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Primeiro encontro da Coalizão Corais do Brasil é realizado em Brasília

Primeiro encontro da Coalizão Corais do Brasil é realizado em Brasília

Durante três dias, especialistas, organizações e comunidades construíram de forma colaborativa as prioridades da Coalizão para conservar os recifes de coral

Quando a temperatura do mar sobe, os corais são diretamente afetados e sua fauna tende a desaparecer. Sem coral não há peixe. E, sem peixe, não há pescador. “Com as mudanças climáticas, a gente viu espécie, como a mariquita, morrer. E, também, espécies invasoras aparecerem na nossa praia, como o peixe-leão”, conta Isabel Cristina, da Rede de Mulheres Pescadoras no litoral norte de Alagoas. Segundo a pescadora, o desequilíbrio gerado pelo vazamento de petróleo em 2019, a pandemia e os episódios de aquecimento mais recentes afastaram muitas mulheres da profissão. “Recife de coral é como se fosse uma Mata Atlântica que a gente precisa preservar pelas espécies da fauna, mas ali é uma fauna dentro d’água”, diz.

Isabel é membro do Comitê Deliberativo da Coalizão Corais do Brasil, grupo formado durante a COP30, em Belém, por iniciativa do WWF-Brasil e da Fundação Grupo Boticário, e que realizou seu primeiro encontro nos dias 10, 11 e 12 de junho, em Brasília.

O encontro   teve como objetivo a apresentação da política de governança, definição das ações estratégicas, o fortalecimento do senso de coletivo e a definição participativa dos membros por meio dos planos de ação dos Grupos de Trabalho: Mitigação de Ameaças, Expansão da Proteção, Aceleração da Restauração, Mobilização de Investimentos e Monitoramento.

“A expectativa é que a Coalizão, uma rede bastante diversa, sirva de possibilidade de conexões e sinergias entre várias iniciativas de conservação, manejo, pesquisa e conhecimento sobre recifes de corais no Brasil, que vêm sofrendo muito com o aumento de temperatura, um grande desafio, além das pressões na zona costeira”, explica Beatrice Padovani, especialista em conservação marinha e professora do departamento de Oceanografia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). “É um fórum para pensar em soluções, comunicar com a sociedade e integrar experiências em busca de um futuro melhor para os corais e para as comunidades que dependem deles para sobreviver.”

Cristoph Milewski, diretor do Instituto de Ciência e Tecnologia em Biomodelos da Fundação Fiocruz, dividiu durante o encontro projetos que estão sendo feitos na instituição sobre os efeitos da ação antrópica nas mudanças no meio ambiente – e do conceito de “saúde única”, que é a saúde humana junto com o equilíbrio ambiental e a saúde dos animais que habitam um mesmo ecossistema. “A gente entende que isso, na verdade, é uma via de mão dupla: quanto mais o homem degrada o meio ambiente, mais ele agride o coral, que fica doente e morre, e o bioma desequilibra: aí não tem pescado, o que impacta na indústria do turismo. E até o grande empresário, que pode ser que não entenda a importância do equilíbrio ambiental, acaba sendo prejudicado por conta do impacto no turismo”, explica Cristoph.

Cristoph lembra que os corais estão no ponto de não retorno e que, agora, é preciso haver um alto investimento de recurso público, e um grande engajamento do setor público, para a preservação desse ambiente, que tem se mostrado frágil. “Precisamos identificar mecanismos de recuperação do ecossistema”, reforça Christoph.

Os recifes de coral ocupam menos de 0,1% do fundo do oceano, mas têm relevância ecológica essencial, oferecendo abrigo e alimento para cerca de 25% das espécies marinhas. Além disso, o aumento da temperatura do oceano e a degradação desses ecossistemas também ampliam a vulnerabilidade da costa à incidência de ressacas e erosões, principalmente em contextos de eventos climáticos extremos, causando grandes danos e perdas materiais e imateriais.

Janaína Bumbeer, gerente de projetos da Fundação Grupo Boticário, uma das idealizadoras da Coalizão, lembra que a criação do grupo era um sonho antigo que já vinha sendo preparado e estruturado há muitos anos para ter uma base forte assim que fosse lançado. “Agora estamos nesse momento em que a base foi criada, temos um comitê deliberativo definido, uma secretaria executiva, que é quem vai fazer a roda girar, e uma rede acionada, organizada em grupos de trabalho, entendendo melhor como atuar”, conta.

Os cinco Grupos de Trabalho são de: produção, restauração, mitigação, captação de recursos e monitoramento. “Em breve, a gente vai poder compartilhar mais informações sobre quais são as principais metas e como a gente vai contribuir, não só nacionalmente, mas para as metas globais e das principais agendas, como do clima e da biodiversidade. Mas, lembrando que a transformação é local, nos territórios.”

Para Ana Lídia Gaspar, analista de conservação do WWF-Brasil, o primeiro encontro marcou a transição da Coalizão Corais do Brasil da fase de criação para a de implementação. “Ao longo desses três dias, vimos um grupo muito engajado, maduro e disposto a construir junto. Diante de desafios tão grandes, ninguém consegue avançar sozinho. A Coalizão nasce para fortalecer uma agenda que, além de reconhecer os desafios enfrentados pelos recifes, busca construir soluções de forma colaborativa”, afirma.

Segundo ela, a expectativa é que a articulação entre organizações, pesquisadores, comunidades tradicionais, setor privado e governos amplie o alcance das iniciativas de conservação. “Juntos, podemos ampliar o impacto das ações de conservação de um dos ecossistemas mais importantes para a biodiversidade e para milhares de pessoas que dependem dos seus serviços ecossistêmicos”, completa.

Com a estrutura de governança definida e os grupos de trabalho em funcionamento, a Coalizão inicia agora uma nova etapa voltada à implementação de ações concretas para a proteção e a restauração dos recifes de coral no Brasil, contribuindo também para as metas nacionais e globais de clima e biodiversidade.