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Leishmaniose visceral pode ser confundida com outras doenças do sangue

Leishmaniose visceral pode ser confundida com outras doenças do sangue

Relato de caso de paciente mostra como alterações causadas pela infecção podem dificultar o diagnóstico da doença, transmitida por inseto e endêmica no Brasil

Febre recorrente, perda de peso e alterações nas células do sangue levaram médicos a investigar uma possível doença da medula óssea em um paciente de 86 anos. O caso, no entanto, escondia outro problema: o homem também tinha leishmaniose visceral, infecção causada pelo parasita Leishmania infantum. A doença, transmitida pelo mosquito-palha, passou despercebida em um primeiro teste, mas foi identificada após a análise do tecido e confirmada por exame molecular.

O relato foi publicado na revista Discover Medicine por pesquisadores da USP e colaboradores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). A descoberta chama atenção para uma dificuldade no diagnóstico da leishmaniose visceral. A infecção, que tem no Brasil o maior número de casos das Américas, pode alterar a produção das células do sangue e apresentar sinais semelhantes aos de algumas doenças hematológicas que afetam esse sistema. Por isso, os pesquisadores defendem que a possibilidade de infecção seja considerada em áreas endêmicas mesmo quando os primeiros exames apontam para outro problema.

Relato de caso

O relato de caso é uma modalidade de estudo com delineamento descritivo, sem grupo controle, de caráter narrativo e reflexivo, em que os dados são provenientes da atividade profissional cotidiana. Ele tem o objetivo de destacar um fato raro ou relevante, ampliando o conhecimento na área ou sugerindo hipóteses para estudos posteriores.

A leishmaniose é uma doença infecciosa, não contagiosa, causada por protozoários do gênero Leishmania. A transmissão ocorre principalmente por meio da picada do inseto flebotomíneo (popularmente chamado de mosquito-palha) infectado. A doença possui diferentes formas: a chamada leishmaniose tegumentar afeta principalmente a pele, enquanto a visceral, causada pela Leishmania infantum, pode atingir órgãos internos. Entre eles estão o fígado, o baço e a medula óssea, tecido responsável pela produção das células do sangue.

A imagem mostra um inseto flebotomíneo, conhecido popularmente como mosquito-palha, pousado sobre a pele humana. O inseto é pequeno e possui o corpo coberto por finos pelos de cor amarelada. Suas duas asas são translúcidas, longas e pontiagudas, também orladas por pelos finos, e estão posicionadas erguidas e semiabertas para cima em formato de "V". O abdômen do mosquito está visivelmente distendido e preenchido por sangue de cor vermelha intensa, indicando que ele está se alimentando. Suas pernas são longas, finas e claras, e a cabeça exibe pequenos olhos escuros.

A leishmaniose visceral é transmitida por meio da picada de inseto conhecido popularmente como mosquito-palha – Foto: James Gathany / Wikimedia Commons

De acordo com Sandra Márcia Muxel, professora da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP e orientadora da pesquisa, a leishmaniose visceral pode provocar alterações na medula óssea, causando anemia, redução dos glóbulos brancos e das plaquetas – sintomas que geram uma das principais dificuldades apresentadas pelo caso estudado. Alterações na quantidade e na aparência das células do sangue também podem aparecer em doenças hematológicas, que comprometem a produção ou o funcionamento dos componentes do sangue.

O paciente analisado pelos pesquisadores era do Rio Grande do Norte, região onde a leishmaniose é endêmica, ou seja, ocorre de forma frequente. Ele chegou ao hospital com características semelhantes às de uma leucemia aguda: febre recorrente, perda de peso e uma redução grave de diferentes tipos de células do sangue, quadro chamado de pancitopenia. Segundo a professora, os primeiros exames da medula óssea apresentaram alterações que levantaram a possibilidade de uma doença hematológica.

Entre as suspeitas estava a síndrome mielodisplásica, um conjunto de doenças do sangue. De acordo com Ian Antunes, doutorando do Programa de Imunologia pelo Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP e primeiro autor do artigo, nessa condição a produção das células sanguíneas ocorre de maneira anormal. No entanto, a investigação mostrou um cenário mais complexo, onde o paciente apresentava simultaneamente essa síndrome mielodisplásica e a leishmaniose visceral, duas condições capazes de comprometer a função da medula óssea.

