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“No que a sociedade joga fora, encontro pedras preciosas todos os dias”

“No que a sociedade joga fora, encontro pedras preciosas todos os dias”

Elinéia Jesus é a presidente da cooperativa Rainha da Reciclagem no Jardim Matarazzo, na zona leste de São Paulo.

Em um galpão de 1.580 metros quadrados no Jardim Matarazzo, na zona leste de São Paulo, aproximadamente 100 pessoas trabalham diariamente com um grande volume de materiais recicláveis. Garrafas PET, papéis, plásticos em geral, vidros e muitos outros itens chegam ao espaço e passam por diferentes etapas até serem encaminhados à indústria.

As equipes se revezam na triagem, separação e prensagem. O ruído das máquinas é constante e acompanha toda a rotina, enquanto fardos de papel, plástico e metal circulam pelo galpão, organizando o fluxo de trabalho. O ambiente é dinâmico e exige atenção, agilidade e coordenação entre os trabalhadores.

Ali funciona uma das unidades da Cooperativa Rainha da Reciclagem, e todo o trabalho é acompanhado pela presidente, Elinéia Jesus, mais conhecida como Pastora Néia. Ela percorre o galpão, orienta os cooperados e verifica o andamento das atividades. Em seguida, segue para o escritório, onde estão expostos certificados nacionais e internacionais conquistados ao longo dos 10 anos de atuação.

Entre os reconhecimentos, ela destaca um em especial, vindo dos próprios cooperados: o agradecimento pela reinserção social. Cerca de 30 trabalhadores do local viviam em situação de vulnerabilidade ou enfrentavam dependência química e são atendidos em uma casa de reabilitação ligada a cooperativa.

Todo esse trabalho tornou-se referência para a Prefeitura de São Paulo e para a atualização do Plano de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos (PGIRS) da capital, atualmente em desenvolvimento pela Secretaria do Verde e do Meio Ambiente, em parceria com o Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos (ONU-Habitat). Mas, para compreender melhor a cooperativa, é preciso conhecer a trajetória de sua fundadora, marcada por dor, lutas e superação.

Equipe da cooperativa Rainha da Reciclagem.
Legenda: Equipe da cooperativa Rainha da Reciclagem.
Foto: © Alex Gomes/ONU-Habitat.

Do abandono à liderança

Elinéia Jesus nasceu em 1974, na Bahia, no povoado de Mandacaru, próximo a Feira de Santana. Vivia com quatro irmãos, criados apenas pela mãe, Jolina Gomes de Jesus. Devido às dificuldades financeiras, aos 3 anos foi entregue aos cuidados de uma tia. Permaneceu com ela até os 10 anos, quando foi encaminhada para outra família como empregada doméstica. Ficou dois anos nessa condição, quando se casou e foi para a cidade de Cruz das Almas, também na Bahia. Entretanto, sua vida conjugal foi marcada por violência.

No casamento, teve o primeiro filho aos 15 anos e o segundo aos 16. Após a segunda gravidez, saiu da relação e voltou à casa da mãe. Em uma difícil situação financeira, tomou a dolorosa decisão de deixar as crianças em Mandacaru e seguir para a cidade de Monte Mor, no estado de São Paulo. Ela confiou na promessa de um homem que lhe ofereceu melhores condições de vida no sudeste do país. Ao chegar, descobriu se tratar, na verdade, de um trabalho escravo de prostituição.

“Eu tive a minha juventude toda roubada. Abuso em cima de abuso. Quando consegui colocar um ponto final, o homem que me explorava fez da minha vida um inferno. Eu não tinha para onde ir. Saí de casa com a roupa do corpo.”

Aos 18 anos, fugiu e passou a viver em um local de comércio de drogas. Se envolveu com o tráfico e, aos 22 anos, foi presa. No cárcere, conheceu membros da comunidade Congregação Cristã no Brasil e, aos poucos, se converteu à fé cristã. Aos 23 anos, deixou o presídio e conseguiu um emprego de auxiliar de cabeleireira na cidade de Campinas, em São Paulo.

