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O trio elétrico pode ser neutro em carbono? Carnaval de Salvador testa desfile descarbonizado com BaianaSystem

O trio elétrico pode ser neutro em carbono? Carnaval de Salvador testa desfile descarbonizado com BaianaSystem

Parceria mede emissões, testa baterias recicladas e cria modelo que pode mudar a maior festa de rua do mundo

A energia que move o Carnaval de Salvador ainda é, infelizmente, majoritariamente fóssil. Em 2025, mais de 220 shows circularam pela capital baiana sobre trios movidos a diesel, gasolina ou álcool, segundo dados do próprio setor. Agora, diante da crise climática, que obriga a necessidade de reduzir emissões, uma pergunta é necessária: é possível descarbonizar um trio elétrico?

A resposta começa a ser testada nos próximos dias, com o desfile do Navio Pirata. O British Council, em parceria com a LAJE Sustentabilidade e o Navio Pirata do BaianaSystem, implementa o que chama de primeiro desfile descarbonizado da festa — um projeto-piloto que combina inventário de emissões, monitoramento da qualidade do ar, logística reversa, inclusão socioambiental e pesquisas para substituir combustíveis fósseis por baterias recicladas.

“O Carnaval de Salvador é reconhecido no Guinness Records por ter o maior número de trios elétricos do mundo. Só no ano passado, foram mais de 220 shows em veículos movidos a combustíveis fósseis como diesel, álcool e gasolina, com altas emissões de carbono”, afirma o Head de Artes do British Council no Brasil, Rafael Ferraz.

Da gasolina às baterias recicladas

A proposta vai além de compensar emissões. A ideia é diminuir progressivamente a utilização de veículos com base em gasolina, substituindo-a por baterias recicladas. A tecnologia tem o apoio do engenheiro britânico Nigel Taylor, responsável por um sistema já testado no Carnaval de Notting Hill, em Londres.

“Desenvolver esse projeto-piloto usando um dos maiores trios elétricos do Carnaval de Salvador como laboratório está nos permitindo testar essa metodologia na prática”, afirma Ferraz.

Segundo ele, há diálogo com a Prefeitura de Salvador para que o modelo possa ser incorporado como contribuição permanente ao futuro do Carnaval. “Estamos desenvolvendo iniciativas sustentáveis para colaborar com essa festa e começar a substituir os combustíveis fósseis por baterias recicladas”. A ideia é que, nos próximos anos, o projeto se consolide e possa ser escalado para todos os trios elétricos. Rafael Ferraz trata a questão como um “legado”.

No entanto, até lá, é preciso lidar com a tecnologia, ainda em fase de estudo e de adaptação às exigências técnicas do Carnaval de Salvador — que envolve potência sonora elevada, longos percursos e milhares de foliões acompanhando os trios.

CEO e fundadora da LAJE Sustentabilidade, Leide Laje reforça que o projeto não se limita a medir impactos, mas pretende estruturar uma transição energética viável. Segundo ela, o Navio Pirata funciona como campo de teste real para avaliar desempenho técnico, logística e viabilidade econômica antes de qualquer expansão.

“Este é o primeiro trio elétrico do Carnaval de Salvador a realizar um inventário completo de emissões, então ainda não temos uma estimativa prévia consolidada de quanto CO₂ será emitido em 2026 nem, portanto, um número fechado de redução ou compensação”, considera Leide.

“O objetivo desta edição é medir tudo com rigor técnico: estamos registrando todos os voos realizados pelos artistas, os deslocamentos terrestres (como vans e “cavalinho” do trio), o consumo de energia elétrica nos ensaios e deslocamentos, além da própria pegada do trio elétrico e de seus geradores. A partir desse inventário, teremos uma linha de base robusta para definir metas concretas de redução para os próximos anos”.

Como descarbonizar uma festa com milhões de foliões?

Segundo estimativas do Ministério do Turismo, Salvador deve ter 11 milhões de foliões. Além de gerar impacto econômico, a festa emite produz volumes de resíduos e emissões. O modelo aplicado para diminuir/eliminar essa problemática tem: monitoramento do consumo de energia; medição da qualidade do ar ao longo do percurso; compensação de carbono com metodologias reconhecidas.

“Grandes celebrações urbanas precisam começar a incorporar critérios ambientais desde o planejamento até o pós-evento. Essa proposta coloca sustentabilidade como parte da operação do evento e não como uma ação compensatória isolada”, diz Ferraz.

Impacto social

A proposta também inclui capacitação e melhores condições de trabalho para catadores, cordeiros e ambulantes — com fornecimento de equipamentos de proteção, reforço alimentar e programas de logística reversa que ampliam geração de renda.

Descarbonizar o Carnaval não significa apenas neutralizar gases de efeito estufa, mas integrar clima, economia circular e justiça social em um mesmo “ambiente”.

“O projeto altera a lógica de trabalho no Carnaval de Salvador ao transformar catadores autônomos, cordeiros e ambulantes de mão de obra informal em protagonistas de uma cadeia socioambiental organizada, remunerada e documentada, demonstrando que é possível operar de forma diferente com resultados replicáveis”, argumenta Leide.

 

Catadores vivem a expectativa de ganhar mais protagonismo ao tornar o Carnaval mais sustentável — Foto: Mateus Fernandes/Divulgação Laje
Catadores vivem a expectativa de ganhar mais protagonismo ao tornar o Carnaval mais sustentável — Foto: Mateus Fernandes/Divulgação Laje

A iniciativa prevê a contratação de uma cooperativa formalizada de Salvador, garantindo remuneração efetiva, fornecimento de EPIs e condições dignas de trabalho. Catadores autônomos são apadrinhados pelo projeto, recebem pagamento pelo serviço ambiental prestado ao acompanhar o trio no circuito, kit com lanche e equipamentos completos — colete, luva, bota e protetor auricular — além do valor obtido com a venda dos resíduos coletados.

Há ainda bonificações para ambulantes pela coleta de 60 caixas de isopor e para baianas de acarajé que destinarem mais de 200 litros de óleo usado para produção de biodiesel.

Segundo Leide, a previsão é gerar mais de R$ 16 mil em renda direta para trabalhadores do Carnaval apenas nesta edição.

A metodologia inclui também ações estruturantes, como a transformação do isopor recolhido em quatro composteiras produzidas pela startup Start Solution e doadas à comunidade quilombola do Quilombo Rio do Macaco, acompanhadas de workshop de compostagem. “A melhoria permanente vem do registro completo da metodologia para replicação futura e do legado deixado na comunidade”, explica.

Também haverá reaproveitamento de materiais — incluindo lonas do trio transformadas em produtos por ONGs de costura solidária.

Laboratório

Se o projeto conseguir comprovar viabilidade técnica e econômica, Salvador pode inaugurar uma nova era na tradicional festa brasileira: a que tira a transição energética dos debates, do plano teórico, para obter, de fato, a implementação. O trio elétrico pode ser neutro em carbono? 2026 vai indicar a resposta mais apropriada.