Nem toda mudança ameaça a vida, mas a velocidade dela, sim: o que as grandes extinções ensinam sobre um planeta em rápida transformação
Modelo matemático mostra que o risco de extinção aumenta quando as mudanças ambientais acontecem em um ritmo mais acelerado do que a capacidade de adaptação das espécies — um alerta relevante para um planeta sob aquecimento
Habitar a Terra significa conviver com mudanças. As imagens das enchentes que paralisaram o Rio Grande do Sul em 2024, das ondas de calor que atingem cidades europeias como Paris e dos incêndios florestais que se repetem em diferentes continentes reforçam que o planeta passa novamente por transformações, mas dessa vez provocadas pela queima massiva de combustíveis fósseis e um sistema econômico fortemente baseado em consumo e acumulação às custas do equilíbrio das condições de boa vida por aqui. Talvez muita gente se pergunte: até quando a Humanidade e demais seres vivos vão durar’?
Um estudo publicado em junho na revista científica Physical Review Letters lança um olhar para o passado para nos ajudar a compreender os desafios do presente, principalmente o que acontece quando o ambiente muda mais rápido do que a vida e a capacidade de adaptação não consegue acompanhar.
A pesquisa, desenvolvida por cientistas do MIT e da Universidade de Leicester, propõe um modelo matemático capaz de explicar a gravidade da maioria dos grandes eventos de extinção registrados nos últimos 450 milhões de anos. Segundo os autores, não basta que o planeta enfrente transformações profundas: o fator decisivo é se essas mudanças acontecem em um ritmo compatível com a capacidade de resposta da vida.
A lógica pode ser observada em diferentes escalas. Apenas um único animal isolado pode desaparecer se seu habitat se transformar rapidamente, assim como mudanças ambientais podem causar o desaparecimento simultâneo de inúmeras espécies ao longo da história geológica.
Os pesquisadores compararam registros de mudanças ambientais preservados em rochas e sedimentos com dados paleontológicos sobre 27 episódios de alterações significativas no ciclo do carbono — um dos principais indicadores das transformações do sistema terrestre e que hoje volta a despertar preocupação diante do aumento recorde das concentrações de dióxido de carbono na atmosfera e nos oceanos. Em seguida, confrontaram essas informações com estimativas já consolidadas sobre a proporção de espécies extintas em cada período.
O resultado revelou um padrão consistente: quase todos os grandes eventos de extinção coincidiram com momentos em que a velocidade das mudanças ambientais superou a capacidade média de adaptação dos organismos.
Segundo o modelo, diferentes grupos de animais apresentam velocidades distintas de adaptação ao longo de milhões de anos. A maioria consegue responder a mudanças graduais, mas poucos são capazes de acompanhar transformações muito rápidas. Quando esse limite é ultrapassado, cresce rapidamente a parcela de espécies incapazes de sobreviver.
Um exemplo citado pelos pesquisadores é a extinção do fim do período Permiano, há cerca de 252 milhões de anos, considerada a maior da história da Terra. Naquele episódio, a rápida acidificação dos oceanos provavelmente ocorreu em um ritmo superior ao da evolução de mecanismos de proteção nos organismos marinhos, contribuindo para a extinção de mais de 80% das espécies marinhas.
Embora o trabalho tenha sido desenvolvido para compreender eventos do passado, os autores afirmam que o modelo também oferece uma nova forma de interpretar os riscos atuais de perda de biodiversidade.
Hoje, o planeta vive uma aceleração das mudanças climáticas impulsionada principalmente pela queima de combustíveis fósseis, pelo desmatamento, sobreconsumo de recursos naturais, e por outras atividades humanas que aumentam a concentração de gases de efeito estufa na atmosfera. Essas alterações afetam temperaturas, chuvas, oceanos e ecossistemas em um intervalo de tempo muito menor do que aquele em que muitas espécies costumam evoluir.
Os pesquisadores observam que a velocidade atual de aumento do dióxido de carbono nos oceanos, quando comparada em escala geológica, já se aproxima das taxas registradas em períodos que antecederam grandes extinções do passado. Calma, isso não significa que um novo evento dessa magnitude seja inevitável, mas indica que a capacidade de adaptação das espécies tende a diminuir à medida que as transformações ambientais se aceleram.
Ao reconstruir a dinâmica das grandes extinções da Terra, o estudo reforça um aspecto central da crise climática e do aquecimento global atual: não é apenas a intensidade dessas mudanças que importa, mas também a rapidez com que elas acontecem.
Isso lança um desafio para governos, empresas e sociedade em geral. Quanto mais demorarem as ações para reduzir as emissões de gases de efeito estufa, conter o desmatamento e preparar cidades e ecossistemas para os impactos do aquecimento do planeta, menor será a janela de adaptação para a biodiversidade e para a própria Humanidade.