Entretanto, ela estava sem contato com seus filhos desde o dia em que se despediu de Mandacaru. Com apoio do salão onde trabalhava, retornou à cidade natal e teve uma triste surpresa: devido às condições financeiras da mãe, as crianças tinham sido entregues aos cuidados de outras famílias. Depois de uma intensa procura, Elinéia conseguiu localizar os filhos, então com 8 e 9 anos, e levou-os para morar com ela em Monte Mor.

Aos 33 anos, já em Itaquaquecetuba, também em São Paulo, teve sua terceira filha, prematura de sete meses. Porém, a sequência de tormentos continua: uma enchente atinge sua casa e ela perde tudo o que tem.

“Voltei à estaca zero. Chorava todos os dias e perguntava a Deus até quando iria sofrer. Cheguei ao ponto de abraçar meus três filhos e pedir: Deus, nos leve. Eu não aguento mais.”

Além disso, sua filha mais nova sofre uma hemorragia, ficando em estado grave. Elinéia se apega ainda mais à sua fé enquanto tem o consolo de ver a recuperação da bebê. A partir do episódio, se torna pastora evangélica e passa a ser conhecida como Pastora Néia.

Com isso, ela passou a organizar grupos para distribuir comida a pessoas em situação de rua na região central de São Paulo. Com o passar do tempo, se muda para um imóvel em Itaquera, na zona leste da cidade, no Conjunto Habitacional José Bonifácio, popularmente conhecido como Cohab 2. Ali, acolhe 18 pessoas em situação de vulnerabilidade social.

Posteriormente, com o apoio de lideranças comunitárias, ela vai o bairro do Jardim Pantanal, também na zona leste de São Paulo, e cria o projeto social Guerreiros de Deus, voltado ao auxílio de pessoas com dependência química. A renda para manter o projeto vem da venda de itens como balas, água e sacos de lixo; do salário de Elinéia no salão e de doações de moradores e comércios locais. Porém, as dificuldades financeiras permanecem.

O ponto de virada aconteceu quando ela recebeu de um hotel itens aparentemente sem valor, como mesas quebradas e geladeiras sem motor. Uma das pessoas atendidas no projeto social tem uma ideia inesperada: instala rodas em uma das geladeiras, passa a recolher materiais descartados pelas ruas e revender em pontos de compra de recicláveis. Apesar da desconfiança inicial, o resultado é surpreendente.

“O rapaz conseguiu uma quantia significativa. Eu nunca imaginei que a venda de resíduos pudesse gerar renda. Já no primeiro dia das vendas, conseguimos até comprar carne. Normalmente, só comíamos itens mais baratos.”

A experiência motivou Elinéia a formar equipes para a coleta de resíduos no bairro, como papelão e garrafas PET. O grupo chegou a recolher até uma tonelada por dia. O êxito da iniciativa a levou a profissionalizar as atividades, e assim nasceu a associação de catadores Rainha da Reciclagem. Com o crescimento das atividades, o grupo buscou regularização junto à Prefeitura de São Paulo para poder se tornar uma cooperativa, enquanto Elinéia se capacitava por meio de cursos de gestão.

As etapas de formalização foram concluídas em março de 2016, e a associação se tornou a Cooperativa Rainha da Reciclagem, que permanece vinculada ao projeto social Guerreiros de Deus, permitindo que pessoas em processo de recuperação de dependência química consigam trabalho e reinserção social.

Além dessas conquistas, Elinéia realizou um sonho que mantinha desde a infância: oferecer conforto e dignidade a mãe. Atualmente, Jolina Gomes de Jesus, com 93 anos, sofre de Alzheimer e vive em Feira de Santana, na Bahia, com todos os seus cuidados garantidos pela filha, que a visita regularmente.

