Moradias sustentáveis promovem o bem-estar
Arquitetura ecológica é forma de conservar recursos naturais
As moradias sustentáveis têm se tornado alternativas para lidar com os impactos causados pela construção civil. Pensadas a partir de aspectos ambientais, sociais e econômicos, essas habitações vão além da redução de danos à natureza, promovendo qualidade de vida para os moradores e benefícios coletivos quando aplicadas em maior escala.
A arquiteta e mestra em Engenharia Urbana e ambiental, Patrícia Gigliola, explica que esse tipo de habitação utiliza materiais ecológicos, como tijolos de terra comprimida, bambu e taipa, além de aproveitar a luz e a ventilação natural. Também incorpora tecnologias de eficiência energética e sistemas de gestão de água, como captação de chuva e fossas ecológicas, e integram-se ao entorno, respeitando clima, topografia e vegetação local. “As construções sustentáveis também priorizam durabilidade, baixa manutenção e envolvem a comunidade no processo construtivo, promovendo aprendizado e capacitação”, afirma.

- Com as prensas manuais de BTC, duas pessoas são capazes de produzir até 350 tijolos por dia | Fotos: Arquivo pessoal/Patrícia Gigliola
Para o professor e engenheiro civil Normando Perazzo, da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), que se dedica a esse campo desde a década de 1970, a nomenclatura correta seria “moradia de menor impacto ambiental”. Para ele, nenhuma construção é totalmente isenta de repercussões negativas para o meio, assim, o que se pode fazer é tentar reduzi-las.
“O campo da Engenharia e da Arquitetura é uma das atividades mais agressivas à natureza, porque os materiais de construção exigem muita energia no seu processo de fabricação. Então, qualquer obra que fazemos provoca um impacto considerável na natureza”, destacou o professor.
De acordo com Normando, construções de menor impacto utilizam menos energia em sua execução e priorizam materiais naturais e menos poluentes, como madeira, bambu e terra. Além disso, já integram soluções para reduzir o consumo energético, como sistemas de energia solar e reaproveitamento de água da chuva.

Os benefícios vão desde a conservação dos recursos naturais até a melhoria da saúde e do bem-estar dos moradores, além da valorização de saberes e culturas locais. “Uma moradia sustentável não é apenas uma casa, mas um modelo de habitação integrado que contribui para o cuidado com o meio ambiente, fortalece a comunidade e promove impactos positivos e duradouros”, enfatizou Patrícia.
Experiência comunitária
Na Paraíba, algumas iniciativas têm colocado esses conceitos em prática. A Associação Casa dos Sonhos (ACS), que atua há 20 anos na comunidade Santo Amaro, em Santa Rita, desenvolve projetos socioambientais voltados a crianças, adolescentes, jovens e famílias em situação de vulnerabilidade social.
Criada em 2004, a instituição conta com o apoio da Fundação Mission Bambini, organização internacional sediada em Milão. A arquiteta Patrícia Gigliola foi contratada para fazer o projeto arquitetônico da sede do projeto e, segundo ela, ali entendeu o papel social da arquitetura. “Contribuir para a redução do impacto no meio ambiente e ainda colaborar a nível social para que as pessoas mais pobres possam ter acesso à moradia digna”.
Entre as ações da ACS estão edificações construídas com soluções sustentáveis, como o uso do bloco de terra comprimida (BTC) — tijolo ecológico —, captação e reaproveitamento de água, energia solar, reuso de materiais e acessibilidade. A brinquedoteca e a biblioteca da associação são exemplos desse modelo construtivo.
Para ampliar a atuação no campo da sustentabilidade, está em processo de criação o Centro de Sustentabilidade Insieme (CSI), termo que significa “junto”, em italiano. “Concebido com foco na educação lúdica e prática, o CSI tem como propósito consolidar-se como referência em ensino e práticas sustentáveis, além de estimular a criação de núcleos replicáveis em diversos municípios da Paraíba, promovendo a articulação entre sociedade civil, academia e Poder Público na construção de soluções locais com impacto ambiental positivo em escala global”, explicou Patrícia.
Em relação aos projetos habitacionais, a ACS, desde sua fundação, atua em parceria com a ONG italiana Mattone su Mattone, o Politécnico de Turim e a Universidade Federal da Paraíba (UFPB), por meio do professor Normando Perazzo, na transferência da tecnologia do bloco de terra comprimida (BTC) para a comunidade local. Essa atuação inclui o envio de prensas manuais de BTC da Itália, capazes de produzir cerca de 300 a 350 tijolos por dia, com o auxílio de duas pessoas; a realização de diversas capacitações para a produção dos blocos e para a execução das edificações, além da construção de moradias destinadas a famílias da comunidade que perderam suas casas em decorrência de enchentes.
