600 indivíduos adultos. Sua distribuição é extremamente restrita, o que torna a destruição das florestas onde vive uma ameaça direta à sua sobrevivência.
O encontro que mudou a trajetória da espécie ocorreu em novembro de 1997, quando o ornitólogo norte-americano Robert Ridgely e outros pesquisadores percorriam uma região do sul do Equador. Eles ouviram um canto desconhecido vindo da floresta. Ridgely conseguiu reproduzir o som e atrair a ave, percebendo que se tratava de uma espécie ainda não descrita pela ciência.
A população local, no entanto, já conhecia o animal e utilizava o nome jocotoco para se referir a ele, em uma referência ao seu chamado. A espécie foi formalmente descrita dois anos depois e recebeu o nome científico Grallaria ridgelyi.
A descoberta também revelou um problema que ia muito além da identificação de uma nova espécie. Para que a ave sobrevivesse, era necessário proteger a floresta da qual dependia. Ridgely e outros pesquisadores criaram, em 1998, a Fundação Jocotoco e começaram a adquirir e restaurar áreas de habitat.
O trabalho cresceu ao longo das décadas. Atualmente, a fundação administra 19 reservas que somam cerca de 50 mil hectares e atua ainda em aproximadamente 82 mil hectares de terras privadas e comunitárias. Juntas, essas áreas abrigam mais de 1.350 espécies de aves, cerca de 80% das espécies registradas no Equador.
A proteção não se limita à criação de áreas no mapa. Guardas provenientes das próprias comunidades locais atuam contra invasões, criação de gado, extração de madeira e caça. As equipes também utilizam armadilhas fotográficas e gravadores para acompanhar os animais e identificar mudanças nas populações.
Em algumas regiões, áreas que haviam sido desmatadas estão sendo restauradas com espécies nativas. Quando a regeneração natural é possível, ela também é permitida. O objetivo é devolver aos animais condições para viverem em ambientes capazes de oferecer alimento, abrigo e locais de reprodução.
Os resultados mostram que a recuperação pode ocorrer em uma escala que contraria a ideia de que áreas destruídas estão condenadas à perda permanente de biodiversidade. Um estudo realizado na reserva de Canandé mostrou que áreas anteriormente desmatadas recuperaram, em três décadas de proteção voltada à biodiversidade, cerca de 90% da biomassa e 90% do número de espécies encontrados em florestas maduras próximas. Cerca de 75% das espécies originalmente presentes nas florestas antigas também retornaram.
A recuperação beneficia espécies que enfrentam ameaças distintas. Na reserva Buenaventura, por exemplo, a proteção do habitat contribuiu para a permanência do periquito-de-El Oro, uma ave rara com menos de mil indivíduos. Em outra área, a reserva Chakana, condores-andinos voltaram a ocupar uma região de onde haviam desaparecido. A espécie sofre com a queda populacional provocada principalmente pelo envenenamento deliberado.
O caso do jocotoco mostra que proteger uma espécie exige proteger o lugar onde ela vive. A criação de reservas não devolve automaticamente aos animais aquilo que foi destruído, mas pode interromper a perda de habitat e permitir que florestas degradadas voltem a oferecer condições para a vida.
Também mostra que a proteção da natureza não precisa ser construída contra as comunidades que vivem próximas às áreas naturais. No Equador, moradores foram incorporados ao trabalho como guardas e em atividades ligadas ao turismo de observação da fauna, transformando a proteção dos habitats em uma atividade que também gera trabalho e renda.
A trajetória do jocotoco começou com uma ave que passou despercebida pela ciência durante séculos, mas que já era conhecida pelas pessoas que viviam na região. Hoje, a espécie continua ameaçada e sua sobrevivência ainda depende da proteção das florestas. A diferença é que ela deixou de enfrentar o risco de desaparecer sem que seu habitat estivesse sendo defendido.
A história também oferece uma resposta para um dos maiores desafios enfrentados pelos animais silvestres. Quando a destruição de habitats é interrompida, áreas degradadas são restauradas e os animais têm seus territórios protegidos, a recuperação deixa de ser uma possibilidade abstrata e pode se tornar realidade.