“Eu sempre sonhei em voltar para a Bahia e dizer à minha mãe que venci. Quando o Alzheimer se manifestou, fui a primeira filha a ser esquecida. Mesmo assim, no fundo do meu coração, tenho certeza de que ela se lembra de mim.”

Elinéia com sua mãe, Jolina Gomes de Jesus.
Legenda: Elinéia com sua mãe, Jolina Gomes de Jesus.
Foto: © Arquivo pessoal.

O trabalho da Rainha da Reciclagem

A cooperativa Rainha da Reciclagem possui duas unidades, localizadas nos municípios de São Paulo, com 100 cooperados, e de São Vicente, com 54 cooperados. A organização também integra uma rede de 29 unidades habilitadas junto à Prefeitura de São Paulo, por meio do programa SP Coopera, da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico e Trabalho. A iniciativa municipal busca fortalecer as cooperativas por meio de ações de qualificação, além de suporte técnico, jurídico e financeiro e outras frentes de apoio.

A unidade paulistana realiza a triagem e o tratamento dos resíduos recicláveis coletados na região sudeste do município pela Ecourbis, uma das concessionárias responsáveis pelo manejo de resíduos sólidos urbanos da cidade. Mensalmente, são processadas cerca de 350 toneladas de resíduos.

Já a unidade de São Vicente mantém um acordo com a prefeitura local para a execução da coleta seletiva em todo o município, processando cerca de 200 toneladas de resíduos mensalmente.

“Após anos de trabalho e dedicação, é extremamente satisfatório podermos ter esse impacto ambiental nas cidades em que atuamos. Também somos procurados por grandes empresas e indústrias em busca de soluções para a gestão de seus resíduos”, afirma Elinéia.

Equipe de trabalho da cooperativa Rainha da Reciclagem.
Legenda: Equipe de trabalho da cooperativa Rainha da Reciclagem.
Foto: © Alex Gomes/ONU-Habitat.

Referência para políticas públicas

As boas práticas da cooperativa despertaram a atenção da equipe do Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos (ONU-Habitat), que atua junto à Prefeitura de São Paulo na elaboração da nova versão do Plano de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos (PGIRS).

O plano irá orientar o planejamento, a implementação e o monitoramento da gestão de resíduos na capital nas próximas duas décadas. Entre os principais eixos estão o fortalecimento das cooperativas de catadores, a ampliação e a qualificação da coleta seletiva, a redução da destinação de resíduos a aterros e a promoção da economia circular.

Em março de 2025, a equipe do ONU-Habitat realizou uma visita à cooperativa para conhecer melhor sua gestão e atividades, que serviram de referência para o diagnóstico do PGIRS. A visita contou com representantes do Comitê Intersecretarial da Política Municipal de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos (CGIRS) da Prefeitura de São Paulo.

Entre os destaques observados está a infraestrutura, com esteiras, prensas, balanças e outros equipamentos que contribuem para a triagem e o processamento dos materiais recicláveis. Os recursos permitem a otimização dos fluxos operacionais, o aumento da produtividade e a melhoria das condições de trabalho dos cooperados. Após a triagem, os resíduos são armazenados em espaços específicos e devidamente identificados.

“O trabalho social na cooperativa e sua estrutura operacional demonstram como inclusão produtiva e eficiência caminham juntas, promovendo geração de renda, organização dos processos e melhores condições de trabalho”, afirma o coordenador de programas do ONU-Habitat, Luiz Gustavo Vilela, responsável pela frente do PGIRS.

Outros pontos fortes da cooperativa são a governança, que conta com um conselho fiscal responsável por acompanhar e fiscalizar a gestão financeira e administrativa, e a preocupação com o futuro dos cooperados, evidenciada pelo incentivo à contribuição para a previdência social.

“Ver a Rainha da Reciclagem sendo reconhecida pela Prefeitura de São Paulo, dentro de um plano tão importante como o de resíduos sólidos, é algo que emociona muito”, comenta Elinéia.

