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Por que alguns animais se camuflam e outros são tóxicos e têm cores berrantes?

Por que alguns animais se camuflam e outros são tóxicos e têm cores berrantes?

Experimento em seis continentes avalia estratégias e mostra como camuflagem e coloração de advertência são afetadas pela relação entre predadores e presas, latitude e pelo ambiente visual

Na natureza, é comum que animais sujeitos à predação recorram a estratégias para sobreviver. Enquanto alguns se misturam com o ambiente através da camuflagem, outros usam cores vivas e chamativas para avisar predadores de sua toxicidade, o que é conhecido como aposematismo. No entanto, a ciência ainda entende pouco sobre como o contexto ecológico – e a ação humana sobre ele – influencia a eficácia dessas estratégias.

Um estudo recente com a participação da USP oferece a resposta mais abrangente já produzida sobre o tema, além de trazer insights sobre a evolução da coloração protetora. Pesquisadores recorreram a presas artificiais de papel, em formato de mariposa, para simular as dinâmicas predatórias da natureza. Ao longo de oito dias, eles analisaram a relação entre predadores, presas, ambiente visual e latitude.

Mais de 15 mil “mariposas” foram distribuídas na natureza e expostas a aves que se alimentam de insetos. Nas árvores, eram fixados alvos camuflados (cor neutra semelhante ao tronco), aposemáticos (listrados com cores de advertência) e de com cores atípicas (para controle) junto a larvas-da-farinha como iscas para os predadores. Os pesquisadores monitoraram quais iscas foram consumidas e usaram os resultados como métrica para determinar a intensidade da predação local.

A conclusão do artigo foi de que não existe uma estratégia anti-predatória melhor — sua eficácia depende do contexto ecológico. Os resultados mostram que a coloração de advertência tem desempenho melhor em ambientes com baixos índices de predação, já a camuflagem é mais eficaz quando o animal é um dos poucos camuflados e está em ambientes com pouca luz. Foram registrados 3.247 ataques de aves, o equivalente a 21,6% das presas.

O experimento, publicado na revista Science, foi replicado em 21 locais entre seis continentes e ajuda a explicar a distribuição e a evolução da coloração antipredatória. A Serra do Japi, localizada no interior do estado de São Paulo, a Reserva Ecológica do IBGE, em Brasília, e o Vale Encantado, em Uberaba (MG), foram os lugares escolhidos para representar o Brasil na pesquisa.

As estratégias e o ambiente

A camuflagem e a coloração de advertência são estratégias anti-predatórias opostas. “Elas funcionam porque os animais têm uma capacidade cognitiva que os possibilita aprender a associar uma cor a uma experiência ruim, por exemplo, e evitar uma experiência subsequente, como uma forma de se proteger”, diz Vinicius Marques Lopez, um dos autores da pesquisa, ao Jornal da USP.

Ele, que é doutor em Entomologia pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP e professor na Universidade Federal do Pampa (Unipampa), explica que, na camuflagem, indivíduos de uma espécie podem apresentar coloração, formato ou textura semelhante ao do ambiente e, assim, passarem despercebidos por seu predador. Na coloração de advertência ou aposematismo, as presas usam cores chamativas como sinal de sua toxicidade para os predadores.

Vinicius Marques Lopez - Foto: Arquivo Pessoal

Vinicius Marques Lopez – Foto: Arquivo Pessoal

Os padrões de camuflagem, aposematismo e controle dos alvos permitiram que os pesquisadores verificassem a eficácia de cada estratégia anti-predatória. Em ambientes de alta competição entre predadores, por exemplo, a camuflagem beneficia as presas. No entanto, essa vantagem diminui ao longo do tempo, uma vez que predadores desenvolvem a habilidade de identificar as presas no ambiente.

Já os alvos com cores de advertência tiveram o efeito oposto. No início do experimento, o risco de predação para estes alvos foi 50% maior, mas diminuiu com o passar dos dias. Para Lopez, o dado sugere que predadores estão dispostos a experimentar presas com advertência em comunidades competitivas, ainda que existam riscos, o que enfraquece a eficácia deste tipo de estratégia aposemática.

