Poluição de queimadas está reduzindo capacidade da Amazônia absorver carbono
Ozônio formado pela fumaça dos incêndios prejudica as árvores remanescentes e pode ampliar em quase um quarto a perda associada ao fogo
A poluição gerada pelos incêndios está reduzindo significativamente a capacidade da Amazônia de retirar dióxido de carbono (CO₂) da atmosfera. Um novo estudo, realizado por pesquisadores da Universidade de Exeter, da ETH Zurich e da Universidade James Cook, calcula que os danos provocados pelo ozônio (O₃) formado a partir da fumaça dos incêndios diminuem a absorção de carbono pela floresta em uma quantidade equivalente a cerca de 24% do CO₂ liberado pelo próprio fogo.
O resultado revela uma perda de carbono que vai além das emissões produzidas diretamente pela queima da vegetação. Além de lançar CO₂ na atmosfera, o fogo favorece a formação de O₃ no nível do solo, um poluente que danifica as folhas das árvores que permanecem de pé e reduz sua capacidade de continuar retirando carbono do ar. Detalhes da pesquisa foram descritos em um artigo publicado nesta quarta-feira (7) na revista Communications Earth & Environment.
Um efeito que vai além da fumaça
O ozônio é um gás que pode ter funções diferentes dependendo da altura em que se encontra na atmosfera. Na região mais próxima do solo, chamada troposfera, ele é um poluente nocivo à saúde e às plantas. Esse O₃ não é emitido diretamente pelos incêndios: ele se forma quando substâncias liberadas pela queima reagem na presença da luz solar.
Para a floresta, o problema é duplo. A combustão libera carbono armazenado na vegetação e, depois, a poluição atmosférica pode comprometer a capacidade das árvores sobreviventes de absorver novamente parte desse carbono.
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“Os incêndios florestais não liberam apenas CO₂ quando queimam”, afirma Flossie Brown, autora principal do artigo e pesquisadora da ETH Zurich, em comunicado. “Elas também contribuem para o aumento do ozono ao nível do solo, um poluente que danifica as folhas das árvores sobreviventes e reduz a sua capacidade de continuar a absorver carbono posteriormente.”
Segundo Brown, esse impacto representa uma parcela significativa das perdas que até então não eram contabilizadas. Esse efeito oculto equivale a cerca de um quarto do carbono liberado pelos próprios incêndios – uma perda significativa para o orçamento de carbono da Amazônia que não havia sido considerada anteriormente.
Secas intensificam o problema
O impacto do ozônio é maior durante períodos de seca. O estudo analisou quase três décadas de observações, entre 1997 e 2024, combinadas com um modelo global de vegetação para avaliar a relação entre incêndios, estiagens e danos provocados pelo poluente. Três das secas mais extremas registradas na Amazônia nas últimas três décadas ocorreram durante episódios de El Niño, nos períodos de 1997/98, 2015/16 e 2023/24.
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O El Niño é uma fase naturalmente recorrente de um ciclo climático que altera a circulação atmosférica e a distribuição das chuvas e temperaturas em várias partes do planeta. Embora não seja provocado pela atividade humana, as mudanças climáticas elevam a temperatura média do planeta, o que pode fazer com que seus efeitos ocorram sobre uma base térmica mais quente e contribuam para extremos climáticos mais intensos.
“As secas na Amazônia que estudamos deixaram marcas distintas”, destaca Brown. “Os danos causados pelo ozono durante a seca de 2023/24 quase duplicaram em comparação com a média da década anterior. Dado que um El Niño comparativamente forte parece estar a desenvolver-se novamente este ano, receamos que a história se possa repetir.”
Onde o impacto é mais concentrado
Os maiores danos relacionados ao O₃ foram identificados no chamado Arco do Desmatamento. Essa faixa se estende por áreas da borda sul e leste da Amazônia e concentra grande parte da expansão agrícola e da perda de vegetação.
De acordo com os pesquisadores, quase todos os incêndios na região têm origem humana. Eles estão associados, principalmente, ao desmatamento ou ao avanço de atividades agropecuárias sobre áreas de floresta.
“Isso significa que os danos adicionais causados pelo ozono que estamos descrevendo são em grande parte evitáveis”, avalia Stephen Sitch, professor da Universidade de Exeter. “Reduzir o desmatamento e a degradação florestal diminuiria as emissões diretas de incêndios, mas nosso estudo mostra que também protegeria a Amazônia dessa fonte secundária e invisível de perda de carbono.”
Para os pesquisadores, os resultados mostram que incêndios, poluição do ar, desmatamento e mudanças climáticas não devem ser analisados separadamente quando se avalia o futuro da floresta. Esses impactos interagem e precisam ser considerados em conjunto. “Isso também significa que as soluções podem ter múltiplos benefícios”, aponta Alexander Cheesman, da Universidade James Cook.