Pesquisas e tecnologias
A pesquisa acadêmica também tem contribuído para o avanço das moradias sustentáveis. Na UFPB, o projeto Janelas Fotovoltaicas Sustentáveis, desenvolvido no Centro de Energias Alternativas e Renováveis (Cear), desenvolve janelas capazes de gerar energia solar e, ao mesmo tempo, melhorar o conforto térmico das edificações.
Coordenado pela professora e engenheira mecânica Taynara Lago, o projeto tem como proposta atual incorporar tecnologias fotovoltaicas às janelas, transformando-as em superfícies ativas de geração de energia, o que contribui para a redução do consumo elétrico e das emissões de gases de efeito estufa.
“O projeto é relevante porque atua em duas frentes essenciais para a sociedade: a redução do consumo energético das edificações e geração de energia limpa no próprio local de uso”, explicou Taynara. Para a pesquisadora, a busca por modelos de moradia sustentáveis é fundamental para promover cidades mais resilientes, acessíveis e ambientalmente responsáveis, além de estimular soluções tecnológicas adaptadas à realidade climática local.
Outro exemplo é a Casa Ecoeficiente do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai-PB), em Campina Grande. Desde 2006, o local atua como espaço didático e tecnológico para a disseminação de conhecimentos sobre energias renováveis, reuso de água e materiais alternativos na construção civil, bem como recebe estudantes, pesquisadores e profissionais, funcionando como centro de capacitação e inovação.
Segundo Guilherme Santos, professor do Senai, a casa reúne aplicações de energia solar fotovoltaica e eólica, além de sistemas de reaproveitamento da água, além de melhor aplicação da luminosidade e da ventilação. “A construção civil da casa foi projetada para aproveitamento de iluminação e ventilação natural, reduzindo o gasto de eletricidade em seu uso. As paredes são revestidas e preenchidas na sua maioria com material reciclável e isopor, melhorando o conforto acústico e isolamento térmico, reduzindo o custo da obra e tornando a obra mais sustentável”, pontuou.
Habitação social
A sustentabilidade também tem sido incorporada à habitação popular. Para a Companhia Estadual de Habitação Popular (Cehap), a sustentabilidade não é um item opcional, ela já faz parte do jeito como a Companhia pensa e executa seus empreendimentos. Soluções como cisternas, reuso de águas cinzas, energia solar e melhor isolamento térmico já fazem parte dos projetos habitacionais.
Conforme a diretora da Cehap, Emília Correia, além do benefício ambiental, essas medidas reduzem os custos para os beneficiários. “A família passa a gastar menos com energia, menos com água, e isso faz muita diferença no orçamento de quem já vive com renda apertada”.
Em 2025, a Cehap entregou 2.133 moradias, entre obras novas e reformas, em áreas urbanas e rurais. Um dos destaques é o Projeto Casas Sustentáveis, no município Areia de Baraúnas, no Sertão paraibano, que integra a utilização de energia solar, reaproveitamento de água e isolamento térmico, sem encarecer a obra. “Ao todo, serão 30 moradias construídas a partir de um modelo consciente, que mostra que esse tipo de solução é plenamente possível de ser aplicado na habitação popular”, destacou Emília.
A iniciativa recebeu o Prêmio Selo de Mérito pelo caráter pioneiro e pela aplicação prática de soluções sustentáveis na habitação popular.
Em João Pessoa, o programa João Pessoa Sustentável — Habitação e Meio Ambiente prevê a construção de três conjuntos habitacionais no Complexo Beira Rio, totalizando 747 unidades. Os projetos priorizam ventilação cruzada, iluminação natural e sistemas de economia de energia nas áreas comuns, buscando maior conforto térmico e redução do consumo energético.
“Algumas pessoas passam pela Avenida Beira Rio e percebem que os empreendimentos estão sendo construídos de costas. A parte da frente da unidade habitacional, na verdade, está ficando exatamente voltada para o rio. Isso foi uma formatação que identificamos de ventilação cruzada para que pudéssemos fazer com que as unidades habitacionais tivessem um conforto térmico melhor e para que as famílias não precisem, por exemplo, gastar tanto com ventilador ou qualquer outro tipo de refrigeração”, afirmou Vítor Cavalcante, coordenador-executivo do programa.
Desafios
Apesar dos avanços, Normando Perazzo aponta desafios para a ampliação dessas tecnologias. De acordo com ele, sistemas construtivos não convencionais exigem mais tempo e planejamento, o que nem sempre se alinha à lógica do mercado. Ainda assim, o professor acredita que esse é o único caminho viável para o futuro da construção civil. “Hoje em dia, está havendo um incentivo maior para o desenvolvimento de novos materiais, para se realizar experimentos de menor impacto ambiental, porque, realmente, é insustentável a situação como está”, finalizou.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 08 de fevereiro de 2026.

