Emergência Climática: E nós com isso?
Os Eventos Climáticos, a Ciência, a Constituição e o Nosso Papel como Cidadãos – Artigo 11
Quero trazer uma reflexão importante a Todos Nós ! Com os eventos climáticos que aconteceram na semana passada em nosso País, me vieram algumas perguntas que Eu, Você e Todos Nós precisamos parar para pensar seriamente e responder, tanto coletiva quanto individualmente. É um exercício de nos enxergarmos como seres individuais dentro de uma engrenagem coletiva, um prisma sob o qual raramente nos colocamos diante das demandas e da correria do nosso dia a dia.
Afinal, nós queremos ou não que o Brasil tenha uma estratégia de Estado de médio e longo prazos, pensando em 30, 50 anos, para que possamos ter mercados robustos e resilientes com uma qualidade de vida melhor para todos ? Ou vamos continuar deixando a mercê dos acontecimentos e delegar que políticos eleitos sigam com suas agendas desalinhadas fazendo apenas o que querem a cada quatro anos? Queremos construir um caminho sólido para o Desenvolvimento Sustentável do nosso país? Que caminhos temos hoje e em qual deles estamos trilhando nosso desenvolvimento? Onde queremos estar em 2050? Daqui a 24 anos!
O que aconteceu no Brasil na semana passada, os ventos fortes e as tempestades que atingiram principalmente São Paulo e o Rio de Janeiro, não foram um mero acaso da natureza. Foram consequências diretas dos chamados “extremos climáticos” que afetaram milhares de pessoas e sobre os quais a comunidade científica vem nos alertando há quase duas décadas.
De forma muito clara, o relatório AR4 do IPCC, lançado em 2007, considerado um marco histórico por consolidar o consenso científico global de que a ação humana é a principal força motriz do aquecimento global contemporâneo. Fomos alertados em uníssono sobre o que vivemos hoje … e já se foram 19 anos!
Diante desta informação sobre o nosso impacto e (não) ação frente à natureza e às mudanças climáticas no nosso dia a dia. Quero colocar que não pretendo trazer uma reflexão densa, mas sim objetiva e direta para nós, como cidadãos brasileiros que coabitam este planeta.
Como pontuei em colunas anteriores, estamos na sala de espera da Emergência Climática. Ações assertivas de Mitigação, Adaptação, Resiliência e Justiça Climática são imperativas, pois todos temos um papel neste contexto, independente da nossa posição política, área de atuação profissional e condição social.
Para compor este quadro e a urgência do nosso momento atual, trago um recorte sobre o conceito de Cidadania em três dimensões:
A primeira é a Dimensão Civil, das Liberdades, que engloba os direitos necessários à liberdade individual, como o direito de ir e vir, de expressão, de pensamento e de crença. Na Constituição Federal de 1988 (CF/88), o termo “cidadão” aparece 5 vezes, legitimando cada indivíduo a agir em defesa dessas liberdades e a proteger o patrimônio público.
A segunda é a Dimensão Política, da Participação, que representa o direito de participar ativamente do exercício do poder político, seja como membro de uma organização pública, ativista, voluntário ou eleitor. O termo “cidadãos”, ocorre 8 vezes na CF/88, definindo a soberania popular.
A terceira é a Dimensão Socia, do Bem-Estar, que garante o direito a um padrão mínimo de vida, segurança, saúde e educação. A palavra “cidadania” tem 7 ocorrências na nossa Carta Magna e é estabelecida logo no início como um dos fundamentos da nossa República:
Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos:
I – a soberania;
II – a cidadania;
III – a dignidade da pessoa humana;
IV – os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa;
V – o pluralismo político.
Somando a estas dimensões, trago o conceito do Cosmopolitismo, defendido por grandes filósofos: a ideia de que somos cidadãos de duas pátrias. Pertencemos ao local onde nascemos, o Brasil no nosso caso, mas também pertencemos a essa grande comunidade humana que compartilha e coabita o planeta Terra. E como a maioria de nós vive hoje em áreas urbanas, é nas cidades que precisamos exercer nossa cidadania de forma prática. É nelas que a engrenagem precisa funcionar.
