Para salvar nossas cidades, vamos plantar novas árvores e reduzir os carros. Artigo de Stefano Mancuso
“A principal razão pela qual as árvores são tão importantes é simples: resfriam o ambiente. Aliás, para sermos ainda mais precisos, nada é tão eficaz quanto as árvores para resfriar um centro urbano. A capacidade de uma árvore de resfriar o seu entorno baseia-se em dois fenômenos simultâneos: o sombreamento e a evapotranspiração”, escreve Stefano Mancuso, em artigo publicado por La Repubblica, 22-09-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Stefano Mancuso leciona na Universidade de Florença, sua alma mater, onde dirige o Laboratório Internacional de Neurobiologia Vegetal. Ele escreveu cinco livros best-sellers sobre plantas.
Segundo ele, “as ruas das árvores não são um sonho utópico, são a única infraestrutura de que realmente precisaremos no século que se avizinha”.
Eis o artigo.
Reduzir em 15% a área destinada ao tráfego em favor de novas áreas verdes. Um apelo a 100 municípios mediterrâneos para combater os efeitos do aquecimento global.
O fato de o verão recém passado no hemisfério norte ter sido, talvez, o mais quente já registrado não deveria causar surpresa. Há décadas, a temperatura média do nosso planeta vem subindo com uma regularidade implacável, e devemos esperar novos recordes nos próximos anos. Diante dessa perspectiva, reduzir as emissões de gases que alteram o clima é exatamente o que qualquer espécie inteligente faria imediatamente. O fato de não o fazermos não depõe a nosso favor.
Consequentemente, o aquecimento global, na falta de freios e com velocidade crescente, transforma o clima e o meio ambiente com uma força sem precedentes na história da civilização humana. E produz morte. O verão de 2024, que foi muito menos quente do que o de 2026, causou a morte de 62.700 pessoas em toda a Europa, das quais 19 mil na Itália, segundo um estudo publicado na Nature Medicine.
Diante desses números, proteger os locais onde vivemos contra aumentos descontrolados de temperatura torna-se vital. E, considerando que mais de 70% da população italiana vive atualmente em ambientes urbanos, o desafio reside em descobrir como preparar nossas cidades para enfrentar essas mudanças o mais rápido possível. Acredito que a única maneira séria de nos prepararmos para o que está acontecendo é tornar nossas cidades mais verdes e mais permeáveis possível.
A quantidade de árvores em nossas cidades será o fator decisivo entre nos adaptarmos ao aquecimento global ou sofrermos suas consequências. Precisamos cobrir nossas cidades de árvores, e temos pouco tempo para isso. Infelizmente, não é uma tarefa simples, e duvido que muitas cidades conseguirão fazer sequer pequenos progressos nessa direção. De fato, a maioria dos cidadãos e administradores municipais não tem nenhuma noção da dimensão das mudanças em curso e continua a agir como se o problema não existisse. É um comportamento pouco sábio, que deixará muitas cidades despreparadas para enfrentar uma crise crítica.
Aspirar a um modelo diferente de cidade, uma cidade coberta de árvores e vegetação, requer não apenas compreender a fundamentação científica por trás dessa escolha, mas também superar uma forte barreira cultural sobre nossa concepção de cidade que, consciente ou inconscientemente, tendemos a imaginar como um lugar separado da natureza ao redor. Trata-se de uma visão primitiva, profundamente enraizada na história da nossa espécie. Desde a criação dos nossos primeiros assentamentos, a função primordial deles era nos defender da natureza: da chuva, do frio e do perigo representado pelos predadores. Doze mil anos se passaram desde os primeiros sinais da civilização humana, mas nossa desconfiança em relação à natureza permanece inalterada.
Gostaríamos de cidades construídas à semelhança daquelas representações renascentistas da “cidade ideal”, lugares onde não se vê um único traço de ser vivo. E, se vocês acreditam que essa mentalidade está mudando em decorrência da catástrofe climática, basta observar os protestos furiosos dos cidadãos de todas aquelas cidades europeias que simplesmente tentam não cortar a grama com a mesma frequência de alguns anos atrás. Como se pode alcançar aquelas mudanças drásticas necessárias para resistir ao aquecimento global quando até mesmo propostas modestas, como o plantio de árvores ao longo de uma rua, encontram tamanha oposição?
