Soluções socioambientais travam por falta de recursos locais — e a filantropia comunitária quer mudar esse cenário no Brasil
Modelo busca mobilizar recursos locais e fortalecer soluções mais eficazes diante de ‘espaços vagos’ no financiamento e na governança ambiental
A dificuldade de financiar soluções locais, para desafios socioambientais, ainda é um dos principais entraves ao desenvolvimento sustentável em diferentes regiões do Brasil. Em meio a esse cenário, há a aposta em modelos de filantropia comunitária, que buscam mobilizar recursos dentro dos próprios territórios e fortalecer respostas lideradas por quem vivencia os problemas de forma direta.
O desafio não é simples. Hoje, três quartos dos recursos destinados à mitigação das mudanças climáticas no Brasil — o equivalente a 75% de uma média anual de US$ 208 milhões — vêm de apenas 10 grandes doadores internacionais, segundo levantamento do Instituto Clima e Sociedade (iCS) e do Grupo de Institutos, Fundações e Empresas (GIFE). O dado detalha a dependência do país de um grupo restrito de financiadores para sustentar políticas e projetos ambientais.
A discussão ampara a visita ao país de representantes da Charles Stewart Mott Foundation, uma das organizações internacionais de apoio à filantropia comunitária. A agenda inclui encontros com iniciativas locais em três cidades, Porto Alegre, São Paulo e Maceió, para acompanhamento do avanço do programa Transformando Territórios, do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social.
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Limites de soluções ambientais
Apesar do avanço de iniciativas voltadas ao desenvolvimento sustentável, organizações da sociedade civil ainda enfrentam dificuldades estruturais para financiar projetos nos próprios territórios onde atuam, o que impacta a capacidade de adaptação aos desafios ambientais.
“Ouvimos com bastante frequência que um dos principais desafios enfrentados pelas organizações da sociedade civil brasileira, em geral, é a dificuldade de captar recursos”, afirma o diretor sênior de programas da Mott Foundation, Nick Deychakiwsky. “Captar recursos de fontes locais — ou seja, dentro do próprio território — ainda é bastante desafiador”.
Essa lacuna denota um desequilíbrio na forma como soluções são financiadas. “Predomina a ideia de que o apoio financeiro deve vir de grandes empresas nacionais ou de doadores internacionais. A filantropia comunitária propõe justamente o uso de recursos locais para necessidades locais”.
O cenário é agravado por um desequilíbrio regional e temático no financiamento climático. Ainda segundo o estudo do iCS e do GIFE, cerca de 80% das doações se concentram na Amazônia, enquanto biomas como Cerrado, Caatinga, Mata Atlântica, Pantanal e Pampa seguem subfinanciados. Além disso, áreas estratégicas como energia limpa e transporte sustentável recebem parcela reduzida dos recursos.
Na prática, isso significa que grande parte das soluções ambientais necessárias no país — especialmente fora dos grandes eixos de financiamento — enfrenta dificuldades para sair do papel ou ganhar escala.
Um exemplo desse modelo está no Rio Grande do Sul. A Fundação Gerações, com sede em Porto Alegre, estruturou o primeiro fundo comunitário do Estado a partir do apoio do programa Transformando Territórios.
“A nossa participação no programa Transformando Territórios impulsionou a criação do Fundo Porto de Todos, o primeiro fundo comunitário do Rio Grande do Sul. Os recursos investidos pelo IDIS nos ajudaram a mobilizar novos parceiros e doadores e hoje nos orgulhamos de já ter repassado mais de R$ 1,7 milhões para 34 iniciativas de base comunitária”, afirma a diretora executiva da fundação, Karine Ruy.
Criada em 2008, a organização atua no fortalecimento do terceiro setor e no desenvolvimento territorial, apoiando organizações locais, lideranças comunitárias e negócios de impacto voltados à redução de desigualdades — incluindo iniciativas a desafios socioambientais nos territórios.
Soluções ambientais
A centralização de recursos e decisões é apontada como um dos fatores que limitam a eficácia de projetos socioambientais. Na visão do especialista, iniciativas desenhadas sem conexão com a realidade local tendem a ter menor impacto ou até fracassar.
