Você certamente separa estes 20 itens em casa — mas eles não são reciclados
Falta de tecnologia, baixo valor de mercado ou ausência de compradores fazem alguns itens aparentemente recicláveis irem parar no lixo comum
A separação de resíduos domésticos para reciclagem é uma tarefa que muitos brasileiros levam a sério. Ainda assim, mesmo quando feita com todo o cuidado em casa, boa parte desses materiais acaba em aterros sanitários.
“Muitos itens que separamos como ‘recicláveis’ não chegam a ser reciclados de fato porque a reciclagem não depende apenas do material, mas também de viabilidade técnica, logística, econômica e da existência de mercado comprador”, explica Caru Albuquerque, fundadora do Instituto Nossa Urbe para o desenvolvimento sustentável, e coordenadora do grupo de trabalho de resíduos da Subprefeitura da Sé, em São Paulo.
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“Mesmo quando um material ‘poderia’ ser reciclado em teoria, na prática ele acaba sendo rejeitado na triagem por falta de mercado ou tecnologia acessível. Esses materiais são chamados de materiais sem reciclabilidade”, fala Caru.
Os principais fatores que inviabilizam a reciclagem são a mistura de materiais inseparáveis, como embalagens multicamadas papel e plástico; a contaminação por gordura, resíduos orgânicos ou químicos; o tamanho pequeno, que pode levar à perda no processo de triagem; ou a leveza, por requerer um volume alto para viabilizar a venda — feita, em geral, por peso.
Além disso, o baixo valor econômico do material reciclado, a ausência de tecnologia viável em escala industrial e o custo da reciclagem maior do que o da matéria-prima virgem também impedem o reaproveitamento de alguns materiais. “A reciclagem é uma atividade industrial. Se ela não fecha economicamente, ela não acontece”, destaca Caru.
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“Até existem alguns mercados específicos para esses materiais, mas não são muito amplos. Isso tem um impacto para nós, pois eles acabam ficando encalhados nas cooperativas. Não é que eles não são recicláveis, mas eles têm baixa reciclabilidade, porque quase todo material seco de embalagem tem uma alguma tecnologia para ser reciclado hoje”, aponta Roberto.
Vale destacar que o símbolo de reciclagem não garante reciclagem real — ele indica apenas o tipo de material. Além disso, a reciclabilidade depende muito da localização.
“Há cidades em que as cooperativas não conseguem vender o material mesmo sendo reciclável, então ele acaba indo para aterros e lixões. Por outro lado, embora o isopor seja raramente reciclado, há cidades que possuem estrutura para isso, como Arujá, SP, e Florianópolis, SC”, conta Caru.
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A seguir, os especialistas citam 20 resíduos comumente separados em casa, mas que não são reciclados ou recicláveis, e que acabam indo para nos aterros sanitários como rejeitos:
Embora sejam tecnicamente recicláveis, a reciclagem desses materiais costuma ser muito cara, pois é necessário um grande volume para formar uma tonelada, o que encarece o transporte e o processamento. Por isso, existem poucas empresas que reciclam esses materiais, e o mercado comprador é bastante restrito.
2. Plástico filme
Mesmo caso do isopor, a reciclagem cara e a falta de mercado comprador tornam o produto de baixa reciclabilidade. Ou seja, é possível reciclar, mas não é reciclado na prática.
3. Plástico metalizado
Embalagens de biscoitos e salgadinhos não são recicláveis, pois são feitas de uma mistura de materiais inseparáveis, como plástico e metal, e, até o momento, não há uma tecnologia para separá-los e fazer a reciclagem.
4. Papéis plastificados
O papel vedado entre duas lâminas de plástico não é reciclável, pois, até o momento, não há uma tecnologia capaz de separar os dois materiais e fazer a reciclagem.
5. Cartelas de medicamentos
Blisters de medicamentos não são recicláveis, pois são feitos de uma mistura de materiais inseparáveis, como plástico e metal, e, até o momento, não há uma tecnologia para separá-los e reciclá-los.
6. Papel engordurado
Itens como caixas de pizza e embalagens de comida de delivery, além de guardanapos usados, não são recicláveis, pois a gordura impede a reciclagem das fibras.
7. Papel higiênico, papel toalha e lenços usados
Apesar de serem feitos de papel, estão contaminados com resíduos biológicos.
8. Talheres e pratinhos de plástico
Não têm reciclabilidade, ou seja, é possível reciclar, mas não são reciclados pelo baixo valor de mercado. Prefira, sempre que possível, pratinhos de papel e talheres de bambu.
9. Embalagem transparente de frutas
Não têm reciclabilidade, ou seja, é possível reciclar, mas não são recicladas pelo baixo valor de mercado.
