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Novo índice quantifica a insegurança alimentar no Brasil com análise multidimensional

Novo índice quantifica a insegurança alimentar no Brasil com análise multidimensional

Pesquisa da USP propõe avaliação da fome a partir de indicadores de Desenvolvimento Sustentável comparando ano a ano

Pesquisadores da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP desenvolveram um índice multidimensional para quantificar a insegurança alimentar, que avalia o fenômeno a partir de uma abordagem sistêmica para expandir o diagnóstico da fome. As investigações contemplaram as 27 Unidades Federativas do Brasil para os anos de 2018 e 2022. Os valores do índice vão de zero até um: quanto maior o escore, mais grave a situação de insegurança alimentar, moldada por fatores que vão desde a renda e a educação até a infraestrutura, a governança e a vulnerabilidade ambiental.

Os resultados, publicados na revista Sustainability, indicam uma piora no cenário brasileiro. Em 2022, as médias ficaram entre 0,1 e 0,72; no primeiro ano, variaram entre 0,09 e 0,67, respectivamente. O Estado com os menores valores médios foi Santa Catarina, e os maiores foram registrados no Maranhão, Acre e Amazonas.

Os dados colocam a maior parte dos Estados do Norte e Nordeste do País em um nível acima dos 50% de insegurança alimentar multidimensional. O MUFII – sigla do índice em inglês – é composto de 12 indicadores, que integram a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas (ONU).

“Fatores ambientais, econômicos, sociais e de saúde não acontecem de forma isolada, mas sim como um ciclo. Eles estão acontecendo de maneira concomitante e impactam a situação de maior ou menor insegurança alimentar”, explica Lucas Moura, pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) Combate à Fome da FSP e primeiro autor do estudo.

Para o desenvolvimento do MUFII foi necessária a coleta, seleção de indicadores de fontes oficiais de dados abertos, normalização para cálculo do índice utilizando a média e a realização de análises de validação e sensibilidade. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) e a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) são exemplos de trabalhos utilizados para a coleta de dados.

A imagem contém um homem com cabelo escuro, ele usa uma camisa bege. Ao fundo está a Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP

Lucas Moura – Foto: Lattes

Moura aponta que há outros índices semelhantes ao desenvolvido, mas que, em sua maioria, contam com a limitação de usar indicadores de anos diferentes, sem captar a perspectiva de um ano específico. “Não fazem um comparativo temporal de transição de um ano para outro, como fizemos, e principalmente eles não têm um panorama de fundo do desenvolvimento sustentável que a gente considera”, afirma. O trabalho busca criar uma ferramenta abrangente, que avalie a insegurança alimentar a partir de uma perspectiva multidimensional e sistêmica.

Panorama brasileiro

A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) define que a segurança alimentar representa o momento em que todas as pessoas, em todos os momentos, têm acesso físico e econômico a alimentos suficientes, seguros e nutritivos. Dados recentes da PNAD Contínua demonstraram que houve um recuo de mais de 2 milhões de lares com algum grau de insegurança alimentar no País, ainda que quase um em cada quatro domicílios se enquadre no fenômeno.

O pesquisador destaca que, durante os últimos 20 anos, o Brasil vivenciou situações de transição entre segurança e insegurança alimentar particulares: o País saiu do Mapa da Fome em 2014, retornou sete anos depois, em 2022, e em 2025 saiu dessa classificação novamente. Um país é incluído no mapa da fome quando 2,5% da sua população está em risco de subnutrição ou de falta de acesso à alimentação suficiente.

“Temos essa situação muito peculiar, de ser um país que aparentemente entende o caminho que precisa ser feito para superar a fome, mas que ainda assim acaba indo e voltando”, explica Moura.

Segundo ele, o Brasil tem um excelente histórico de produção, tanto de ferramentas, quanto de políticas públicas de segurança alimentar, por isso os pesquisadores encontraram uma base sólida para aplicar o MUFII.