“Isso mostra que, quando a gente une fé, ação social e cuidado com o meio ambiente, a transformação é real. Deus vai levantar muitos projetos a partir disso, e muitas vidas serão restauradas.”

A relevância das cooperativas como agentes ambientais e econômicos em política de resíduos encontra respaldo em dados robustos. De acordo com o Anuário da Reciclagem do Instituto Pragma, que reúne informações de 2.941 organizações de catadores e catadoras em todo o país, em 2023 foram recolhidas 1,77 milhão de toneladas de materiais recicláveis, o que resultou na redução de 876,3 mil toneladas de emissões de CO₂.

Do ponto de vista econômico, essas organizações faturaram R$ 1,53 bilhão no mesmo período, o que corresponde a uma média de R$ 553,8 mil de faturamento anual por organização.

Para Gustavo Rabello, analista de políticas públicas e gestão governamental da Secretaria do Verde e do Meio Ambiente, envolvido na coordenação do PGIRS, as cooperativas de catadores são peças centrais da política de resíduos sólidos.

“Pretendemos contar com um PGIRS que amplie o apoio a essas organizações, qualificando a coleta seletiva, fortalecendo a estrutura das cooperativas e promovendo a economia circular, de forma a tornar a cidade mais sustentável.”

Além do plano de resíduos sólidos, o ONU-Habitat também apoia a Prefeitura de São Paulo na elaboração do Plano Municipal de Saneamento Ambiental Integrado (PMSAI), instrumento estratégico que orientará as políticas públicas de saneamento no município.

O PMSAI abordará, de forma integrada, os serviços de abastecimento de água, esgotamento sanitário, drenagem e manejo de águas pluviais, limpeza urbana e manejo de resíduos sólidos, com foco na universalização do acesso, na sustentabilidade ambiental e na melhoria da qualidade de vida da população.

Inovar sem perder o olhar humano

Em 2026, as ações socioambientais da Rainha da Reciclagem avançaram para um novo patamar. A cooperativa passou a integrar um projeto que oferece recompensas para que a população descarte materiais de forma correta.

Trata-se do “Re.Cicle+”, iniciativa liderada pela empresa Walquiria Re.Cicle+. Inaugurado no bairro da Vila Silvia, na zona leste de São Paulo, o espaço recebe as quatro principais categorias de resíduos recicláveis (plástico, vidro, metal e papel), além de eletrônicos e óleo de cozinha, e remunera a população com créditos que podem ser utilizados como preferir, por meio de um cartão do projeto.

No “Re.Cicle+”, a cooperativa é responsável pela operação, pela aquisição de materiais de trabalho, pelo cadastro de catadores e moradores e pela logística dos materiais recebidos.

Unidade do projeto Re.Cicle+.
Legenda: Unidade do projeto Re.Cicle+.
Foto: © Cooperativa Rainha da Reciclagem.

Para Elinéia, o projeto desempenha uma importante função de educação ambiental, pois leva a população a compreender sua responsabilidade na cadeia de gestão de resíduos da cidade. “Muitas pessoas consomem e acreditam que, depois do descarte, o resíduo deixa de ser um problema seu. Mas todos têm de entender que ele continua sendo até chegar ao local adequado”, afirma.

Seja quando fala sobre projetos para o futuro, revisita a própria trajetória ou reflete sobre sua vida como pastora, líder de projetos sociais e presidente da Cooperativa Rainha da Reciclagem, Elinéia sempre ressalta não apenas o potencial econômico e ambiental da gestão de resíduos sólidos, mas também seu papel social, por ser, para muitas pessoas, a única forma de acesso ao mercado de trabalho e à melhoria das condições de dignidade.

Ao falar sobre esse impacto, ela costuma sintetizar sua visão em uma frase que se tornou seu lema:

“No que a sociedade joga fora, encontro pedras preciosas todos os dias.”

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