São Paulo recicla menos de 3% do lixo 15 anos após Política Nacional de Resíduos Sólidos, mostra estudo
De acordo com as análises, a taxa de coleta seletiva subiu em 2024, mas o volume representa menos de 10% da meta prevista para o período
Quinze anos após a criação da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), a reciclagem ainda está longe de cumprir seu papel na maior cidade do País. Embora a coleta seletiva tenha avançado ao longo das últimas duas décadas, apenas 2,85% de todo o lixo coletado em São Paulo foi encaminhado para reciclagem em 2024.
Os dados são da pesquisa de pós-doutorado de Adriana Fonseca Braga, divulgada em artigo recém-publicado no periódico científico Waste, intitulado 15 Years After the National Solid Waste Policy in the City of São Paulo: Timid Advances in Recycling. A pós-doutora pelo Instituto de Estudo Avançados (IEA) da USP assina o artigo em coautoria com as professoras Wanda Risso Gunther e Helena Ribeiro, do Departamento de Saúde Ambiental da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP. O artigo tem a orientação da professora Helena e se trata de uma atualização dos resultados da tese de doutorado de Adriana, defendida pelo programa de Saúde Global e Sustentabilidade da FSP.
A metodologia consistiu em um estudo de caso com análise da legislação, pesquisa de dados oficiais e avaliação de metas e distribuição socioespacial. A taxa de coleta seletiva cresceu de 0,69% em 2006 para 2,85% em 2024, mas esse volume representa menos de 10% da meta originalmente projetada para o período.
Segundo as autoras, cerca de um terço dos resíduos domiciliares produzidos pelos paulistanos poderiam ser reciclados. Além disso, quase a metade do lixo é de resíduos orgânicos que poderiam ser destinados à compostagem. Porém, falta a coleta seletiva específica para a fração orgânica, segundo o estudo.

O artigo mostra que a infraestrutura destinada ao tratamento de resíduos recicláveis praticamente não evoluiu desde 2017. Sem ampliação da capacidade de triagem e processamento, a maior parte dos resíduos continua sendo enviada para aterros sanitários, solução mais cara e com maior impacto ambiental.
Além da limitação estrutural, o estudo evidencia desigualdades territoriais. Distritos mais centrais e de maior renda apresentam taxas de coleta seletiva significativamente superiores às observadas nas regiões periféricas. Enquanto a Vila Mariana alcançou índice de 12,37% em 2024, diversas Subprefeituras registraram taxas inferiores a 1%, por exemplo.
As autoras destacam que a coleta seletiva depende não apenas da atuação das concessionárias, mas também do trabalho das cooperativas de catadores. Atualmente, 29 cooperativas habilitadas atuam na cidade. Em 2024, elas receberam cerca de 28,2 mil toneladas de materiais para triagem e processamento. Aproximadamente 60% dos cooperados são mulheres, e mais da metade possui renda entre um e três salários mínimos.

O estudo também chama a atenção para a necessidade de fortalecer a educação ambiental e ampliar a participação da população. Apesar da existência de coleta seletiva porta a porta, Pontos de Entrega Voluntária (PEVs), ecopontos e ferramentas digitais que informam os dias da coleta em cada endereço, muitas pessoas ainda desconhecem esses serviços ou não realizam a separação adequada dos resíduos.
Para as pesquisadoras, cumprir os princípios da Política Nacional de Resíduos Sólidos exige novos investimentos em infraestrutura, expansão da coleta seletiva nas áreas mais vulneráveis, valorização das cooperativas e estímulo à compostagem dos resíduos orgânicos. Essas medidas podem reduzir a quantidade de lixo destinada aos aterros, diminuir impactos ambientais e contribuir para cidades mais saudáveis e sustentáveis.
O artigo 15 Years After the National Solid Waste Policy in the City of São Paulo: Timid Advances in Recycling pode ser lido aqui.