Homem jovem, de cabelos pretos e curtos, sorrindo e olhando para a câmera. Ele veste um jaleco branco sobre uma camisa escura e está com os braços cruzados.
Ian Antunes Ferreira Bahia – Foto: Google Acadêmico

Falso negativo não encerra a investigação

Segundo Antunes, um dos pontos que mais chamaram atenção na pesquisa foi o resultado de um teste rápido utilizado para investigar a leishmaniose visceral humana. O exame, chamado rK39, procura no sangue do paciente anticorpos produzidos pelo organismo contra o parasita. No caso estudado, o resultado foi um falso negativo. “Quando indivíduos estão com um comprometimento do sistema imunológico da medula óssea, a produção de anticorpos pode estar reduzida, o que diminui a sensibilidade do teste e faz com que a infecção passe despercebida” , explica o autor.

Apesar do resultado negativo no teste rápido, a suspeita de leishmaniose não foi descartada, sobretudo por se tratar de uma região endêmica. A equipe coletou uma amostra da medula óssea, procedimento recomendado diante da suspeita da forma visceral da doença. O material foi analisado por microscopia. “Foi possível identificar visualmente as formas amastigotas [estágio evolutivo intracelular] do parasita Leishmania infantum na medula do paciente, uma quantidade muito grande”, relata Sandra Muxel.

Mapa-múndi que apresenta a situação endêmica da leishmaniose visceral em 2024, segundo dados da Organização Mundial da Saúde. Os países são classificados de acordo com o número de casos registrados: verde indica nenhum caso; amarelo, menos de 100 casos; laranja-claro, de 100 a 499; laranja-escuro, de 500 a 999; e marrom, 1.000 casos ou mais. Também há áreas em branco, que representam países sem registro de casos autóctones; em cinza, países sem informação; e em cinza mais claro, locais onde a classificação não se aplica. A maior concentração de países com casos ocorre na África, especialmente na região oriental do continente, e na América do Sul, com destaque para o Brasil, que aparece na categoria de 1.000 casos ou mais.

Mapa da OMS contendo a situação endêmica da leishmaniose visceral no mundo em 2024 – Foto: Organização Mundial da Saúde

A observação levou os pesquisadores a realizarem a confirmação por exame de biologia molecular, considerado padrão ouro para a identificação do parasita: a reação em cadeia da polimerase (PCR). O teste detectou o material genético de Leishmania infantum e confirmou o diagnóstico de leishmaniose visceral.

“A leishmaniose é uma doença que, se não for tratada, é fatal. Um diagnóstico correto é essencial para iniciar o tratamento mais rapidamente”
– Sandra Muxel

A situação do paciente evoluiu rapidamente. Segundo o artigo, ele apresentava um quadro grave, com alterações agressivas nas células do sangue, e também recusou transfusões sanguíneas por motivos religiosos, o que limitou as possibilidades de suporte durante a internação. “O paciente não teve nem tempo de receber o tratamento completo para a leishmaniose, porque veio a falecer”, relata a professora da EACH.

Mulher adulta, de cabelos castanhos e lisos, na altura dos ombros. Ela está sorrindo e olhando para a câmera. Usa brincos pequenos, uma blusa preta e um casaco estampado em tons de cinza e preto. Ao fundo, há uma parede de madeira em tom marrom-claro.
Sandra Marcia Muxel – Foto: ICB-USP

Um alerta para o diagnóstico

“O intuito do relato de caso é trazer quadros que, em um primeiro momento, são confusos, e que, no caso de se repetirem, os profissionais consigam consultar e se sentir um pouco mais confiantes ao se deparar com determinados quadros como esse” relata Antunes. O artigo apresenta como a infecção por Leishmania infantum pode imitar alterações da medula óssea associadas a doenças hematológicas, dificultando o diagnóstico e tornando o tratamento mais complexo. A infecção pode alterar a produção das células do sangue e seus sinais podem se sobrepor aos de outras doenças.

