Após 175 anos, as tartarugas gigantes de Galápagos voltam para casa no arquipélago por onde passou Darwin
Em uma manhã quente de fevereiro, guardas florestais do Parque Nacional das Galápagos soltaram 50 tartarugas gigantes na Ilha Floreana, marcando o início de um retorno histórico destes animais ao arquipélago estudado por Charles Darwin.
Na Ilha Floreana, no Equador, nove homens caminham em fila indiana como um exército, marchando morro acima sob o sol equatorial com caixas plásticas de 50 quilos amarradas às costas. Dentro de cada uma delas estão as preciosas tartarugas gigantes de Galápagos.
Quando finalmente chegam ao topo da colina — um caminho cheio de pedras de lava afiadas e cones de cinzas geologicamente ativos —, os homens estão pingando suor. Mas não descansam nem param. Eles deixam as caixas no chão com cuidado e a partir de então mais umtrabalho começa. “Coloquem na sombra”, grita um homem com uma balaclava e óculos escondendo o rosto do sol.
“Aqui”, aponta outro homem mascarado, pisando na grama seca para chegar a um bosque de árvores de palo santo. A tropa levanta e segue, e o conteúdo das caixas parece ganhar vida.
Esses homens poderiam ser confundidos com soldados, mas na realidade são — além de carregadores – exploradores e até babás. Isso porque se trata de guardas florestais do Parque Nacional de Galápagos, defensores da vida selvagem em um dos lugares com maior biodiversidade do mundo. E o que está chacoalhando nessas caixas são os descendentes de uma espécie que não era vista nesta ilha há 175 anos.
“Isso é história”, declara o líder da equipe, Christian Sevilla, diretor de ecossistemas da Diretoria do Parque Nacional de Galápagos.
Há 50 tartarugas gigantes voltando para casa nesta manhã, e 158 no total nos próximos dias, com centenas prontas para serem soltas e outras centenas no centro de reprodução do parque na Ilha de Santa Cruz.

Em 20 de fevereiro de 2026, a tartaruga gigante de Floreana se tornou a primeira espécie local a ser reintroduzida na ilha. Por mais de uma década, conservacionistas têm trabalhado para erradicar algumas das espécies não nativas que dificultam sua sobrevivência, principalmente gatos selvagens e ratos pretos em Floreana.
Foto de Lucas Bustamante
Tartarugas gigantes híbridas para salvar uma espécie
As tartarugas nas caixas, no entanto, ainda não são gigantes — elas têm entre 7 e 15 anos e pesam de 4,5 a 18 kg.
Elas também são híbridas da espécie de tartaruga Floreana, agora extinta. Essas tartarugas carregam as linhagens das tartarugas Floreana e Wolf Volcano. Alguns dos híbridos também têm genes de espécies encontradas nas ilhas Santiago e Española, na região.
Nos últimos 15 anos, um programa de reprodução criou 720 novas tartarugas híbridas Floreanas, cujo passo final para retornar à natureza depende de viajar nas costas de Sevilla e sua equipe nesta manhã quente de fevereiro.
“Vamos”, diz Sevilla, enquanto uma gota de suor escorre por seu rosto. Ele trabalhou sem parar nas últimas 48 horas, transportando esses animais por navio, caminhão e à mão.
Quando as caixas são abertas, dois filhotes rastejam para fora e começam a mastigar uma trepadeira. Um naturalista de fala mansa, chapéu de abas flexíveis e botas de combate fecha seu guarda-chuva e pega sua câmera.
“Isso é um bom sinal”, diz James Gibbs enquanto tira fotos. O biólogo conservacionista e explorador da National Geographic é, em muitos aspectos, o principal responsável por este momento.
Enquanto observa as tartarugas se afastando lentamente, ele se emociona como um pai orgulhoso, admitindo: “Nunca pensei que isso fosse acontecer”.
E a verdade é que quase não aconteceu.
Graças a uma descoberta acidental, um exército de guardas florestais e pesquisadores está agora à beira do que pode ser a recuperação mais ambiciosa já tentada em uma ilha. Trata-se de uma restauração de décadas com o objetivo de eliminar espécies invasoras como ratos e gatos — um processo meticuloso e sangrento que atrasou a liberação em vários anos — e um projeto de 15 milhões de dólares que mapeou a recuperação de plantas, o manejo da terra e os conflitos humanos, tudo para criar as condições para o retorno das famosas tartarugas gigantes da ilha.
“Você não pode fazer isso em outras partes do mundo”.

Os guardas florestais do Parque Nacional Galápagos transportam tartarugas híbridas jovens para a Ilha Floreana. No final de fevereiro, os funcionários do parque ajudaram a levar 158 dessas tartarugas de volta a uma ilha onde elas não eram vistas há 175 anos. As tartarugas são híbridas da tartaruga Floreana e das tartarugas gigantes encontradas nas ilhas vizinhas.
