Novas regras da União Europeia podem tornar os combustíveis de aviação livres de combustíveis fósseis
Pesquisa aponta que regulamentação europeia pode tornar mais caro a produção de combustíveis sustentáveis para aviões e favorecer tecnologias menos eficientes
As metas da União Europeia para descarbonizar a aviação podem acabar incentivando tecnologias mais caras e menos eficientes do ponto de vista energético. Isso é mostrado em um novo estudo da Universidade de Tecnologia Chalmers, na Suécia, publicado na revista Fuel, que analisou diferentes formas de produzir metanol sintético, uma molécula que pode ser convertida em combustível sustentável para aviões.
A pesquisa surge em um momento em que a segurança energética voltou ao centro do debate europeu, impulsionada pelas tensões geopolíticas envolvendo o mercado de petróleo. Ao mesmo tempo, a União Europeia acelera seus planos para substituir combustíveis fósseis na aviação.
“Em vez de impulsionar a inovação em direção às soluções mais eficientes, corremos o risco de nos prendermos a métodos de produção menos eficientes em termos de recursos”, afirma Henrik Thunman, professor de Tecnologia de Energia da Chalmers e coautor do estudo, em comunicado.
Para entender os impactos das regras europeias, os cientistas compararam três métodos de produção de metanol sintético utilizando biomassa proveniente de resíduos florestais. Dois deles dependem da combustão da biomassa para gerar dióxido de carbono, posteriormente combinado com hidrogênio verde. O terceiro usa gaseificação, processo que transforma diretamente a biomassa em gás de síntese rico em carbono e hidrogênio.
Embora todas as rotas sejam tecnicamente viáveis, os resultados mostraram diferenças expressivas de custo e eficiência energética. A gaseificação apresentou os melhores indicadores: custo de produção até 46% menor e consumo de eletricidade cerca de 30% inferior em comparação com os métodos baseados em combustão.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_fde5cd494fb04473a83fa5fd57ad4542/internal_photos/bs/2026/0/U/DplNqaRaWG45PuTYcBrA/1-s2.0-s0016236125029060-gr3.jpg)
“Essa diferença demonstra o quão grandes podem ser as perdas de energia quando a biomassa é primeiro queimada em dióxido de carbono, que é então reconstruído em moléculas de combustível usando grandes quantidades de eletricidade e hidrogênio”, explica Johanna Beiron, primeira autora do estudo.
Apesar da vantagem energética, a gaseificação acaba parcialmente excluída da categoria RFNBO pelas regras europeias atuais. Isso ocorre porque o regulamento restringe o uso direto de carbono vindo da biomassa na produção dos combustíveis sintéticos, favorecendo processos que primeiro convertem esse carbono em dióxido de carbono por meio da combustão. Na prática, dizem os autores, a política europeia pode estimular justamente um uso menos eficiente da biomassa, recurso considerado limitado.
“O quadro regulamentar não leva suficientemente em conta a eficiência com que os diferentes sistemas utilizam energia e recursos”, afirma Thunman. “A regulamentação corre o risco de contrariar os seus próprios objetivos quando as definições de combustíveis sustentáveis não estão alinhadas com princípios energéticos fundamentais.”
Os pesquisadores alertam que o impacto pode ser significativo nas próximas décadas. A expectativa é que milhares de novas fábricas de combustíveis sustentáveis sejam construídas ao redor do mundo para atender à demanda crescente da aviação. Como esses projetos exigem investimentos bilionários e infraestrutura de longa duração, decisões regulatórias tomadas agora podem moldar o setor por décadas.
“É surpreendente que as regras da UE não ofereçam incentivos mais claros para as alternativas mais eficientes”, diz a pesquisadora. “Já existem processos tecnicamente maduros que proporcionariam menor consumo de energia e custo mais baixo.”
