Tesouro submerso do Atlântico Sul: por que a Cadeia Vitória-Trindade deveria se tornar uma das próximas áreas marinhas protegidas do Brasil
WWF-Brasil apoia a proteção da região que abriga ecossistemas únicos, alta biomassa de peixes e espécies ameaçadas
Pelo Oceano Atlântico, saindo de Vitória rumo à Cadeia Vitória-Trindade, mais uma expedição científica com pesquisadores e documentaristas zarpou da costa capixaba em de 16 de março a 6 de abril para coletar material qualificado e comparar resultados, além de trazer evidências de impactos nesses oásis recifais em alto-mar a serem urgentemente protegidos. Formados predominantemente por algas calcárias vermelhas, essas estruturas elevam-se da zona mesofótica em direção à superfície exibindo uma morfologia semelhante a uma colina. Batizadas “Colinas Coralinas” devido ao seu formato e composição, elas constituem um ambiente endêmico, único, que não pode ser encontrado em outra região do planeta.
Pouco conhecida do grande público, a Cadeia Vitória-Trindade (CVT) é considerada por cientistas uma das áreas mais estratégicas para a conservação da biodiversidade marinha no Atlântico Sul. Localizada no limite entre a plataforma continental brasileira e o oceano profundo, essa extensa cadeia de montanhas submarinas se projeta rumo ao leste por cerca de 1.200 quilômetros, conectando os recifes costeiros do Banco dos Abrolhos às ilhas oceânicas de Trindade e Martin Vaz.
Sob a superfície, o cenário é marcado por formações recifais raras e vastos bancos de rodolitos — estruturas calcárias produzidas por algas que funcionam como verdadeiros “engenheiros do ecossistema”. Em alguns montes submarinos, os topos rasos situados entre 17 e 80 metros de profundidade concentram habitats complexos, onde convivem grandes concentrações de vida no fundo do oceano, a exemplo de corais, esponjas, macroalgas e invertebrados bentônicos, como esponjas, corais, estrelas-do-mar, ouriços, anêmonas, polvos e alguns moluscos, além de pequenos crustáceos.
“Nessa segunda Expedição às Montanhas Submarinas Trindade–Martim Vaz, estamos com uma equipe mais diversa, o que ampliou bastante o nosso trabalho. Estamos estudando peixes, corais e toda a parte bentônica, coletando invertebrados, algas e corais. O foco principal é a descoberta de novas espécies e novas documentações. Já conseguimos vários registros inéditos e, possivelmente, encontramos espécies novas, que vamos analisar com calma quando retornarmos à terra”, disse Hudson Tercio Pinheiro, professor no Centro de Biologia Marinha da Universidade de São Paulo (CEBIMar-USP) e chefe científico da segunda expedição Montanhas Submarinas Vitória-Trindade – 2026, uma realização do ICMBio, CEBIMar-USP, UFES, FEST e Voz da Natureza, com patrocínio do CNPq e Fapesp. A iniciativa também contou com a parceria da UFSCAR, Universidade de Newcastle, Revimar/MMA, e apoio do WWF-Brasil.
Hudson contou que também está realizando atividades diferentes nesta expedição, como mergulhos mais profundos, para levantar informações ecológicas das comunidades e avaliar o estado de saúde dos ecossistemas. “Tem sido uma experiência incrível. Encontramos muitos tubarões — hoje mesmo ficamos cercados por um cardume com mais de 12 indivíduos. A expedição está sendo extremamente produtiva e muito especial.”
Um corredor de biodiversidade no Atlântico
A importância da região vai além de sua singularidade geológica. A Cadeia Vitória-Trindade atua como um corredor ecológico que conecta diferentes ecossistemas marinhos e favorece a dispersão de espécies ao longo da costa brasileira. Essa conectividade sustenta ciclos de vida fundamentais para a biodiversidade e para atividades econômicas tradicionais, como a pesca artesanal.
Estudos indicam que toda a área entre Abrolhos e Trindade reúne centenas de espécies de peixes recifais — cerca de 240 espécies nos recifes de Abrolhos, mais de 300 nas ilhas costeiras do Espírito Santo e aproximadamente 273 na própria cadeia submarina. Ao menos 50 espécies de peixes recifais são consideradas endêmicas da província brasileira, com destaque para o elevado número de endemismos locais na cadeia oceânica.