Foto de Lucas Bustamante
Por dentro da ilha Floreana, a “casa” das novas tartarugas gigantes
Outrora um centro para baleeiros e piratas, Floreana foi a primeira ilha de Galápagos a ser colonizada.
Os humanos não trouxeram apenas ratos e gatos, mas também cavalos, vacas, porcos, cães, burros e cabras, animais que superaram — ou mataram — os animais nativos. Dez das 22 espécies de aves foram extintas em Floreana desde a chegada dos humanos, de acordo com Birgit Fessl, pesquisadora principal de conservação de aves terrestres da Fundação Charles Darwin.
Floreana sempre teve uma história sombria: a primeira colônia terminou em derramamento de sangue e, na década de 1830, a ilha era uma prisão. Cem anos depois, um punhado de alemães começou um Éden idílico e ingênuo, uma história que terminou em assassinato e foi dramatizada em um filme de Ron Howard.
“As pessoas causaram esses problemas e têm a responsabilidade de resolvê-los”, diz o jornalista e escritor estadunidense Jonathan Miles, cujo novo romance, “Eradication”, lançado agora em 2026, enfoca exatamente esse desafio das espécies invasoras e é baseado em parte em suas reportagens aqui.
O plano atual é difícil, admitem seus idealizadores, mas muito menos ingênuo do que as tentativas fracassadas anteriores em Floreana.
Sim, existem mais de 1.600 espécies introduzidas nas ilhas, mas as cabras eram, em muitos aspectos, as piores. Multiplicando-se sem controle, elas comeram tudo em Floreana durante anos, destruindo a terra.
Mas em 2007, a última cabra de Floreana foi removida e agora livrar-se dos ratos e gatos significa realmente reverter gerações de destruição. É por isso que as tartarugas são fundamentais. Elas moldam o ecossistema desde a base, dispersando sementes e abrindo caminhos, como se fossem arquitetas naturais.
“Esse retorno é fundamental para o crescimento das plantas” e outras espécies, até mesmo para as aves que nidificam, observa Rakan Zahawi, diretor executivo da Fundação Charles Darwin, que há anos apoia a restauração.
Por se tratar de uma espécie tão icônica e importante, os conservacionistas têm se disposto a gastar milhões de dólares e anos de trabalho removendo plantas e animais que não deveriam estar ali. “Você não pode fazer isso em outras partes do mundo”, diz Zahawi, observando a escala e a atenção que essas famosas ilhas exigem. “Devemos restaurar ou não, essa é a velha questão.”
A reintrodução das tartarugas gigantes é uma esperança para as espécies nativas
Matar animais é sempre controverso, mas a redução do número de ratos e gatos já provocou uma recuperação das aves, e o ralinho-das-Galápagos, que vive no solo, está de volta após quase 200 anos.
“Brincamos dizendo que estamos desfazendo o trabalho dos piratas, mas na realidade é isso mesmo”, concorda Penny Becker, CEO da Island Conservation, uma organização sem fins lucrativos que ajudou a moldar o plano de Floreana nos últimos 15 anos.
Esse plano também ajuda os moradores locais, que dizem que a eliminação dos ratos significa mais comida, com um aumento de 80% na produtividade das colheitas.
“Tudo isso me deixa muito emocionado”, admite Claudio Cruz, um agricultor de 66 anos, ao pensar nos danos ecológicos que estão sendo revertidos. Cruz chama Floreana de “a capital de Galápagos” e diz que o retorno dos gigantes significa que Floreana agora estará completa — e mais lotada, acrescenta ele com uma risada.
Lar de cerca de 125 produtores de milho e goiaba, em breve haverá mais tartarugas do que pessoas. Mas, embora tenha havido conflitos entre tartarugas e agricultores em outros lugares, Cruz, que é o oitavo de 12 irmãos, descreve uma conexão com a vida selvagem que é “fundamental” para a cultura de Floreana.
“Quando você olha para uma tartaruga, nos olhos dela”, diz ele, “elas reconhecem você. Elas são inteligentes. Elas querem se comunicar. Agora temos essa chance”.
“Darwin chegou a Galápagos em 1835 e as tartarugas de Floreana já estavam em declínio. Em 1850, elas haviam desaparecido.”
Charles Darwin já encontrou a população de tartarugas gigantes em declínio
A população ainda será uma fração do que era em seu auge. Floreana já foi coberta por tartarugas, milhares delas até onde a vista alcançava, “espalhadas em todas as direções pelas planícies e terras baixas próximas ao mar”, segundo o comodoro John Downes, um capitão baleeiro que as caçava por sua carne e óleo. As tartarugas eram essenciais em longas viagens, nas quais os homens frequentemente passavam fome, pois eram um alimento fácil de transportar.