“Há diversos estudos no campo do desenvolvimento internacional que demonstram que, sem participação local, especialmente conhecimento contextual e engajamento das comunidades, as intervenções tendem a ser menos eficazes ou até fracassar”, afirma Deychakiwsky.
Nesse contexto, as fundações comunitárias ganham espaço por atuarem diretamente nos territórios. “São geridas por pessoas que conhecem profundamente um território — sabem quem está fazendo o quê, com que qualidade, e como os diferentes desafios se inter-relacionam”.
Essa proximidade gera uma alocação de recursos mais estratégica e alinhada às demandas locais, aumentando o potencial de impacto de projetos que envolvem, por exemplo, gestão de recursos naturais, adaptação climática e desenvolvimento sustentável.
Estágio inicial
O Brasil ainda está em fase de consolidação no campo da filantropia comunitária, mas já apresenta avanços. A primeira fundação comunitária do país foi criada em 2005, e hoje existem cerca de 14 iniciativas estruturadas, com atuação relacionada às demandas locais.
“Na minha avaliação, em 2026, eu diria que o Brasil está bem-posicionado”, afirma Deychakiwsky. “Ainda que o número de organizações e o volume de recursos sejam menores do que em países como Estados Unidos, Canadá, Alemanha ou Reino Unido”.
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O crescimento desse modelo exige um processo gradual, ainda de acordo com o especialista. “O desenvolvimento dessas organizações requer um processo cuidadoso, baseado mais em apoio do que em direcionamento externo”.
Sustentabilidade
A atuação das fundações comunitárias está diretamente conectada ao conceito de sustentabilidade, sobretudo, pela sua permanência e vínculo com o território. “Em relação à sustentabilidade, isso já está no cerne da atuação das fundações e institutos comunitários, mesmo quando não explicitam essa característica”, afirma o diretor. Ele explica que essas organizações são estruturadas para acompanhar o desenvolvimento das comunidades no longo prazo, o que inclui lidar com desafios ambientais que evoluem ao longo do tempo.
Desafio
Apesar do potencial, o modelo enfrenta uma questão que carece de resolução imediata: ampliar sua atuação sem reforçar desigualdades regionais, já que territórios com maior estrutura tendem a captar mais recursos.
“É verdade que, muitas vezes, os territórios onde as fundações e institutos comunitários seriam mais necessárias não são os primeiros lugares a desenvolver esse modelo”, afirma Deychakiwsky.
A estratégia passa por consolidar iniciativas em regiões onde já há capacidade instalada e, a partir disso, expandir para áreas mais vulneráveis. “É preciso paciência, é um processo de longo prazo”. Talvez não na velocidade com o que a crise climática exige…
Caminho
Iniciativas brasileiras já apontam caminhos possíveis. A Rede Comuá, voltada à justiça socioambiental, reúne experiências de financiamento direto a comunidades e territórios que enfrentam os impactos da crise climática. Entre 2023 e 2024, organizações da rede destinaram cerca de R$ 450 milhões a iniciativas em 25 estados, beneficiando aproximadamente meio milhão de pessoas.
As ações apoiadas incluem desde brigadas indígenas de combate a incêndios no Cerrado até recuperação de manguezais, sistemas agroecológicos e tecnologias sociais para segurança hídrica — soluções que nascem no território e respondem diretamente aos efeitos da crise climática.
Além disso, programas como o Transformando Territórios apostam no fortalecimento de lideranças locais como caminho para enfrentar desafios socioambientais complexos. A lógica é combinar conhecimento comunitário com trocas de experiências entre organizações de diferentes regiões e países.
“O programa atua no fortalecimento de instituições locais lideradas por atores do próprio território, que estão mais aptos a desenhar e implementar respostas a desafios sociais e ambientais”, explica Deychakiwsky. A avaliação é que, diante da complexidade crescente das crises ambientais, soluções que nascem e se estruturam no território tendem a ser mais eficazes e duradouras.
