Quando a destruição vira riqueza
O alerta da IPBES que expõe o PIB como um termômetro quebrado da economia global
Há algo profundamente errado quando derrubar uma floresta aumenta a “riqueza” de um país, enquanto preservá-la parece não valer nada. Essa contradição — antiga, normalizada e perigosamente conveniente — acaba de receber a crítica mais dura já feita pela principal autoridade científica do mundo em biodiversidade: a Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos, a IPBES, frequentemente chamada de “IPCC da natureza”.
No novo relatório aprovado por mais de 150 governos, a mensagem não vem embrulhada em diplomacia: o modelo econômico baseado no PIB transforma destruição ambiental em crescimento e está criando um risco sistêmico real para empresas, governos e sociedades. Não é uma metáfora. É um diagnóstico técnico, político e econômico — e talvez o mais incômodo já feito ao coração do capitalismo contemporâneo.
O PIB como espelho distorcido
O PIB mede fluxo de dinheiro, não saúde econômica no sentido amplo. Ele cresce com mineração predatória, com desmatamento, com poluição, com desastres naturais seguidos de reconstrução. A natureza entra na conta apenas quando é extraída, convertida, explorada. Quando é preservada, simplesmente desaparece da equação.
O relatório da IPBES escancara esse paradoxo: a economia global depende totalmente da natureza, mas o sistema financeiro segue premiando sua destruição. Todos os anos, cerca de US$ 2,4 trilhões em subsídios públicos alimentam atividades que degradam ecossistemas. Em 2023, fluxos públicos e privados com impacto negativo direto sobre a natureza chegaram a US$ 7,3 trilhões — sendo US$ 4,9 trilhões de origem privada.
Em outras palavras: estamos financiando, com eficiência impressionante, a erosão dos próprios fundamentos da economia.
“Se isso fosse uma empresa, seria má gestão”
O investidor e líder empresarial Paul Polman sintetiza o absurdo com uma frase que deveria estar pregada nas paredes de ministérios da Fazenda e conselhos de administração:
“Se uma empresa destruísse seus próprios ativos produtivos e chamasse isso de crescimento, seria considerada má prática. Mas é exatamente isso que fazemos quando destruímos florestas, solos e água e chamamos isso de PIB.”
A IPBES vai além: tratar a natureza como um recurso descartável não é apenas ambientalmente irresponsável — é economicamente irracional. Cadeias produtivas inteiras dependem de estabilidade climática, água, solos férteis, polinizadores e serviços ecossistêmicos invisíveis nos balanços contábeis, mas essenciais no mundo real.
O risco sistêmico que ninguém quer precificar
O relatório classifica a perda de biodiversidade como um “risco sistêmico crítico e generalizado”. Não é mais um problema reputacional ou um tema “ESG-friendly” para relatórios coloridos. É risco financeiro duro.
Menos de 1% das empresas no mundo reportam hoje seus impactos sobre a biodiversidade. Muitas, segundo os próprios autores do estudo, gastam mais tempo tentando decifrar frameworks concorrentes de compliance do que mudando práticas concretas. É o greenwashing burocratizado — sofisticado, caro e, no fim, ineficaz.
O estudo cita setores especialmente vulneráveis. No Brasil, por exemplo, a pesquisa da Zero Carbon Analytics menciona a Cyrela, lembrando que a construção civil depende diretamente de água, solo, estabilidade ambiental e proteção contra eventos extremos. Não é militância: é matemática de risco.
O recado ao mercado: já sabemos o suficiente
As reações de líderes empresariais e financeiros deixam claro que o tempo da desculpa e da destruição acabou.
Para Eva Zabey, CEO da Business for Nature, o relatório é um choque de realidade:
“Já temos os marcos regulatórios. Temos as soluções. Não há desculpa para a inação. Agora é preciso transformar intenção em impacto.”
Thomas Viegas, da Aviva, reforça que a biodiversidade não é um tema periférico, mas central para a prosperidade de clientes, comunidades e negócios — e peça-chave para implementar o Marco Global da Biodiversidade de Kunming-Montreal.
Já Norah Berk, do IIGCC, aponta o óbvio que o mercado insiste em ignorar: sem entender dependências e impactos sobre a natureza, investidores simplesmente não conseguem gerir riscos nem identificar oportunidades reais.
Povos indígenas: a inteligência econômica ignorada
Um dos pontos mais potentes — e menos tratados pelo debate econômico tradicional — é o papel dos povos indígenas. Cerca de 60% de seus territórios estão hoje ameaçados por empreendimentos industriais, apesar de concentrarem alguns dos sistemas mais eficazes de uso sustentável da natureza no planeta.
A IPBES defende mecanismos formais de participação indígena e comunitária nas decisões econômicas. Não como gesto simbólico, mas como estratégia econômica baseada em evidência. Ignorar esse conhecimento não é apenas injusto — é ineficiente.

Um novo tipo de crescimento (ou nenhum)
A avaliação apresenta mais de 100 ações concretas, distribuídas em cinco frentes: políticas públicas, economia e finanças, valores sociais, tecnologia e dados, e capacitação. Fala em reforma de subsídios, novos instrumentos financeiros, combate ao greenwashing e, sobretudo, em mudar a lógica do que chamamos de valor.
O ângulo mais desconfortável talvez seja este: o problema não é a falta de dados, nem de ciência, nem de soluções. É de vontade política e coragem econômica. Continuar usando o PIB como bússola única é como insistir em navegar com um mapa que ignora os recifes — até o dia em que o casco rasga.
No fundo, o relatório da IPBES não fala só de biodiversidade. Ele fala de maturidade. De reconhecer que uma economia que cresce destruindo seus próprios sistemas de suporte não é moderna, nem eficiente. É frágil. E está brincando perigosamente com o futuro.
A pergunta que fica não é mais “quanto custa mudar”.
É quanto custa continuar fingindo que destruir é crescer.
Acesse o relatório completo aqui.
*Este texto incorpora informações da ClimaInfo.