Já houve até 350 mil tartarugas gigantes em todo o arquipélago, mas quando Darwin chegou em 1835, a espécie já estava em declínio. Em 1850, as tartarugas de Floreana haviam desaparecido. Até hoje.
Hoje restam entre 30 mil e 35 mil dessas tartarugas gigantes – cerca de 10% da população original.
Além das tartarugas, outras 12 espécies extintas localmente também devem retornar nos próximos anos, incluindo o sabiá-de-floreana, a cobra-corredora-de-floreana e o pequeno papa-moscas-vermelho.
Mas tudo isso depende de que os próximos momentos corram bem.
Isso porque é necessário saber se os animais nascidos em cativeiro saberão instintivamente como sobreviver nesta ilha rochosa e seca. O que acontecerá quando os bebês gigantes forem libertados das caixas?

Os guardas florestais do Parque Nacional de Galápagos formam uma fila e passam as tartarugas, uma a uma, para um grande curral antes do dia da reintrodução. Essas tartarugas serão rastreadas por GPS, e mais híbridos seguirão seus passos em datas posteriores.
Foto de Lucas Bustamante
Como as tartarugas-bebê gigantes serão monitorados
Ninguém sabe o que esperar quando a temperatura ultrapassa os 32 °C, as caixas são abertas e o bastão passa para outra equipe. Luvas são calçadas e conchas são esfregadas enquanto minúsculos sensores são fixados com adesivo epóxi para prender os dispositivos de rastreamento GPS que os pesquisadores colocam em todas as 50 tartarugas.
“Os sensores devem durar dez anos”, explica Martin Wikelski, especialista em migração e pioneiro em sensores para animais do Instituto Max Planck de Comportamento Animal. Alimentados pela Starlink, os dispositivos rastrearão e monitorarão os filhotes à medida que eles se dispersam, que é exatamente o que acontece quando são soltos.
À medida que os filhotes dão seus primeiros passos — literalmente rumo às colinas —, muitos dos responsáveis por esse momento suspiram audivelmente, incluindo Sevilla, com seu rosto severo, que esboça um sorriso.
Gibbs, também sorrindo enquanto observa as tartarugas jovens se afastando, esperou décadas por esse momento.
Cerca de 26 anos atrás, ele liderou uma expedição por todas as ilhas Galápagos para descobrir quantos gigantes ainda restavam. Depois de escalar um vulcão na extremidade oeste do arquipélago, sua equipe acidentalmente se deparou com o que ele chamou de “uma espécie alienígena”.
As tartarugas que encontraram na ilha Isabela (a maior de Galápagos) não deveriam estar lá. Neste lugar, supunha-se existir tartarugas da espécie becki, também conhecidas como tartarugas do vulcão Wolf. Em vez disso, ele encontrou outro tipo de tartaruga gigante a viver à sombra do vulcão, “e estava tudo errado”, recorda ele.
As tartarugas de Floreana eram conhecidas por suas carapaças em forma de sela, mas as tartarugas de Wolf têm carapaças abauladas.
Então, por que havia tartarugas com carapaças em forma de sela no vulcão? E o que elas estavam fazendo ali? Gibbs estuda essas ilhas desde a década de 1980, passando seis meses como assistente de campo aos 18 anos, perseguindo os tentilhões de Darwin e “vendo a evolução em ação”.
“Barraca, lona, uma cadeira”, era tudo o que ele costumava ter. Na década de 1990, os postos ficaram tão remotos que o jantar significava caçar cabras com um velho rifle de ferrolho.
“Quando você olha para uma tartaruga, nos olhos dela, elas reconhecem você. Elas são inteligentes.”
As lendas por trás das tartarugas floreanas “aliens”
Agora com 63 anos, seus dias de Robinson Crusoé ficaram para trás — embora ele esteja planejando soltar ainda mais tartarugas de helicóptero em outra ilha e mencione casualmente um currículo agitado que inclui um interrogatório de três dias pela polícia após rastrear caçadores furtivos de leopardos-das-neves na fronteira entre a Rússia e a China — mas sem essa coragem, não estaríamos aqui.
“Ele é uma lenda”, diz Hugo Mogollón, presidente e CEO da Galápagos Conservancy, instituição na qual Gibbs atua como vice-presidente de ciência e conservação.
Depois de verem as tartarugas alienígenas com dorso em forma de sela, Gibbs organizou três expedições de retorno, coletando amostras de sangue que acabariam sendo sequenciadas, revelando que os alienígenas eram híbridos de Floreana.