Os resultados, explica ele, são “focados em insetos, porque delineamos o experimento para esse grupo”, usando táticas como alvos semelhantes ao seu padrão de cores e contabilizando apenas predadores que se alimentam de insetos. “Em alguma medida, isso pode ser generalizado para outros animais, mas as principais conclusões com certeza são muito mais focadas em insetos”.

O pesquisador ainda alerta sobre as interferências humanas no ambiente, que influenciam a dinâmica das estratégias anti-predatórias na natureza.

“Quando áreas naturais são convertidas em agricultura e a cobertura florestal diminui, como com a retirada de árvores de copa grande, o que se faz, na prática, é aumentar a entrada de luz nesses ambientes”, revela. Segundo ele, o cenário impacta negativamente a camuflagem e as cores de advertência.

Mariposa na natureza

Além do Brasil, o experimento foi replicado em países como Argentina, Austrália, Canadá, Camarões, Colômbia, Quênia, Costa Rica, Estados Unidos e Índia – Foto: John/Pexel

Luminosidade

A pesquisa investigou a influência da luminosidade nas estratégias anti-predatórias. “A nossa capacidade de perceber a cor de um animal depende da luz disponível, da interação dessa luz com o objeto e de como essa luz chega ao olho do predador”, explica ele. “Por exemplo, ambientes mais luminosos podem prejudicar estratégias de coloração como a camuflagem. Ou, uma coloração muito vermelha só funciona como advertência se estiver no ambiente luminoso adequado.”

“Impactos ambientais não atingem só a biodiversidade no quesito de presença da espécie ou não. Eles atingem também a biodiversidade num cenário de estratégias gerais” – Vinicius Marques Lopez

Outros resultados surpreenderam os pesquisadores. Ao contrário do que se esperava, a intensidade da predação não foi maior em regiões próximas ao Equador e não foi observada uma redução nos ataques a presas aposemáticas em baixas latitudes.

Rigor na metodologia

Em cada dia em campo, as equipes escolhiam uma trilha de dois quilômetros dentro da mata, onde 180 árvores eram selecionadas de forma aleatória. “Desses 180 pontos, a gente sorteava 90. Nessas árvores, colocávamos 30 alvos camuflados, 30 aposemáticos e 30 controles”, explica Lopez. Os alvos eram fixados uma hora antes do nascer do sol e verificados três vezes ao dia para procurar sinais de predação.

A escala global da pesquisa exigiu um rigor metodológico por parte da equipe de pesquisadores. “Precisávamos de uma metodologia que fosse viável de aplicar em vários lugares do mundo”. Para reduzir possíveis variações, os alvos foram impressos por William Allen, o último autor do artigo, em uma única impressora em Londres.

Além disso, as equipes receberam o mesmo modelo de celular para registrar sinais de predação. “Usamos os celulares para fotografar com uma escala de cinza, para avaliar como a luminosidade do ambiente variava ao longo dos dias”, conta o pesquisador. Foram mais de nove mil fotografias dos alvos, posteriormente analisadas em laboratórios com o auxílio de ferramentas como o iNaturalist, plataforma colaborativa para registro e identificação de espécies. “Usando o iNaturalist, avaliamos a proporção de espécies reais de borboletas e mariposas que apresentam coloração de camuflagem ou coloração aposemática”, completa Allen. Segundo ele, o método permitiu relacionar os padrões observados no experimento com a diversidade de estratégias anti-predatórias presentes na natureza.

Efeito do ambiente visual no risco de predação

Mariposas artificiais de papel presas em árvores. Em cada coluna, estão alvos aposemáticos, de controle e de camuflagem, respectivamente.

As “mariposas” artificiais de papel alternam entre padrões aposemáticos, de controle e de camuflagem – Imagem: Retirada do Artigo

 O artigo Global selection on insect antipredator coloration pode ser acessado neste link.

Mais informações: e-mail ovinicius.lopez@gmail.com, com Vinicius Marques Lopez

* Estagiária com orientação de Luiza Caires