Metade dos pequenos agricultores pode alimentar humanidade e restaurar biodiversidade
Quando se fala do potencial e do poderio do agronegócio, o discurso tipicamente vem ilustrado por plantações a perder de vista, com tratores enormes e automatizados trabalhando em campos nos quais não se vê uma só árvore ou qualquer outra planta que não seja a da própria monocultura.
Mas esta não é a verdade toda: Os pequenos agricultores produzem 30% dos alimentos do mundo por meio da chamada agricultura familiar. E, se apenas metade deles for incentivado e instruído a adotar uma agricultura regenerativa, eles poderão alimentar o crescimento populacional até 2050, ao mesmo tempo que irão restaurar a natureza.
Acontece que os pequenos produtores agrícolas, que tipicamente possuem menos de dois hectares, são os menos apoiados e financiados na agricultura global.
Por isso, a proposta do professor Hugh Locke é a adoção do que ele chama de “agricultura integral”.
“Os pequenos agricultores do mundo são frequentemente tratados como beneficiários da ajuda ao desenvolvimento, quando deveriam ser reconhecidos como arquitetos da próxima transformação agrícola,” defende Locke. “Não se trata de nostalgia ou de fazer a agricultura voltar ao passado: Trata-se de reconhecer onde reside agora uma das maiores oportunidades para o futuro.”
[Imagem: A.F. Cortes/SFA]
Agricultura regenerativa
A população mundial deverá aumentar em cerca de 1,5 bilhão até 2050, com esse crescimento concentrado nos países em desenvolvimento. A principal proposta de Locke é que atender a essa demanda adicional por alimentos não precisa ser feito à custa de maior degradação do solo, perda de biodiversidade e mudanças climáticas.
Em vez disso, o mesmo investimento necessário para aumentar a produtividade dos pequenos agricultores pode ajudar a transformar a agricultura em uma força regenerativa. Em vez de simplesmente reduzir os danos causados pela agricultura, a agricultura regenerativa é uma abordagem holística que visa melhorar os sistemas naturais dos quais a agricultura depende.
O conceito se baseia em três correntes de conhecimento: Ciência, incluindo avanços em biologia do solo, ciência de ecossistemas e mensuração de impacto; décadas de experiência com agricultura orgânica, agroecologia, permacultura e outras abordagens sustentáveis; e tradições agrícolas ancestrais, culturais ou indígenas.
Dependendo das condições locais, os agricultores regenerativos podem empregar técnicas como rotação de culturas, culturas de cobertura, consórcio de culturas e sistemas de cultivo diversificados, compostagem e outros métodos de enriquecimento da matéria orgânica do solo, plantio direto, agroflorestamento e integração da pecuária.
O objetivo não é a adesão a uma lista de verificação universal. É a melhoria mensurável em resultados como saúde do solo, biodiversidade, qualidade e disponibilidade da água, armazenamento de carbono, produção de alimentos, meios de subsistência dos agricultores e resiliência da comunidade. “A questão não é simplesmente ‘Você está usando práticas regenerativas?’. A questão mais importante é: ‘A terra, o ecossistema e a comunidade agrícola estão visivelmente melhores como resultado?’,” esclarece o pesquisador.
Uma grande transformação regenerativa
Locke chama essa oportunidade de “Grande Transformação Regenerativa”, comparável em ambição à Revolução Verde, que aumentou drasticamente a produção agrícola durante a segunda metade do século XX.
Mas há uma diferença fundamental: Enquanto a Revolução Verde dependia fortemente de variedades de culturas melhoradas, irrigação, fertilizantes sintéticos, pesticidas e padronização crescente, Locke vislumbra uma transformação que combina o conhecimento agrícola tradicional com a ciência ecológica, práticas adaptadas localmente e sistemas modernos para mensurar resultados.
O objetivo não é simplesmente produzir mais alimentos por hectare. O sucesso seria medido, em vez disso, pelo que a agricultura produz e pelo legado que ele deixa: Solos mais saudáveis, ecossistemas restaurados, maior biodiversidade, sistemas hídricos aprimorados, resiliência climática e comunidades agrícolas viáveis.
E os pequenos agricultores estão particularmente bem posicionados para liderar essa transformação porque muitos ainda conservam o conhecimento agrícola tradicional, operam fazendas diversificadas e não adotaram os sistemas de agricultura industrial tão amplamente quanto os produtores em países mais ricos.
O desafio é dar-lhes acesso ao treinamento, financiamento, pesquisa, mercados, dados e serviços de extensão rural necessários para transformar esse potencial em realidade, diz o pesquisador.
Artigo: Whole Earth Farming
Autores: Hugh Locke
Vol.: Livro
DOI: ISBN: 0853986886
