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Quando fazer a coisa certa não resolve o problema

Quando fazer a coisa certa não resolve o problema

Destinar corretamente os resíduos é necessário. O desafio começa quando confundimos conformidade com transformação.

Imagine uma embalagem comum. Ela começa sua história muito antes de chegar às nossas mãos. Houve extração de recursos naturais, transformação industrial, consumo de água e energia, transporte e toda uma cadeia  econômica necessária para que cumprisse uma função que, muitas vezes, dura poucos minutos. Depois do consumo, torna-se resíduo.

Vamos assumir o melhor cenário dentro da lógica linear que ainda predomina: essa embalagem foi descartada corretamente, coletada e destinada a um aterro sanitário devidamente licenciado e controlado. Nenhum lixão, nenhum descarte clandestino, nenhuma imagem de resíduos boiando em rios. Tudo conforme o figurino e a responsabilidade sanitária atribuída aos municípios.

Gestão de resíduos

Há, porém, um detalhe que costuma desaparecer junto com o caminhão de coleta: essa conta também é nossa. Somos nós, cidadãos e consumidores, que financiamos direta ou indiretamente boa parte da estrutura pública necessária para coletar e destinar aquilo que, poucos minutos antes, fazia parte de um produto colocado no mercado e gerava valor  econômico privado.

Bom, e diante de tudo isso, o problema está resolvido?

aterro sanitário
Aterro sanitário. Foto: Miroslav Gecovic por Pixabay

Depende de qual problema estamos falando. Do ponto de vista da destinação inadequada, certamente avançamos. Os aterros sanitários são infraestruturas necessárias e muito superiores aos lixões que o Brasil ainda luta para eliminar. Mas há uma diferença importante entre controlar as consequências de um resíduo e resolver o problema que o produziu.

A embalagem aterrada não desapareceu. Com ela enterramos matéria-prima, energia e parte do valor econômico mobilizado para produzi-la. Para colocar a próxima embalagem no mercado, precisaremos novamente de recursos, energia e capacidade produtiva. O caminhão foi embora, o resíduo saiu da nossa frente, a planilha registrou a destinação adequada, o agente público cumpriu seu papel e provavelmente ainda terá dividendos políticos sobre isso. A dinâmica da geração e destinação dos resíduos, entretanto, continua no mesmo lugar.

É justamente nesse contexto que algumas palavras que usamos quase como sinônimos começam a contar histórias diferentes.

descarte correto
Foto: pxhere

As ciências ambientais nos ajudam a reconhecer os impactos desse percurso. A  economia chama nossa atenção para as externalidades, quando parte dos custos ambientais, sociais ou econômicos de uma atividade acaba suportada por outros agentes ou pela sociedade. E o Direito acrescenta a dimensão da responsabilidade, estabelecendo deveres de prevenção, gerenciamento e reparação e reconhecendo que os custos ambientais não deveriam simplesmente ser empurrados para a coletividade.

Essa discussão está longe de ser abstrata. O Global Waste Management Outlook 2024, publicado pelo PNUMA e pela International Solid Waste Association, estimou em US$ 252 bilhões o custo direto global da gestão dos resíduos sólidos urbanos em 2020. Incorporados os custos ocultos associados à poluição, saúde e mudanças climáticas decorrentes de práticas inadequadas, a conta chega a US$ 361 bilhões.

Economia

São lentes diferentes sobre um mesmo fenômeno. E talvez seja justamente por olharmos cada uma separadamente que algumas contradições tenham se tornado tão naturais.

Uma embalagem pode cumprir todas as exigências aplicáveis à sua destinação e, ainda assim, levar consigo recursos que poderiam permanecer circulando na economia. Pode haver conformidade sem circularidade, assim como eficiência em uma etapa e desperdício quando observamos o sistema inteiro.

recicláveis lixo
Foto: Jas Min | Unsplash

A própria Política Nacional de Resíduos Sólidos oferece uma direção clara. Sua hierarquia começa pela não geração, passa pela redução, reutilização, reciclagem e tratamento e deixa para o final a disposição ambientalmente adequada dos rejeitos.