Mas você pode estar se perguntando: qual é a relação entre os alertas dos cientistas, a nossa Constituição, a filosofia e os desastres climáticos que presenciamos na semana passada?
A resposta está na nossa responsabilidade pessoal. Gostemos ou não do cenário atual, vivemos no Brasil e não estamos vendo ações assertivas de nossa classe política, muito pelo contrário. Vamos seguir apenas delegando aos políticos que façam o que é necessário. Eles não vão fazer sozinhos; a grande maioria trabalha sob outra agenda, de curto prazo e interesses diversos.
Uma das facetas de sermos cidadãos e de nossa responsabilidade pessoal é o compromisso Ético de exercer bem o papel que nos foi confiado e está explicitado em nossa constituição. Na prática, isso significa ter um voto consciente, exigir planos alinhados à nossa realidade climática e social, cobrar o aprimoramento e a fiscalização das contas públicas com boa governança e transparência dentre muitas outras coisas.
“A cidadania não é um privilégio a ser desfrutado, mas um dever a ser exercido. O exercício da cidadania compreende que o seu crescimento pessoal está intimamente ligado ao florescimento da sociedade, das instituições e do meio ambiente em que vivemos.”
Há 19 anos, recebemos um alerta ao qual não demos a devida importância, e hoje colhemos os frutos dessa desatenção. Hoje temos mais informações e evidencias acontecendo aqui e pelo mundo.
Como Cidadãos temos direitos e deveres. Pagamos impostos e temos visto uma falta de ética alarmante em nosso meio público. Está mais do que na hora de criarmos um plano robusto e consistente de longo prazo para o Brasil e pautarmos nossos governantes com uma agenda positiva e estratégica.
Urge construir uma visão e um plano de ação de médio e longo prazos para o futuro do nosso país, que sinalize para onde vamos e qual caminho queremos co construir … Ou continuaremos não dando a devida atenção à esta agenda e aos fatos, assistindo passivamente ao desperdício de vidas e recursos pelo caminho? É uma escolha que precisamos refletir e pensar em qual futuro queremos viver.
Entendo e sei do grande desafio que temos em nosso País. Temos, para finalizar a ferramentas do ODS 17 (“Parcerias e Meios de Implementação”), que visa fortalecer a cooperação. Ele é a base de sustentação, garantindo que os outros 16 objetivos do desenvolvimento sustentável, ODS, tenham os recursos financeiros, tecnologias e união política para se tornarem realidade, e para isso acontecer vai depender de nós também, da sociedade entrar nesta equação o que não é trivial.
O sucesso para esta construção virá com maior engajamento e mobilização coletiva frente aos diversos temas, nenhum país, empresa, governo ou cidade conseguira resolver a crise climática ou a pobreza sozinho, precisamos que todos fortaleçam esta agenda, pois o que plantarmos hoje colheremos amanhã … o que desejamos para o Brasil em 2050 ?
Boa reflexão !
Organizações e Referencias
Relatório IPCC AR4 2007 – Climate Change 2007 – Impactos, adaptação e vulnerabilidade AR4_wg2https://www.ipcc.ch/site/assets/uploads/2018/03/ar4_wg2_full_report.pdf
Constituição Federal do Brasil Constituição – https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm
ODS 17 Parcerias e Meios de Implementação Objetivo 17. Fortalecer os meios de implementação e revitalizar a parceria global para o desenvolvimento sustentável | GT Agenda 2030 https://gtagenda2030.org.br/ods/ods17/

Fernando Eliezer Figueiredo atua há mais de 30 anos em sustentabilidade, clima e desenvolvimento sustentável. Teve passagens marcantes como diretor do CDP na América Latina, head de Sustentabilidade da Schneider Electric Brasil e presidente da Câmara de Energia e Clima do CEBDS. Atualmente é consultor na Thinker & Associados, diretor de conteúdos de sustentabilidade na Miração Filmes, professor, curador e empreendedor. Como Líder da Realidade Climática, dedica-se a projetos estratégicos, educativos e audiovisuais para ampliar a consciência climática e traduzir essa agenda para públicos além da “bolha” da sustentabilidade.
