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Gestão dos recursos hídricos nunca foi tão necessária

Gestão dos recursos hídricos nunca foi tão necessária

Livro escrito em parceria por professores da USP e de outras instituições de ensino pretende dar conta de um tema que tem ganhado cada vez mais relevância diante da ameaça cada vez mais presente da falta de água no planeta

Num momento em que, cada vez mais, a água é considerada um “precioso líquido”, como costumavam dizer os cronistas de outrora, vale mencionar o lançamento do livro Água e sustentabilidade: casos investigativos na educação básica, organizado pelo professor Tadeu Fabricio Malheiros, da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP, em conjunto com as professoras Ariane Baffa Lourenço, do Programa de Pós-Graduação em Rede Nacional para Ensino das Ciências Ambientais (ProfCiAmb), Salete Linhares Queiroz, do Instituto de Química de São Carlos (IQSC) da USP, além do professor Gilson Lima da Silva, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). A obra, publicada pela Editora Eletrônica da FSP e disponível gratuitamente no Portal de Livros Abertos da USP, apresenta casos investigativos sobre a gestão de recursos hídricos e busca incentivar a troca de experiências, com o intuito de contribuir para soluções de situações hídricas.

O livro é dividido em oito capítulos, com textos assinados por educadores espalhados por instituições de todo o País (escolas da educação básica, universidades, Prefeituras municipais, serviços autônomos de água e esgoto, organizações não governamentais, associações de proteção ambiental, comitês de bacias hidrográficas e empresas), e apresenta situações e problemas para serem discutidas e trabalhadas em aula, contextualizando os casos e fazendo apontamentos didáticos, sem esquecer de listar causas para o problema apresentado e habilidades desenvolvidas com o exercício proposto, assim como a apresentação de uma proposta de aplicação da situação em sala de aula.

O lançamento dessa edição reforça a importância de se discutir um tema que tem se tornado vital, na medida em que da água depende a vida do nosso planeta. Sua preservação, portanto, é fundamental para a sobrevivência de todos os seres vivos, sobretudo quando se considera que ela é finita e que várias regiões do mundo se preocupam com a possibilidade desse recurso essencial tornar-se escasso a ponto da total extinção. Daí a estratégia de se colocar em pauta a questão da gestão dos recursos hídricos – em especial no contexto educativo, visto aí como capaz de criar iniciativas que possam colaborar para uma das principais missões da Educação, a formação de cidadãos.

Gerenciamento das águas

Imagem de um lago
A principal ameaça a pesar sobre os recursos hídricos é a falência hídrica global – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

A lei nº 9.433, de 8 de janeiro de 1997, conhecida como Lei das Águas, instituiu a Política Nacional de Recursos Hídricos (PNRH) e criou o Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos (SINGREH) no Brasil. Ela define a água como bem de domínio público, essencial para a vida, visando à gestão integrada, sustentável e participativa dos recursos hídricos, com o objetivo de assegurar a disponibilidade de água de boa qualidade para as gerações atuais e futuras; garantir o uso racional e integrado; e prevenir eventos hidrológicos críticos, sempre com a lente apontada para o fato de que a água é um bem público, um recurso limitado com valor econômico. Nesse sentido, a legislação nacional é tida como uma das mais avançadas do mundo na gestão dos recursos hídricos, tendo como resultado, inclusive, a criação da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), responsável por atuar como o órgão regulador da água na natureza e pela gestão de bacias hidrográficas, entre outras especificações. Ela foi criada pela Lei Federal nº 9.984/2000, como uma autarquia especial, com autonomia administrativa e financeira.

Apesar dos avanços proporcionados pela legislação referentes aos cuidados com a disponibilidade dos recursos, é necessário que funcione na prática, razão pela qual toda e qualquer contribuição que trate da gestão dos recursos hídricos é sempre bem-vinda, e é dentro desse contexto que se insere a presente obra, que reúne diferentes vozes, experiências e origens, numa soma que cria condições positivas para impulsionar a discussão do tema ao possibilitar um compartilhamento de realidades e de possibilidades de soluções para as situações hídricas enfrentadas – um tratamento atual para uma questão cada vez mais presente em nossa sociedade, assim como a de todo o planeta.

A própria Organização das Nações Unidas, reconhecendo a importância do tema, criou, em 22 de março de 1992, o Dia Mundial da Água, que passou a ser comemorado em 1993, lembrando que isso aconteceu durante a Conferência da ONU sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (Rio 92), no Rio de Janeiro, com o objetivo de conscientizar sobre a preservação dos recursos hídricos e a importância da água doce para a vida, e como um alerta a respeito da necessidade de uso sustentável dos recursos hídricos.

Falência hídrica

Na verdade, a principal ameaça a pesar sobre os recursos hídricos é a falência hídrica global, configurando uma situação em que a retirada e a poluição da água superam sua capacidade de reposição natural, tornando a escassez um desafio a ser enfrentado em muitas regiões do globo. Dados da ONU, publicados no início de 2026, indicam que o mundo superou a fase de “crise hídrica” (temporária) e entrou numa era de “falência”, situação alimentada por fatores como uso excessivo e degradação; mudanças climáticas e eventos extremos; gestão inadequada e má gestão; poluição do meio líquido por esgotos, agrotóxicos e resíduos industriais. Tal cenário, segundo a ONU, leva um total de quase 4 bilhões de pessoas a enfrentar escassez de água grave por pelo menos um mês a cada ano, ao mesmo tempo em que 2,1 a 2,2 bilhões de habitantes deste planeta ainda vivem sem acesso à água potável gerenciada de forma segura, o que acaba por aumentar a insegurança alimentar global e até as questões de gênero: estima-se que mulheres e meninas gastem 250 milhões de horas por dia coletando água.