A região também abriga mais de 90 espécies de tubarões e raias, além de desempenhar papel essencial para espécies ameaçadas, como o tubarão-baleia. Em terra firme, as pequenas praias da Ilha da Trindade concentram o maior sítio reprodutivo de tartarugas verdes do Brasil, com até 6 mil ninhos por ano, configurando a sétima maior colônia do Atlântico.
Serviços ambientais que sustentam economias locais
Os ecossistemas recifais e os bancos de rodolitos da região garantem estoques pesqueiros essenciais para milhares de pescadores, fornecendo espécies comerciais como garoupas, pargos, lagostas e atuns. Além disso, pesquisas recentes apontam potencial para bioprospecção farmacêutica, já que organismos marinhos locais produzem substâncias com propriedades antioxidantes, antivirais e anticancerígenas.
Em escala global, a conservação dessas áreas também se relaciona ao clima. Os oceanos são responsáveis por absorver cerca de um terço do dióxido de carbono emitido pelas atividades humanas, desempenhando papel crucial na mitigação das mudanças e extremos climáticos. Ecossistemas marinhos saudáveis ampliam essa capacidade de regulação ambiental.
Pressões crescentes sobre um ambiente ainda pouco conhecido
Apesar da riqueza biológica, a Cadeia Vitória-Trindade enfrenta ameaças crescentes. A expansão da exploração de petróleo e gás, a intensificação do tráfego naval e projetos de mineração submarina voltados à extração de carbonato de cálcio e minerais metálicos figuram entre os principais riscos apontados por pesquisadores.
O Banco dos Abrolhos – um dos principais hotspots marinhos do Brasil e cujo parque homônimo é candidato ao título de patrimônio mundial natural da Unesco -, por exemplo, concentra o maior banco contínuo de rodolitos já mapeado no mundo, com cerca de 20.900 km², o que o torna alvo de interesses econômicos e potencialmente vulnerável a atividades de dragagem e extração mineral.
Especialistas alertam que a perda desses habitats pode comprometer funções ecológicas essenciais, como áreas de reprodução e berçários de espécies comerciais, além de afetar a conectividade entre ambientes marinhos tropicais e subtropicais.
Uma decisão sobre o futuro do oceano brasileiro
Diante desse cenário, ganha força a proposta de criação de uma área marinha protegida de proteção integral na Cadeia Vitória-Trindade. A iniciativa prevê diagnósticos científicos detalhados, avaliação socioeconômica e, se possível, processos participativos de consulta pública e diálogos setoriais, com o objetivo de alinhar conservação ambiental e desenvolvimento sustentável.
Para pesquisadores e organizações socioambientais, proteger esse sistema de montanhas submarinas significa antecipar impactos antes que sejam irreversíveis — garantindo a resiliência dos ecossistemas marinhos e a segurança alimentar de populações costeiras.
No fundo do mar, longe do olhar cotidiano, a Cadeia Vitória-Trindade revela um Brasil ainda pouco conhecido. Um território azul onde biodiversidade, clima e economia se entrelaçam — e cuja preservação pode definir os rumos da conservação marinha no país nas próximas décadas.
Perspectivas futuras
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, anunciou oficialmente durante sessão de Alto Nível em Campo Grande (MS), no domingo (22/03), na abertura oficial da 15ª Conferência das Partes da Convenção sobre a Conservação das Espécies Migratórias de Animais Silvestres (COP15 da CMS), a assinatura de três decretos voltados à criação e à ampliação de Unidades de Conservação (UCs) no Cerrado e no Pantanal.
Nessa ocasião, o presidente também reforçou o compromisso do Brasil com a meta global de proteger ao menos 30% de suas áreas marinhas até 2030 (30×30), destacando a importância de avançar na conservação de ecossistemas estratégicos como a região de Abrolhos e os Montes Submarinos da Cadeia de Fernando de Noronha e Atol das Rocas, fundamentais para a biodiversidade e a conectividade ecológica no Atlântico Sul.
Vale lembrar ainda que no ano passado no Dia Mundial do Meio Ambiente (05/06) o governo brasileiro apresentou oficialmente a candidatura da Reserva da Biosfera Marinha Vitória-Trindade ao programa “O Homem e a Biosfera” (MAB), da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO).
Com sinalizações, compromissos e ações como essas do governo brasileiro, conseguimos avançar em direção à criação e ampliação de áreas marinhas protegidas no país.