A imagem contém a evolução por Unidades Federativas do Brasil da insegurança alimentar multidimensional de 2018 a 2022 com base no Índice de Insegurança Alimentar Multidimensional (MUFII)

Evolução da insegurança alimentar multidimensional de 2018 e 2022 com base no MUFII – Imagem retirada do artigo

A partir das avaliações, foi observado um quadro de piora para os números no ano de 2022, sobretudo para as regiões Norte e Nordeste. Os dados reforçam desigualdades regionais, mas também apontam piora em Estados historicamente marcados por melhores níveis de segurança alimentar. Os locais que apresentam o valor mais próximo a 1 concentram também indicadores piores em relação à saúde pública, saúde infantil, meio ambiente, segurança pública, economia, educação, infraestrutura e emprego.

As motivações para a piora podem estar ligadas a diferentes frentes. A distribuição espacial do MUFII nos dois anos analisados demonstra que no período pré-pandemia o Brasil já enfrentava uma situação desafiadora no combate ao fenômeno. “Os dados da POF de 2018, que são anteriores à pandemia de covid-19, já indicavam esse aumento, novamente, da insegurança alimentar. Isso era somente quatro anos após a saída do Brasil do Mapa da Fome”, explica o pesquisador. Segundo ele, o aumento está relacionado a cortes de gastos em programas, ao aumento do desemprego e à estagnação de renda da população. “A pandemia foi um fator importante, agravante, mas não foi o maior nem o único fator”, completa.

Uma nova ferramenta

Após a coleta e normalização dos indicadores – que consiste em traduzir os valores encontrados para uma mesma escala -, os pesquisadores faziam a correlação com os números de insegurança propostos pela Escala Brasileira de Medição da Insegurança Alimentar (Ebia), o principal indicador utilizado no País.

Para chegar aos valores finais os pesquisadores somaram os indicadores normalizados e dividiram por 12 – que representa a quantidade total dos parâmetros avaliados. “Basicamente, foi uma média aritmética desses indicadores normalizados. A ideia é que seja uma ferramenta simples de ser calculada, para que os gestores também pudessem reproduzir.”

A imagem mostra dois mapas do Brasil, lado a lado, comparando os resultados do índice para 2018 e 2022.

Resultados do índice para os dois anos analisados. Apesar do contexto pós-pandemia em 2022, o Brasil já enfrentava uma situação desafiadora em termos de insegurança alimentar multidimensional em 2018 – Imagem retirada do artigo

A periodicidade ainda é um desafio para a aplicação. Como os dados são produzidos por pesquisas públicas, há casos em que aplicadas anualmente, mas não são em todos. “Existem pesquisas como a PNAD contínua que é anual, mas a POF, por exemplo, já não é. Isso dificulta a periodicidade da construção dessa ferramenta”, completa.

Em relação ao tempo de produção, Moura explica que a primeira versão foi a mais longa. Segundo ele, o mais complexo foi a busca pelos dados, que precisavam estar disponíveis abordando um mesmo período. Os pesquisadores entendem que agora a ferramenta está pronta e pode ser aplicada em novos locais. “Não vai precisar passar por todo o processo de selecionar esses indicadores novamente e avaliar a adesão desse indicador para essa medida. Ele já sabe quais vão ser os indicadores, a questão vai ser a disponibilidade desses dados”, explica.

Moura destaca que estão trabalhando para o desenvolvimento de dashboard para a disponibilização desta ferramenta on-line. O material estará disponível para os dois anos avaliados, mas a ideia é mantê-lo atualizado.

O artigo A Multidimensional Index to Quantify Food Insecurity in Brazil (MUFII): An Approach Based on Sustainable Development Indicators está disponível neste link.

Mais informações: lucasdemoura@usp.br, com Lucas Moura

*Estagiária sob orientação de Fabiana Mariz

**Estagiária sob orientação de Moisés Dorado