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Reaquecer comida “reinicia” o prazo de validade? Entenda quantas vezes é seguro esquentar alimentos

Reaquecer comida “reinicia” o prazo de validade? Entenda quantas vezes é seguro esquentar alimentos

Especialistas explicam por que o micro-ondas não é um botão mágico contra intoxicação alimentar e como evitar riscos ao consumir restos de comida

Ter sobras na geladeira pode ser reconfortante… e, para os mais ansiosos, uma fonte de estresse. Por um lado, é ótimo saber que há uma refeição pronta quando a fome bate. Por outro, consumir tudo antes que estrague pode parecer uma corrida contra o tempo.

Intoxicação alimentar não é brincadeira, então não é estranho que uma comida de alguns dias atrás pareça mais suspeita do que apetitoso. Ainda assim, quanto maior a fome, maior a tentação de acreditar que existe uma forma de “resetar” esse prazo, especialmente quando circula a ideia de que basta aquecer no micro-ondas para ganhar mais três ou quatro dias de vida útil.

Veja por que não dá para dar um “recomeço” à comida já preparada, como lidar com aquele macarrão esquecido na geladeira e o que fazer para aproveitar melhor suas sobras com segurança.

Primeiro: o que torna as sobras perigosas?

A intoxicação alimentar acontece quando ingerimos alimentos contaminados por patógenos, como bactérias, vírus e parasitas. O que muita gente não sabe é quando e como esses microrganismos aparecem.

Eles podem chegar à comida de várias formas: contaminação cruzada durante o preparo, higienização inadequada dos ingredientes ou até pelo simples contato com superfícies ou mãos contaminadas, como ao tocar uma torneira ou interruptor sujo, explica Bill Sullivan, professor de microbiologia da Universidade de Indiana.

Cozinhar em um ambiente limpo, lavar as mãos com frequência, evitar alimentos contaminados e ter cuidado com utensílios — como não usar a mesma pinça para frango cru e alimentos prontos — ajuda a reduzir o risco. Se os patógenos não entram em contato com a comida, é menos provável que apareçam. (A comida ainda vai estragar com o tempo, mas não necessariamente causará doença.)

O maior risco surge no intervalo entre o preparo e o resfriamento, quando o alimento entra na chamada “zona de perigo”, entre 4 °C e 60 °C. “Enquanto a comida esfria, as bactérias podem se multiplicar rapidamente — algumas se reproduzem em apenas 20 minutos“, explica Sullivan. Quanto mais tempo o alimento permanece nessa faixa de temperatura, maior o risco de contaminação.

O que o reaquecimento faz (e o que não faz)

Reaquecer sobras elimina alguns tipos de bactérias e melhora o sabor, mas não é um botão mágico de reinício, explica Darin Detwiler, especialista em segurança alimentar. “Aquecimento ajuda, mas não oferece proteção absoluta”, afirma. Isso é ainda mais importante quando se trata de alimentos guardados por mais de três ou quatro dias — o limite recomendado para consumo seguro, segundo o FDA.

Ao atingir 74 °C, a maioria das bactérias ativas é eliminada. Mas algumas toxinas e esporos resistem ao calor — como os da bactéria Bacillus cereus, comum em arroz, e Clostridium perfringens, presente em pratos com carne. “Reaquecer reduz o risco, mas não o elimina.”

Outro problema é que cada novo reaquecimento faz o alimento voltar à zona de perigo ao esfriar. “Repetir esse ciclo aumenta o risco acumulado”, explica Detwiler. Por isso, o ideal é aquecer apenas a porção que será consumida e guardar o restante rapidamente na geladeira. (E sim, colocar comida quente na geladeira não estraga os outros alimentos.)

Reaquecer comida "reinicia" o prazo de validade? Entenda quantas vezes é seguro esquentar alimentos — Foto: Getty Images
Reaquecer comida “reinicia” o prazo de validade? Entenda quantas vezes é seguro esquentar alimentos — Foto: Getty Images

Dá para prolongar a vida das sobras?

Não exatamente. Segundo Sullivan, é possível ganhar um ou dois dias extras se você seguir boas práticas desde o preparo até o armazenamento e resfriar a comida rapidamente. Mas isso não significa um “reset” completo.

Mesmo colocar o alimento direto na geladeira apenas reduz o tempo na zona de perigo — não elimina totalmente o risco. E como os microrganismos não são visíveis a olho nu, não há garantia absoluta de segurança.

Então, o que fazer? Comece descartando qualquer alimento que gere dúvida — especialmente se estiver com cheiro estranho, textura viscosa ou cor alterada. Depois, siga boas práticas: cozinhe com higiene, reaqueça corretamente até atingir a temperatura adequada e verifique se o calor está uniforme antes de consumir. Por fim, uma alternativa segura é congelar. Isso sim prolonga a vida útil dos alimentos — sem o risco de intoxicação.