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Ciência brasileira no radar do planeta: Paulo Artaxo e Luisa Diele-Viegas recebem prêmio da Aliança Mundial de Cientistas

Ciência brasileira no radar do planeta: Paulo Artaxo e Luisa Diele-Viegas recebem prêmio da Aliança Mundial de Cientistas

Reconhecimento internacional expõe um novo protagonismo do Brasil na ciência do clima — e levanta uma pergunta incômoda: estamos ouvindo nossos próprios cientistas?

Os pesquisadores brasileiros Paulo Artaxo e Luisa Maria Diele-Viegas receberam o Planet Earth Award 2026, concedido pela Aliança Mundial de Cientistas (Alliance of World Scientists), uma das principais redes globais dedicadas ao estudo das emergências planetárias. O prêmio reconhece contribuições decisivas para a compreensão das crises ambientais — da mudança climática à perda de biodiversidade — e chega em um momento em que a ciência produzida no Brasil começa a ocupar um lugar mais central no debate global.

Paulo Artaxo, físico da Universidade de São Paulo (USP), dedicou décadas ao estudo de aerossóis atmosféricos, mudanças climáticas e ao papel da Amazônia no sistema climático global. Seu trabalho sobre a interação entre poluição e clima o tornou uma das referências científicas mais influentes do país quando o tema é o equilíbrio ambiental do planeta. Luisa Maria Diele-Viegas, bióloga com atuação em mudanças globais e divulgação científica, vem se destacando pela capacidade de articular biodiversidade, crise climática e engajamento público — uma combinação que o século XXI exige com urgência crescente.

A premiação tem um significado que vai além do reconhecimento individual. Durante décadas, o Norte Global concentrou a narrativa científica sobre o futuro do planeta. O que se observa agora, de forma ainda lenta mas consistente, é uma redistribuição desse protagonismo. Poucos países reúnem, ao mesmo tempo, a maior floresta tropical do mundo, uma das maiores reservas de biodiversidade, sistemas climáticos altamente sensíveis e uma comunidade científica com produção relevante. O Brasil é, nesse sentido, um laboratório vivo das crises do século XXI — e ignorar o conhecimento produzido aqui tem custos que extrapolam as fronteiras nacionais.

Há, porém, uma tensão difícil de ignorar. Enquanto nomes como Artaxo ganham reconhecimento internacional, a ciência brasileira segue lutando por estabilidade dentro de casa. O financiamento é irregular, a valorização pública da ciência permanece baixa e a distância entre o conhecimento produzido nas universidades e as decisões de política pública continua larga. O prêmio da Aliança Mundial de Cientistas ilumina exatamente esse contraste.

Na prática, reconhecimentos como este amplificam a voz científica brasileira nos fóruns globais, reforçam a centralidade dos biomas tropicais para o futuro climático e pressionam, ainda que indiretamente, por uma conexão mais efetiva entre ciência e poder público. Servem também de referência para jovens pesquisadores do Sul Global que buscam espaço em uma área historicamente dominada por instituições europeias e norte-americanas.

O mundo está ouvindo os cientistas brasileiros com mais atenção do que há alguns anos. A questão que persiste é quanto dessa atenção se traduz em políticas concretas — e se o Brasil será capaz de reconhecer, com a mesma velocidade, o valor do que produz.