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Núcleo do planeta guarda bilhões de toneladas de hidrogênio

Núcleo do planeta guarda bilhões de toneladas de hidrogênio

Estudo com simulações de altíssima pressão revela que interior profundo pode conter volume de água equivalente a até 45 oceanos

No centro da Terra, sob camadas de rocha e magma que somam mais de seis mil quilômetros de espessura, existe um reservatório de hidrogênio capaz de abrigar o equivalente a 45 oceanos. A conclusão é de um experimento conduzido por geofísicos que conseguiram, pela primeira vez, quantificar com precisão inédita a presença do elemento mais leve do universo no núcleo terrestre.

Pesquisadores submeteram amostras de ferro similares às do centro do planeta a condições extremas em laboratório. Utilizando bigornas de diamante aquecidas por laser, a equipe alcançou temperaturas superiores a cinco mil kelvin e pressões de 111 gigapascais — um ambiente que replica o inferno metálico do núcleo. Sobre essas amostras, depositaram silicatos hidratados que simulavam os antigos oceanos de magma da superfície primitiva. O objetivo era observar como o hidrogênio se comportava na fronteira entre os dois mundos.

A grande inovação veio da técnica de microscopia aplicada na sequência. Com a tomografia por sonda atômica, os cientistas mapearam em três dimensões, em escala nanométrica, a distribuição dos átomos. Descobriram nanoestruturas ricas em silício, oxigênio e hidrogênio cuja proporção entre silício e hidrogênio era praticamente de um para um. Conhecendo com razoável segurança a quantidade de silício no núcleo, os pesquisadores derivaram o volume de hidrogênio ali escondido: algo entre 0,07% e 0,36% da massa total da região. O número, em termos absolutos, equivale a nove a 45 vezes toda a água dos oceanos atuais.

O achado inverte a narrativa clássica sobre a origem da água na Terra. Durante décadas, a comunidade científica sustentou que cometas gelados entregaram o recurso ao planeta já formado, em uma espécie de bombardeio celeste tardio. As novas evidências apontam para outro cenário. O hidrogênio aprisionado no núcleo só poderia ter chegado ali antes que o centro da Terra se consolidasse, quando o planeta ainda era uma bola de material incandescente e derretido. A água, portanto, é tão antiga quanto a própria formação terrestre.

A hipótese ganha força com a dinâmica da acreção planetária. Corpos rochosos do Sistema Solar interior, os planetesimais, continham hidrogênio em sua composição e colidiram com a Terra embrionária. O elemento interagiu com o oxigênio dos oceanos de magma superficiais e parte afundou junto com o ferro para o núcleo. Esse modelo é compatível com aassinatura isotópica da água terrestre, muito parecida com a de meteoritos do tipo condrito enstatito, rochas primitivas sabidamente ricas em hidrogênio.

Os responsáveis pelo experimento reconhecem limitações. Há risco de contaminação por hidrogênio residual dentro da própria câmara de análise, o que pode ter inflado os números. Fraturas nas amostras também podem ter introduzido erros na coleta de dados. A própria concentração de silício no núcleo, usada como referência, ainda carrega incertezas.

Ainda assim, o trabalho representa um salto em relação às estimativas anteriores, que variavam em até dez mil ordens de grandeza. Pela primeira vez, foi possível enxergar, átomo por átomo, o que se esconde no coração metálico do planeta. E o que se viu foi um depósito de água primordial, silencioso, pressurizado e inacessível, mas decisivo para que os oceanos da superfície um dia existissem.