10. Isqueiro
Não é reciclável e, provavelmente, vai parar em algum aterro sanitário.
11. Comprovantes de cartão
Não são recicláveis porque são de papel termossensível, feitos com uma cobertura que possui elementos químicos, o que impede a reciclagem.
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12. Papel com laminação
A fina camada plástica inserida sobre o papel de algumas embalagens de produtos e cartões de visita impossibilita a reciclagem destes materiais.
13. Tubo de pasta de dentes
A tampa de plástico é reciclável e tem alto valor de mercado, mas o corpo da embalagem não é reciclável.
14. Escova de dentes
É feita de uma mistura de materiais inseparáveis, o que não permite a reciclagem.
15. Canudos flexíveis
Além de serem muito pequenos, são contaminados biologicamente, impedindo a reciclagem.
16. Aparelhos de barbear descartáveis
Embora contenham partes de materiais recicláveis, elas são difíceis de separar e acabam sendo tratadas como rejeito. Neste caso, o melhor é optar por aparelhos reutilizáveis, que só trocam as lâminas e preservam o corpo, aumentando a durabilidade.
17. Materiais de escritório
Etiquetas, adesivos, fita adesiva transparente, rótulos colados, fios, clipes e grampos não são recicláveis e vão parar nos aterros sanitários.
18. Embalagem de ração
Não é reciclável, pois contém no rótulo o número 7 em um triângulo escrito “outros”, o que indica que não pode ser reaproveitada.
19. Vidros temperados e espelhos
Possuem composição diferente do vidro comum e, por isso, não são recicláveis.
20. Cotonetes
Não são recicláveis por fatores técnicos, operacionais e sanitários: material misto e difícil de separar (plástico e algodão); tamanho muito pequeno, que faz com que caiam das esteiras de triagem ou se percam no processo; e contaminação biológica, pois chegam sujos, o que os classifica como resíduo contaminado — as cooperativas não podem manusear esse material por segurança sanitária. Além disso, há a ausência de mercado comprador, mesmo que sejam tecnicamente desmontáveis. O ideal é evitar o uso ou optar por versões com hastes de madeira, que se decompõem no meio ambiente.
O impacto ambiental da não reciclagem de itens que poderiam ser reciclados em outras condições é significativo. “Esses resíduos acabam indo para aterros e lixões, aumentando o volume de rejeitos e os gastos públicos, já que os municípios continuam pagando pela manutenção dessas áreas, inclusive após seu encerramento”, comenta Caru.
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Eles também podem ser jogados em rios, córregos, no mar e na natureza em geral, causando poluição do solo e da água. “Ou seja, o descarte inadequado apenas muda de lugar e gera impactos muitas vezes invisíveis no dia a dia, mas profundos no longo prazo. Por isso, é essencial que todos passem a adotar os 5 Rs: repensar, recusar, reduzir, reutilizar e reciclar”, aponta Caru.
Quando não for possível evitar o consumo, Caru indica dar preferência a embalagens monomateriais (um único tipo de plástico, papel ou metal). Produtos e embalagens sem plástico, como os feitos de madeira ou papel, tendem a ser ambientalmente melhores do que os plásticos, especialmente os de uso único.
Por isso, o mais recomendado é evitar ao máximo esse tipo de material, priorizando embalagens recicláveis de fato ou alternativas biodegradáveis. Quando não for possível evitar, o descarte deve ser feito na coleta seletiva, pois as cooperativas fazem a triagem correta: se não houver mercado, tecnologia ou viabilidade econômica, esses materiais serão encaminhados como rejeitos.
O cenário é grave não apenas pela quantidade de lixo no ambiente, mas também pelo esgotamento dos recursos naturais e pela perda de biodiversidade.
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“Tudo o que é produzido consome energia, utiliza combustíveis fósseis e precisa de transporte — que emite gases de efeito estufa, intensificando o aquecimento global, os desastres climáticos e a elevação da temperatura dos oceanos, com impactos diretos sobre nossa vida no planeta”, declara Caru.
Os materiais com baixa reciclabilidade também causam impacto nos catadores. “Eles ficam encalhados na cooperativa e desestimulam a coleta pelos autônomos, que trabalham nas ruas. Quando veem um material com baixa reciclabilidade, não o coletam e, automaticamente, esse material vai para o meio ambiente, podendo entupir valas, esgotos e bueiros, agravando o problema das enchentes”, alerta Roberto.
Para o presidente da Ancat, é essencial aumentar o potencial de reciclabilidade das embalagens nacionais. “O Brasil precisa reduzir a produção de embalagens com contaminação e pigmentos difíceis de reciclar, e incentivar mais indústrias para desenvolver esse tipo de tecnologia de embalagem que tornem o material escalável”, afirma.