O caso reforça a importância de considerar a leishmaniose visceral na investigação de pacientes com febre persistente e alterações importantes no sangue, principalmente em regiões onde a doença é endêmica e onde há problemas de saúde pública. “Quando o médico recebe um paciente, ele tem que conversar muito com esse indivíduo e entender por onde ele circulou, onde ele mora, quais possíveis microrganismos são endêmicos naquela região”, explica Sandra.

“A integração entre a hematologia, a citometria de fluxo, a parasitologia e o diagnóstico molecular se torna essencial para reduzir possíveis atrasos diagnósticos e orientar a conduta clínica da forma mais adequada possível”, aponta o autor. Sandra Muxel afirma que é necessário tentar ajustar o que for preciso para um diagnóstico correto. “A leishmaniose é uma doença negligenciada que precisa ter atenção no dia a dia da parte clínica.”

A partir do relato de caso, novas questões sobre a relação entre a Leishmania infantum e a medula óssea foram levantadas. “Nosso grupo busca compreender como a infecção pela Leishmania pode alterar o meio ambiente da medula óssea”, afirma Sandra. A intenção dos pesquisadores é compreender como o parasita interfere nesse ambiente e identificar mecanismos que possam contribuir para novas estratégias de diagnóstico e tratamento.

Leishmaniose visceral

A leishmaniose visceral é considerada a forma mais grave da doença. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a doença é endêmica em 80 países, com cerca de 50 mil a 90 mil casos por ano, dos quais apenas 25% a 45% são notificados à OMS. O Brasil concentra a maior parte da ocorrência doença na região das Américas, com cerca de 92% dos casos de leishmaniose visceral registrados, segundo a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS).

No Brasil, são encontrados relatos de leishmaniose visceral em todas as regiões. O Nordeste concentra a maior parte dos casos, seguido pelo Norte, Centro-Oeste, Sudeste e Sul, respectivamente. Capitais e grandes centros metropolitanos concentram a maior parte dos casos no País devido à migração de pessoas do campo para as cidades, mudanças ambientais e climáticas, a construção de grandes obras com impacto ambiental e a vulnerabilidade socioeconômica.

Os principais sintomas da leishmaniose visceral são: febre contínua ou intermitente que dura mais de uma semana; inchaço no abdômen devido ao crescimento do fígado e do baço; emagrecimento e perda de apetite progressivos; anemia; fraqueza intensa e falta de energia. De acordo com a OPAS, o diagnóstico da leishmaniose visceral pode ser feito por diferentes exames. O teste rápido rK39 identifica no sangue anticorpos produzidos contra o parasita e pode ser utilizado na atenção básica. Os exames parasitológicos procuram diretamente a Leishmania em tecidos infectados, principalmente na medula óssea. Os testes moleculares, como a reação em cadeia da polimerase (PCR), detectam o material genético do parasita.

A escolha do tratamento depende das características clínicas de cada paciente e de seu estado imunológico. Nas Américas, as diretrizes da OPAS recomendam a anfotericina B lipossomal, um agente antifúngico, para crianças e adultos, tanto imunocompetentes (pessoas com o sistema imunológico funcionando de forma normal e saudável), quanto imunossuprimidos (paciente com as defesas do corpo enfraquecidas). No Brasil, o medicamento é disponibilizado pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

O estudo contou com apoio financeiro da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e uma bolsa de produtividade do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). O grupo também integra o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) de Doenças Tropicais, iniciativa do CNPq voltada à pesquisa sobre leishmanioses e outras doenças parasitárias. A pesquisa teve a colaboração da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), do Hospital Universitário Onofre Lopes, da Universidade Estadual do Rio Grande do Norte (UERN), e de pesquisadores e médicos responsáveis pelo acompanhamento do paciente.

O artigo Visceral leishmaniasis associated with bone marrow failure in myelodysplastic syndrome: case report está disponível on-line.

Mais informações: iantunes@usp.br, com Ian Antunes Ferreira Bahia, e sandrammuxel@usp.br, com Sandra Marcia Muxel.

* Estagiária sob orientação de Luiza Caires

**Estagiária sob orientação de Simone Gomes