Levou anos para que todas as peças se encaixassem, anos gastos capturando, realocando e criando os híbridos, mas esse trabalho convenceu Gibbs de que os homens responsáveis pela morte das tartarugas de Floreana também eram responsáveis por ajudar a dispersar sua genética.
O primeiro momento decisivo foi em 1813, com o primeiro de dois navios chamados Essex. De acordo com o diário de David Porter, capitão de uma fragata da Marinha dos Estados Unidos estacionada nas Galápagos para afundar baleeiros britânicos durante a guerra de 1812 (uma guerra que durou até 1815), houve uma batalha em Banks Bay, um ponto de parada de baleeiros na borda do vulcão Wolf.
“Havia dois navios baleeiros britânicos na baía”, descobriu Gibbs ao ler o diário, “e quando limparam os conveses para suas armas, jogaram suas tartarugas ao mar”.
As tartarugas são conhecidas por flutuarem; e Porter descreveu ter visto tartarugas flutuando 10 dias após a batalha. Gibbs acredita que algumas das tartarugas recolhidas em Floreana podem ter sido levadas pela correnteza até o vulcão, gerando “os alienígenas” que ele encontrou em 2000.
Gibbs também acredita que ainda mais tartarugas de Floreana podem ter acabado na ilha de Isabela apenas alguns anos depois.
Um baleeiro de Nantucket, também chamado de Essex, levou “nove meses para chegar às Galápagos”, diz Gibbs, e quando chegaram depois de contornar a ponta da América do Sul em 1820, “eles estavam famintos”.
Eles passaram três semanas coletando centenas de gigantes de Floreana. Em determinado momento, um membro da tripulação acendeu uma fogueira por brincadeira e logo a ilha ficou em chamas, um incêndio que durou meses. Naquela época, “os brincalhões” já haviam partido para caçar baleias, com centenas de tartarugas empilhadas no convés.
Em seguida, e a 160 km a oeste do arquipélago, não muito longe do vulcão Wolf, em Isabela, um cachalote colidiu com o navio. Em seguida, colidiu novamente. “Acho que foi um cachalote macho que finalmente reconheceu a ameaça dos baleeiros”, diz Gibbs, “não há outra razão para um cachalote atacar”.
Quando o navio afundou, a tripulação correu para os botes com suas tartarugas. Os botes acabaram se separando e apenas cinco homens sobreviveram.
Quando foram encontrados, diz Gibbs, “os restos mortais dos marinheiros e ossos de tartarugas” cobriam o fundo do barco, uma história que inspiraria Moby Dick e apoiaria uma teoria que se provou verdadeira quando sequências de DNA descobriram que as tartarugas exóticas eram náufragas que se cruzaram e sobreviveram.
Essas tartarugas nasceram em cativeiro e foram criadas em um centro de reprodução na ilha de Santa Cruz, em Galápagos. Se tudo correr conforme o planejado, elas se tornarão uma espécie autossustentável na ilha de Floreana, assim como seus ancestrais eram há 200 anos.

Para transportar essas tartarugas para seu novo habitat, os funcionários do parque colocam duas ou três tartarugas em gavetas que são carregadas em mochilas. Por quase um quilômetro e meio, eles carregam as tartarugas por terrenos rochosos e irregulares sob o sol tropical quente.
Foto de Lucas Bustamante
Os novos perigos que as tartarugas gigantes introduzidas em Galápagos enfrentam
As tartarugas de hoje enfrentam uma nova versão de uma velha ameaça: elas valem muito dinheiro em um país conhecido pela corrupção, e há uma longa e recente história de tráfico e caça ilegal desses gigantes.
“Já ocorreram até roubos em centros de reprodução”, afirma Karen Noboa, bióloga ambiental da TRAFFIC, que revela que tartarugas grandes podem custar até 60 mil dólares cada uma como animais de estimação.
Há também um mercado local para carne de tartaruga, com alguns acreditando que sua carne tem poder sexual.
“As pessoas que traficam tartarugas das Galápagos também estão envolvidas em muitos outros crimes”, diz Andrea Crosta, que lidera a Earth League International, uma organização sem fins lucrativos que investiga a conexão entre crimes ambientais e redes criminosas, um problema aqui e em todo o mundo.
Gibbs reconhece esses desafios. Quando as pessoas visitam as Galápagos, elas se maravilham com a vida selvagem que parece estar florescendo e com as proteções ecológicas, e em muitas ilhas isso é verdade, diz ele.
A ironia é que o que está em exibição é uma fração do que existia, ressaltando por que a restauração é fundamental.
“Estamos nisso para o longo prazo”, diz ele. Nos próximos 50 anos, com reprodução e mais solturas, “haverá milhares de tartarugas gigantes em Floreana novamente. É por isso que estamos lutando”.
