“Estamos ultrapassando seis dos nove limites planetários”, alerta cientista Johan Rockström

O cientista sueco Johan Rockström, diretor do Instituto Potsdam para Pesquisa de Impacto Climático (PIK), voltou a chamar atenção para os riscos que a humanidade corre ao avançar sobre os limites ambientais que garantem a estabilidade da Terra. Reconhecido mundialmente por ter desenvolvido a estrutura dos limites planetários em 2009, Rockström afirmou que já estamos numa situação perigosa, em que a própria sobrevivência de sociedades humanas complexas está em jogo.
O cientista participou nesta terça-feira (26) do encontro Futuro Vivo, evento organizado pela empresa de telecomunicações Vivo com o objetivo de ser um espaço de debate sobre os limites da tecnologia e de como desenvolver soluções sustentáveis para o meio ambiente.
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Na palestra, ele retomou o conceito dos nove limites planetários que regulam o funcionamento da Terra para alertar a todos sobre os riscos que a humanidade corre ao ultrapassar os limites ambientais que garantem a estabilidade do planeta.
“Estamos começando a atingir o teto dos processos biofísicos que regulam a resiliência, a estabilidade e a habitabilidade da Terra”, disse em sua palestra.
“Seja em São Paulo, em Estocolmo ou em Pequim, o que acontece em diferentes partes do planeta interage e influencia a estabilidade de todo o sistema climático, da hidrologia e do suporte à vida na Terra. É por isso que precisamos definir um espaço operacional seguro para o desenvolvimento humano no planeta.”
A teoria dos limites planetários definiu estes princípios: clima, biodiversidade, uso da terra, ciclos de nitrogênio e fósforo, recursos hídricos, oceanos, poluição do ar, camada de ozônio e poluentes químicos. “O grande avanço científico não foi apenas identificá-los, mas quantificá-los”, explicou.
Segundo o cientista, a noção de que era possível explorar recursos sem limites ficou no passado. “Há 50 anos, não precisávamos disso. Hoje, ocupamos o planeta inteiro e não há mais espaço para sermos insustentáveis.”
Logo no início de sua palestra, Rockström lembrou que o planeta atravessou, nos últimos 10 mil anos, o período mais estável de sua história recente: o Holoceno. Foi nessa era que surgiram a agricultura e as civilizações humanas, sustentadas por condições climáticas e ecológicas favoráveis. “O Holoceno é o único estado do planeta que sabemos com certeza ser capaz de sustentar nossa vida. É o que eu chamo de Jardim do Éden”, afirmou.
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Contudo, essa estabilidade está sendo rompida com a ascensão do Antropoceno, a era em que o ser humano é a principal força de mudança no planeta. “O sistema econômico global está no banco do motorista, superando os impactos de erupções vulcânicas, variações solares e terremotos. Essas forças naturais ainda existem, mas nós as dominamos e até as sobrepujamos.”
Para Rockström, a pressão sobre os sistemas naturais pode levar a mudanças abruptas e irreversíveis.
“O planeta é um sistema complexo e auto-adaptativo, que tem pontos de inflexão. Se empurrarmos demais, a Amazônia, a Groenlândia ou os recifes de coral podem colapsar e passar para estados que deixarão de nos sustentar. Esses pontos de virada não apenas reduzem a resiliência dos ecossistemas, mas também ameaçam diretamente economias e sociedades.”
Para o cientista, os dados não deixam dúvidas. “Estamos em uma situação perigosa. Estamos ameaçando a saúde de todo o planeta.” Ele explica que foram definidas zonas seguras, zonas de incerteza e zonas de alto risco na metodologia dos limites planetários.
“O problema é que, em 2023, já mostramos que seis desses nove limites estão sendo ultrapassados — clima, biodiversidade, mudanças no uso da terra, consumo de água doce, excesso de nitrogênio e fósforo, e a enorme carga de substâncias químicas no sistema terrestre.”
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Essa constatação tem relação direta com o debate sobre políticas públicas no Brasil e no mundo. A Amazônia, por exemplo, é um dos sistemas mais próximos de um ponto de inflexão — quando mudanças irreversíveis podem ser desencadeadas. “O planeta é um sistema complexo e auto-adaptativo, que tem pontos de inflexão. Se empurrarmos demais, a Amazônia, a Groenlândia ou os recifes de coral podem colapsar e passar para estados que deixarão de nos sustentar”, alertou.
Apesar do alerta, o cientista vê na pesquisa uma ferramenta de esperança. Desde 2009, a metodologia dos limites planetários foi refinada e hoje já permite oferecer parâmetros para políticas públicas e decisões empresariais. “Hoje conseguimos oferecer à humanidade um mapa de navegação do Antropoceno. Definimos as fronteiras seguras para o futuro da vida na Terra. Isso nos dá a possibilidade de sermos responsáveis em escala planetária”, disse.
Para Rockström, reconhecer esses limites não é apenas uma questão científica, mas de sobrevivência. “Estamos ameaçando a saúde de todo o planeta. Esse é o diagnóstico da ciência, e ele deve servir como base para qualquer estratégia de desenvolvimento daqui para frente.”
A boa notícia, diz, é que já temos as soluções e já sabemos o que deve ser feito. Seguir o Acordo de Paris e buscar frear o aquecimento do planeta em 1,5ºC é primordial e, segundo ele, é possível. Mas o ritmo de mudanças precisa acelerar urgentemente.
Papel da política internacional e da COP30
A fala de Rockström chega em um momento estratégico: o Brasil se prepara para sediar a COP30, em Belém (PA) em novembro. A conferência deve ser marcada pelo foco em florestas tropicais e na transição justa para países em desenvolvimento. O conceito dos limites planetários, cada vez mais adotado por governos e empresas, oferece um “mapa de navegação” para esse processo.
“Hoje conseguimos oferecer à humanidade um mapa de navegação do Antropoceno. Definimos as fronteiras seguras para o futuro da vida na Terra. Isso nos dá a possibilidade de sermos responsáveis em escala planetária”, disse.
Para especialistas, integrar esse tipo de ciência ao processo político será crucial para que a COP30 avance em compromissos concretos — especialmente em temas como desmatamento zero, proteção da biodiversidade e financiamento climático.
“Estamos ameaçando a saúde de todo o planeta. Esse é o diagnóstico da ciência, e ele deve servir como base para qualquer estratégia de desenvolvimento daqui para frente”, concluiu Rockström.