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Como as mudanças climáticas e as desigualdades sociais estão interligadas

Como as mudanças climáticas e as desigualdades sociais estão interligadas

Projeto que surgiu na sala de aula como disciplina optativa já acumulou inúmeras conquistas e visa a mudanças muito maiores

O CoopClima, Co-planejamento para Justiça Climática em São Vicente é um projeto esboçado em 2023 e que se iniciou em 2024, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), nascendo da imersão de uma disciplina da graduação na Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP. O objetivo é desenhar políticas públicas de ação do clima de São Vicente de forma cocriada com os atores do território, embasado em evidências científicas e pelo conceito de justiça climática. Através disso, São Vicente tornou-se a primeira cidade do Brasil a ter uma resposta a essa grave condição.

Sylmara Lopes Francelino Gonçalves Dias, professora associada à EACH e coordenadora do programa, explica o seu surgimento. “Propus uma optativa onde a intenção era levar os alunos para uma disciplina imersiva e extensionista, que partisse da realidade de um município, para eles colocarem a ‘mão na massa’. A gênese dessa ideia veio do edital da Fapesp, o Programa de Pesquisa em Políticas Públicas (PPPP), que sugeria a realização de um projeto que realizasse uma intervenção e incidisse numa política pública, realizando uma parceria com algum órgão público, de modo que trouxesse evidências científicas e comunitárias para construir mecanismos para a tomada de decisão em cima desse problema, visto que a falta de preparação, capacidades técnicas e orçamento para combatê-lo é nítida.”

Sylmara Lopes – Foto: Currículo Lattes

“O conceito de justiça climática, que é o principal norteador do programa, vem da busca por um entendimento, uma luta para que as medidas governamentais priorizem as populações vulnerabilizadas que vivem em áreas de riscos, não possuem acesso a saneamento básico, equipamentos de saúde, estruturas viárias, dentre outros serviços. São casos como as enchentes ocorridas em São Sebastião e no Rio Grande do Sul, que mostram a maior fragilidade desses grupos diante a tragédias. Os mais ricos, mesmo com suas perdas, tiveram condições de se adaptarem, já os periféricos sofrem até hoje com as consequências. A crise climática está aqui e é de suma importância pensar nos mais vulneráveis, já que são os mais afetados, mesmo não sendo os responsáveis pela problemática”, pontua a professora.

O CoopClima tem como centro das suas estratégias escutar as necessidades da população periférica para construir um processo coletivo de produção de conhecimento e de ação articulando ciência, gestão pública e saberes comunitários para a busca de soluções. Além disso, desenvolver a modelagem das políticas públicas de ação climática de São Vicente, de forma coordenada com as pessoas locais, implementar ferramentas de apoio às tomadas de decisão, dirimir falhas de focalização e auxiliar a gestão municipal na operacionalização da justiça climática.

Risco nas cidades litorâneas

Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física da USP, coordenador do Programa Fapesp de Mudanças Climáticas Globais e membro dos Institutos Nacionais de Ciência, Tecnologia e Inovação (INCT) Mudanças Climáticas, comenta como essas alterações geram um risco extra para populações vulneráveis nas cidades litorâneas. “O Brasil tem várias cidades litorâneas que são sensíveis ao aumento do nível do mar e à proximidade com as encostas, como é o caso da Baixada Santista. Essa sensibilidade é amplificada pela enorme diferença de serviços que a cidade coloca para as regiões mais ricas da cidade e as mais pobres, tornando a questão da justiça climática e desigualdades sociais associadas ao clima muito importante.

Cena de praia urbana em primeiro plano, com pedras e areia, seguida por o mar tranquilo. Ao fundo, há edifícios altos próximos à orla, palmeiras e uma faixa de praia relativamente estreita. O céu está limpo e azul.
Mudanças climáticas podem afetar mais intensamente cidades litorâneas Foto: Diego Torres Silvestre / Flickr

Desafios enfrentados

Apesar do sucesso atual, o programa enfrentou diversas dificuldades para sua consolidação. “Um dos primeiros desafios que nos deparamos foi a junção da academia com a gestão pública. Muitos dos nossos primeiros objetivos do primeiro ano foram impossibilitados, por ser período eleitoral e sermos parceiros da Prefeitura entramos na lei eleitoral. Devido a isso, não conseguimos ir para as ruas, interagir com a população, realizar as oficinas que planejamos e tudo teve que ser adiado para o ano seguinte”, aponta Sylmara.

