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Mudanças climáticas podem alterar relações entre abelhas e plantas

Mudanças climáticas podem alterar relações entre abelhas e plantas

No Dia das Abelhas, especialista do CRIA explica como mudanças de temperatura, chuvas e uso da terra
podem afetar a polinização, a distribuição das espécies e a regeneração dos ecossistemas

Mudanças na temperatura e no regime de chuvas, somadas a alterações no uso da terra — como desmatamento, expansão agrícola e fragmentação de habitats — podem mudar os locais onde plantas e abelhas vivem e os períodos em que estão ativas. Com isso, a floração pode acontecer em momentos diferentes, a oferta de néctar e pólen pode diminuir e algumas espécies de abelhas podem ter mais dificuldade para encontrar as plantas das quais dependem.

No Dia das Abelhas, celebrado em 3 de outubro, o tema chama atenção para uma relação essencial para a manutenção dos ecossistemas. Projeções climáticas até 2060 mostram que espécies do gênero Melipona podem responder de formas distintas às transformações do ambiente: algumas podem encontrar novas áreas favoráveis, enquanto outras podem manter ou perder parte dos locais adequados à sua ocorrência.

“O clima pode alterar não apenas onde as espécies vivem, mas também quando e onde as interações entre elas acontecem. Uma planta e seu polinizador podem responder de maneiras diferentes às mesmas mudanças ambientais. Por isso, entender essas relações é tão importante quanto acompanhar cada espécie separadamente”, explica Ana Lúcia Assad, coordenadora de Projetos, Inovação e Desenvolvimento do Centro de Referência em Informação Ambiental (CRIA). 


Possíveis efeitos sobre a polinização, a produção de frutos e sementes e a regeneração da vegetação.
Referências de apoio: Borges et al. (2025) e ter Steege et al. (2026)

Abelhas têm papel central na floresta amazônica

Um estudo publicado em 2026 na revista científica Communications Biology ajuda a dimensionar a importância das abelhas para a Amazônia. O levantamento reuniu informações sobre 5.201 espécies de árvores amazônicas e identificou as abelhas como o grupo mais frequente de visitantes. Elas aparecem associadas a 74% dos gêneros de árvores estudados.

O trabalho também aponta que quase 80% das espécies de árvores analisadas dependem de diferentes espécies da fauna, tanto para a polinização quanto para a dispersão de sementes. Essas interações fazem parte de processos fundamentais para a reprodução das plantas e para a renovação da floresta.

“As mudanças não afetam todas as espécies da mesma maneira. Por isso, acompanhar também as interações entre plantas e polinizadores pode revelar alterações que nem sempre aparecem quando observamos cada espécie isoladamente”, afirma Ana Lúcia.

O impacto também pode chegar aos alimentos

Esse papel dos polinizadores também aparece em cadeias produtivas importantes. Um dos exemplos é o açaí, cuja produção depende da visita de diferentes insetos às flores, entre eles as abelhas.

Em pesquisa sobre a polinização do açaí, publicada no Journal of Applied Ecology, foram registradas 194 espécies de insetos visitando suas flores. As abelhas sem ferrão foram o grupo mais abundante, respondendo por 29,1% das visitas observadas.

O dado mostra que os efeitos sobre os polinizadores podem ir além da conservação das próprias abelhas, alcançando a reprodução das plantas e a formação de frutos, sementes e alimentos.

Pesquisas recentes também mostram que as comunidades de plantas das Américas apresentam forte dependência das abelhas, independentemente do bioma ou da diversidade local desses polinizadores.

Dados ajudam a acompanhar as mudanças

O trabalho do CRIA com dados sobre abelhas começou com a organização e a digitalização do conhecimento produzido sobre espécies neotropicais. Uma das primeiras iniciativas foi o apoio à transformação das fichas de descrição elaboradas pelo pesquisador Padre J. S. Moure no Catálogo Moure de Abelhas Neotropicais, disponível online desde 2008.

A partir desse trabalho, foi desenvolvido também o infoABELHA, iniciativa voltada à organização e divulgação de informações sobre as diferentes espécies de abelhas, especialmente as sem ferrão, resultado da parceria com a Associação Brasileira de Estudos das Abelhas – A.B.E.L.H.A.

Hoje, a combinação de registros de biodiversidade com dados climáticos e de uso da terra amplia as possibilidades de acompanhar como as espécies respondem às transformações ambientais. Esse cruzamento de dados também pode ajudar a identificar áreas vulneráveis, refúgios climáticos e regiões prioritárias para conservação e restauração em diferentes cenários.

“Quanto mais informações tivermos sobre as espécies e suas interações, melhor conseguimos identificar áreas que precisam de atenção e orientar ações de conservação. Proteger os polinizadores é também cuidar das relações que sustentam a biodiversidade e parte da nossa produção de alimentos”, completa Ana Lúcia.

Sobre o CRIA

Com 25 anos de atuação, o Centro de Referência em Informação Ambiental (CRIA) conecta biodiversidade, ciência e tecnologia para apoiar a conservação da natureza, a adaptação às mudanças climáticas e o desenvolvimento sustentável. Referência na integração de informações sobre a biodiversidade na América Latina, a instituição reúne acima de 20 milhões de registros científicos provenientes de mais de 600 conjuntos de dados e coleções biológicas de 200 instituições do Brasil e do exterior. Esse conhecimento subsidia universidades, governos, empresas e organizações da sociedade civil na tomada de decisões baseadas em evidências. Entre suas iniciativas estão a SpeciesLink, rede colaborativa e acessível a qualquer pessoa, uma das maiores infraestruturas de informação sobre biodiversidade da região, e a Flora Brasiliensis, acervo digital da obra mais completa da flora brasileira. Mais informações: www.cria.org.br.