Há algum tempo, em Florença, uma parcela significativa da intelectualidade local opôs-se a um projeto de plantar cinquenta mudinhas ao longo de uma rua no centro histórico, uma rua sem nenhum específico mérito arquitetônico. Eles rejeitaram o projeto classificando-o como uma “desvirtuação”, argumentando que árvores jamais existiram no centro histórico de Florença. Como convencer essas, tantas, pessoas de que não é plantar árvores nos centros históricos, mas sim não as plantar, que alterará para sempre a fisionomia de nossas cidades?
A principal razão pela qual as árvores são tão importantes é simples: resfriam o ambiente. Aliás, para sermos ainda mais precisos, nada é tão eficaz quanto as árvores para resfriar um centro urbano. A capacidade de uma árvore de resfriar o seu entorno baseia-se em dois fenômenos simultâneos: o sombreamento e a evapotranspiração.
O sombreamento reduz a temperatura de uma superfície ao diminuir a quantidade de radiação solar direta ou indireta que incide sobre ela, enquanto a evapotranspiração resfria o ambiente circundante à medida que a umidade do solo se converte em vapor d’água. Visto que a evaporação da água é um processo endotérmico, ou seja, absorve calor do ambiente, a quantidade de calor absorvido, particularmente no verão, pode reduzir a temperatura do ar em até 5-6 graus em comparação a áreas desprovidas de árvores.
Embora o efeito de resfriamento, por si só, já seria suficiente para tornar as árvores as nossas aliadas mais valiosas no combate ao aquecimento global, devemos lembrar que esse não é o único benefício que elas proporcionam. As árvores também contribuem para uma redução do consumo energético, a melhoria da qualidade do ar, a diminuição dos níveis de poluentes atmosféricos, a absorção de dióxido de carbono e, por fim, um melhor manejo das águas pluviais, retardando e reduzindo o fluxo de água para os sistemas de drenagem urbana. Em suma, mesmo sem mencionar os enormes benefícios que as árvores trazem à saúde humana e à estética de uma cidade, deveria ser evidente que nada é mais eficaz no combate às consequências do aquecimento global.
O desafio, então, é simplesmente este: onde encontrar espaço para todas as árvores que seriam necessárias? Há apenas uma opção: reaproveitar parte da superfície atualmente ocupada por vias urbanas. As vias ocupam, hoje, entre 25% e 40% da superfície urbana, chegando até a 50% em muitas cidades estadunidenses dominadas pelo automóvel. Abrir mão de uma pequena fração dessa superfície, digamos 15%, não criaria problemas insuperáveis, e, em troca, traria enormes benefícios para a cidade. Atualmente, a ideia de remover 15% das vias de uma cidade para dar lugar a árvores pode parecer uma utopia inalcançável, da mesma forma que, há cinquenta anos, parecia utópico fechar um centro histórico ao tráfego ou retirar os carros de uma praça monumental.
Quem poderia imaginar, na década de 1970, que a Piazza Navona e a Escadaria da Piazza di Spagna se tornariam zonas de pedestres, ou que a Piazza Plebiscito e a Piazza Pitti deixariam de ser indecentes estacionamentos a céu aberto? Sempre que surgiu uma proposta para devolver o espaço público aos cidadãos, a reação inicial sempre foi a mesma: impossível, impensável, prejudicial para o comércio. No entanto, pouco tempo depois, sempre acabamos nos perguntando como a situação anterior podia ter sido tolerada.
É por isso que lançamos um apelo a cem cidades do Mediterrâneo para que se comprometam, nos próximos dez anos, a remover pelo menos 15% da superfície atualmente destinada ao tráfego de automóveis e a substituí-la por ruas arborizadas. Os custos da inação são evidentes, seja em termos de vidas humanas ou de bilhões de euros perdido. Os custos da ação são mínimos, temporários, amplamente compensados pelos benefícios.
Como disse certa vez o urbanista Robert Moses para justificar a destruição de bairros inteiros em nome de vias mais convenientes para o trânsito dos carros: não se faz uma omelete sem quebrar alguns ovos. Não devemos ter medo de quebrar mais alguns ovos para preparar um tipo diferente de omelete: uma omelete composta por cidades arborizadas, descentralizadas e resilientes, capazes de resistir às mudanças ambientais. Cem cidades, um compromisso concreto num prazo de dez anos. As ruas das árvores não são um sonho utópico, são a única infraestrutura de que realmente precisaremos no século que se avizinha.