“Outro empecilho que enfrentamos foi a dificuldade de entrar nas comunidades nas quais o Estado estava ausente. Neste caso, surge a contradição, a Prefeitura é nossa parceira, mas, ao mesmo tempo, não é vista com bons olhos pela população. Existia aquela sensação de abandono e uma falta de comunicação entre a população com o governo e, também, com a própria Universidade, ainda que circulem projetos de extensão. Apesar desses problemas iniciais, principalmente no primeiro ano da trajetória, conseguimos realizar uma aproximação entre esses três atores, que foi um enorme êxito.”

Primeiros passos e conquistas

A criação dessa tríade entre a gestão pública, a Universidade e a comunidade foi essencial para o sucesso inicial do programa, com a confecção de uma “caixa de ferramentas”. “Nossa caixa tem duas alças, a primeira é o letramento climático e a outra é a comunicação e divulgação científica de todas as nossas ações, elas têm sido fundamentais para construir a relação entre os atores. A maioria das pessoas ouve sobre as mudanças climáticas e associa com o derretimento das geleiras e não como um problema próximo delas, do dia a dia. Então, a primeira ação feita, até hoje, é entender que o letramento climático é contínuo, e é necessário traduzir o que é mudança climática no cotidiano, como enchentes e o aumento da temperatura, por exemplo.”

“É possível observar uma falta de conhecimento da população em relação às transformações no clima, pois a maioria tem problemas imediatos a serem resolvidos. E programas de educação nesta área são absolutamente estratégicos.” , comenta Paulo Artaxo.

A primeira medida tomada para o início do processo envolveu a criação do Fórum de Cooperação, contando com a participação da Academia, órgãos governamentais e outros agentes. Após isso, foi realizado um curso de extensão para o letramento de gestores do município e, por fim, organizaram um piloto em três escolas nos bairros Vila Margarida e México 70, áreas muito vulneráveis da Baixada Santista. Segundo Sylmara, os resultados iniciais foram incríveis. O curso, por exemplo, ganhou o Prêmio de Impacto Social da USP de 2024 e os pilotos conquistaram o ESG (Environmental, Social and Governance) do Grupo Tribuna, que premia projetos sustentáveis e sociais de impacto no Brasil.

Paulo Artaxo – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Em 2025, principalmente no segundo semestre, o objetivo inicial foi restaurado, adentrar de fato no território periférico. “Inicialmente, realizamos planejamentos com diferentes secretarias para organizar nossa ação nos locais, dividindo a cidade em seis áreas, que contam com mais de 100 favelas. Depois, fizemos 12 oficinas participativas de avaliação de risco, nos dirigindo o mais perto possível das comunidades vulneráveis e utilizando da infraestrutura de escolas da região. Com isso, conseguimos ouvir quase 400 pessoas para o projeto e mapear mais de mil áreas de risco no município com a ajuda delas e de dados que reunimos do IBGE, Cemaden, AdaptaBrasil e outros. Assim, classificamos áreas como inundáveis, com vetores de risco para doenças e sem coleta de lixo, por exemplo. Além disso, construímos uma relação afetiva essencial com a população”, completa Sylmara.

Foto: Arquivo Pessoal

Olhando para o futuro

Já na metade do caminho previsto de duração, o CoopClima visualiza muito trabalho a ser feito ainda, envolvendo desenhar uma política de ação climática para São Vicente. “A grande contribuição que o projeto pretende deixar é justamente inspirar outras cidades a construírem políticas públicas endereçando a justiça climática. Traduzir tudo que captamos e conquistamos em guias, manuais, metodologias, papers científicos para operacionalizar esse conceito, e que ele se torne um mecanismo de tomada de decisões e prevenção contra acidentes ambientais.”

Foto: Arquivo Pessoal

“Temos que nos adaptar às mudanças climáticas, isso deixou de ser uma questão do futuro, elas já chegaram e existem recursos para lidar em várias fontes diferentes, do BNDES ao Ministério da Fazenda e ao Ministério do Meio Ambiente. Mas, em geral, esses recursos não são utilizados porque não estão na agenda direta dos políticos e dirigentes das nossas cidades e Estados. Isso tem que mudar urgentemente e só vai mudar com grande pressão da população”, afirma Artaxo.

*Sob coordenação de Paulo Capuzzo e Cinderela Caldeira

**Estagiária sob orientação de Simone Gomes