Apesar disso, grande parte do debate público brasileiro permanece concentrada em duas agendas: acabar com os lixões e incluir os catadores na cadeia da reciclagem. Ambas são necessárias. O problema surge quando passam a representar quase toda a discussão sobre resíduos, ofuscando mudanças estruturais que poderiam, inclusive, acelerar a evolução dessas próprias agendas.

A ordem estabelecida pela PNRS não parece acidental.

O aterro é necessário para aquilo que efetivamente se tornou rejeito. O problema começa quando tratamos como rejeito aquilo que ainda poderia ser recurso e transformamos a última alternativa da hierarquia em destino habitual de materiais que tiveram valor econômico até poucos minutos antes.

É uma curiosa alquimia  econômica: extraímos recursos da natureza, empregamos tecnologia, capital e conhecimento para transformá-los em materiais, agregamos valor para colocá-los no mercado e, depois do consumo, gastamos novamente para coletá-los, transportá-los e enterrá-los. Fazemos isso buscando eficiência na destinação, mas ainda com pouca capacidade de capturar o valor econômico que permanece nesses materiais e reinseri-los nos fluxos produtivos. Depois, voltamos à natureza para buscar novos recursos e reiniciar o processo.

Chamamos isso de gestão de resíduos. Mas, diante dessa dinâmica, muitas vezes estamos apenas administrando melhor suas externalidades. Uma espécie de varrição para debaixo do tapete: o problema deixa de estar diante dos nossos olhos sem necessariamente deixar de existir no sistema.

Tratado de plásticos

A poluição plástica representa um risco para toda a vida no nosso planeta e requer uma solução global. Foto: Muhammad Numan | Unsplash

Couro Biológico

Quando observamos apenas o final da cadeia, ficamos presos à pergunta sobre onde colocar o resíduo. Quando ampliamos a lente, surge outra perspectiva: como manter esses recursos circulando e retroalimentando os fluxos  econômicos, reduzindo seus impactos ambientais e sociais?

Essa mudança aparentemente retórica desloca toda a discussão.

O aterro deixa de ser herói ou vilão. Tem uma função importante, mas bem determinada: receber aquilo que, esgotadas as possibilidades técnica e economicamente viáveis de recuperação, efetivamente precisa ser disposto com os devidos controles ambientais e sanitários.

Parte importante desse desafio está, portanto, antes da destinação final. Está no desenho dos produtos, nas embalagens que escolhemos, nos modelos de produção e consumo, na infraestrutura para recuperação dos materiais, nos incentivos econômicos e nas responsabilidades distribuídas pela cadeia. E começa também por quem coloca produtos e embalagens no mercado, captura o valor econômico dessa dinâmica e não pode permanecer apartado das consequências produzidas depois que o consumo termina, deixando para outros agentes e para a sociedade parte das externalidades do pós-consumo.

Gestão de resíduos

Há uma diferença entre mitigar uma consequência e transformar a dinâmica que continuamente a produz.

economia circular
Economia Circular. Fonte: Fundação Ellen MacArthur

Possivelmente, este seja um dos aspectos menos explorados da nossa transição para uma  economia circular. Ficamos melhores em controlar e destinar impactos, mas ainda preservamos muitas das estruturas que os reproduzem.

Isso não diminui a importância da conformidade ambiental. Ela é o piso sobre o qual qualquer sistema responsável precisa operar. O equívoco está em transformá-la em teto.

Conservação Ambiental

Se uma embalagem cumpre sua função por alguns minutos, mas o recurso utilizado para produzi-la deixa definitivamente o sistema econômico logo depois do consumo, sua destinação ambientalmente adequada resolve uma parte importante do problema, mas não o problema por inteiro.

É essa diferença que precisamos compreender para avançar: destinar melhor é necessário. Desperdiçar menos é outra conversa.

Colunista Fabiano Rangel
Colunistas CicloVivo: Neste espaço, especialistas de diversas áreas compartilham opiniões e pontos de vista, que não necessariamente refletem o posicionamento do CicloVivo.