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Fauna silvestre enriquece costa paraibana

Fauna silvestre enriquece costa paraibana

Locais ou migratórias, variedades requerem atenção especial para uma boa convivência com as pessoas

Aves, caranguejos, peixes–bois e até tubarões. Na Paraíba, as águas quentes e o clima tropical proporcionam uma paisagem nos tons das mais diversas cores da fauna costeira, capazes de encantar tanto turistas quanto quem já mora na região. Esses animais, além de possuírem uma beleza única, são essenciais para o equilíbrio do ecossistema local e, mais do que isso, exigem cuidado em cada interação.

Quem atesta isso é a enfermeira Sara Barros. Quando avistou tartarugas na praia do Caribessa, em João Pessoa, ela evitou se aproximar dos animais. Resolveu contemplá–los de longe, mas o encantamento foi ainda maior. “Elas eram tão grandes que inicialmente pensei que fosse alguém nadando. Elas submergiam e emergiam tranquilas, duas um pouco mais distantes e uma bem próxima a quem estava no raso. Pensei em como estamos entrando no espaço delas, mas fiquei feliz que quase ninguém notou e, consequentemente, não interferiu na passagem ali na região”, conta.

Foto: Mariana Xavier/Arquivo pessoal

Esse comportamento é aconselhado pela presidente da Associação Guajiru, Danielle Siqueira. Há mais de duas décadas, a organização trabalha na preservação do Litoral paraibano, por meio de ações de educação ambiental e o projeto Tartarugas Urbanas, responsável pelo monitoramento desses animais durante a temporada reprodutiva.

Anualmente, nos meses de novembro a junho, tartarugas–marinhas migram do sul da Bahia em direção à costa paraibana. “Quando as tartarugas vêm desovar, elas deixam um rastro, que é como a gente localiza os ninhos. É importante que quem está com cadeira de praia, quem vai jogar tênis, vôlei, aproveitar o ambiente de praia, tenha atenção para não apagá-los, porque é o que a gente usa de referência para encontrar o ninho depois. Caso veja uma tartaruga desovando, observe a uma certa distância. Se for à noite, não filme e fotografe com flash. Isso pode incomodar o animal e fazer ele desistir de desovar”, explica.

Quatro espécies ocorrem com maior frequência na Paraíba: tartarugas-de-pente, cabeçudas, olivas e verdes. Todas, com exceção da última, que pertence à categoria “quase ameaçada”, correm risco de extinção. “Hoje, o nosso principal problema é a iluminação artificial. O uso das luzes brancas afeta nossos hormônios e, para diversos animais, isso também acaba acontecendo, como é o caso das tartarugas, que se desorientam e acabam indo para o lado errado. O tráfego de veículos em algumas praias acaba sendo mais uma ameaça”, aponta.

Outro bicho que costuma passar pela região é o peixe-boi-marinho, que se alimenta das algas-marinhas e do capim-agulha das águas costeiras. De tantas aparições, Favo, o primeiro filhote de uma fêmea reintroduzida no estado, e a mãe, Mel, são verdadeiras celebridades entre os banhistas e pescadores do Litoral Norte. Segundo a ecóloga Iara Medeiros, da Fundação Viva o Peixe-Boi-Marinho, a maior parte desses animais são espécies nativas e que não passaram por etapas de reabilitação em cativeiros.

“Alguns animais, sobretudo os reintroduzidos, aproximam-se com facilidade dos seres humanos, porém, para o bem do animal e segurança de todos, não se deve tocar, alimentar e nem fornecer bebida. O comportamento de ficar próximo dos barcos ou das pessoas, por exemplo, se deve, muitas vezes, pela oferta de alimentos e pode gerar uma dependência a essas situações e comprometer o processo deles de adaptação ao ambiente natural”, esclarece.

Ficar a uma distância adequada de animais como esses, ainda, reduz a possibilidade de acidentes. Caravelas, medusas, raias e moreias podem representar perigos à saúde humana, como reforça a pesquisadora Jéssica Prata, técnica responsável pela Coleção de Invertebrados Paulo Young (CIPY) da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). “Ao avistá-las, é recomendado sair de perto. Os tentáculos desses animais possuem toxinas que podem causar dor e sensação de queimadura. Em casos mais graves, podem provocar alergia e falta de ar. As raias podem apresentar espinhos venenosos ou ferrões na cauda e a moreia tem uma mordida forte que pode causar inflamação. Assim, é melhor evitar tentar pegá-la”, aconselha.

Litoral paraibano recebe 13 espécies de aves migratórias

No litoral da Paraíba, o tipo mais comum de aves migratórias são as limícolas. Isso inclui um total de 13 espécies, entre maçaricos, batuíras e bautiruçus, cujo principal alimento são pequenos animais marinhos: crustáceos, moluscos e insetos que vivem na areia.

Maçaricos, batuíras e bautiruçus (foto), que se alimentam de crustáceos, moluscos e insetos, pousam por aqui em setembro e ficam até abril | Foto: Divulgação/Cemave

De acordo com o oceanólogo Roberto Barbosa, coordenador do Plano de Ação Nacional para Conservação das Aves Limícolas Migratórias do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Aves Silvestres (Cemave), essas aves pousam em solo paraibano de setembro a outubro e se vão em abril, quando iniciam os voos de volta para as áreas reprodutivas no Hemisfério Norte, no Ártico Canadense e Alasca. “Durante as migrações anuais, essas aves percorrem milhares de quilômetros. O litoral da Paraíba, com seus 130 km de extensão, está incluído em uma das nove rotas migratórias existentes para as aves limícolas, a Rota Migratória do Atlântico”, pontua.

Indicadoras de qualidade ambiental, as aves limícolas preferem lugares abundantes em alimento e de tráfego reduzido. Elas estão em maior número em praias marinhas e manguezais, zonas apropriadas para repouso, recuperação da condição corporal e troca de penas. Apesar disso, o trânsito de veículos, a poluição sonora e a compactação da areia pelo excesso de pessoas podem afugentar tais animais.

“Essas aves possuem papéis ecológicos, promovendo, inclusive, o enriquecimento dos ambientes aquáticos com nutrientes e contribuindo para controlar as populações das presas. É necessário que as praias urbanas e as atividades turísticas sejam ordenadas, de forma a garantir que as condições ambientais que possibilitam a permanência das aves migratórias sejam mantidas”, destaca.

A permanência do litoral paraibano nessa rota migratória depende da conservação da biodiversidade local. Como lembra o especialista, os esforços de preservação contribuem não só para a saúde da fauna, mas também para o próprio bem-estar da comunidade. Atitudes simples, como manter a faixa de areia limpa, silenciosa e segura, além de avisar às autoridades se encontrar uma ave machucada ou debilitada, já propiciam espaços mais tranquilos para os animais.