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Estações de esqui da Europa enfrentam futuro incerto com crise climática

Estações de esqui da Europa enfrentam futuro incerto com crise climática

Com temperaturas mais altas e quedas de neve irregulares, estações de esqui em toda a Europa enfrentam um desafio e tanto: manter um modelo econômico baseado em um recurso natural que já não pode ser dado como garantido.

O alerta ganha força às vésperas dos Jogos Olímpicos de Inverno de Milão-Cortina, marcados para fevereiro. Embora as pistas nas Dolomitas estejam atualmente cobertas de neve, a cena está longe de ser uma regra. Em muitas regiões alpinas, a prática do esqui depende quase exclusivamente da produção de neve artificial — uma solução cara, intensiva em água e energia e com impactos ambientais crescentes, refletidos no preço dos passes e no acesso cada vez mais restrito ao esporte.

O Comitê Olímpico Internacional (COI) já reconhece que o aquecimento global, impulsionado sobretudo pela queima de combustíveis fósseis, já está moldando o futuro dos esportes de inverno. E estudos reforçam isso. Um deles, publicado em 2021 por pesquisadores da Universidade de Waterloo, no Canadá, apontou que, sem reduções rápidas e profundas das emissões, apenas quatro das 21 cidades que já sediaram Jogos Olímpicos de Inverno permaneceriam aptas a receber o evento em meados do século. São elas: Lake Placid (Estados Unidos), Lillehammer e Oslo (Noruega) e Sapporo (Japão).

O trabalho também demonstrou que, se a temperatura média global subir 4ºC acima dos níveis pré-industriais até 2050 — o pior cenário possível —, o calor e a falta de neve impossibilitarão que as outras localidades voltem a sediar os Jogos Olímpicos. E, em 2080, apenas a estação de esqui japonesa conseguiria fazê-lo.

Mas mesmo em um cenário mais otimista, no qual o Acordo de Paris seja cumprido, o que limitaria o aquecimento global a um máximo de 2ºC, apenas nove locais “olímpicos” poderiam sediar o evento esportivo novamente em 2050, e oito em 2080.

Indo além da competição, os efeitos são ainda mais diretos para as comunidades que dependem do turismo de inverno. Em 2022, o setor movimentou cerca de 180 bilhões de euros (aproximadamente R$ 1,1 trilhão na cotação atual) na Europa, com os Alpes no centro dessa economia — e também como uma das regiões mais sensíveis do ponto de vista ambiental, abrigando recursos hídricos estratégicos e uma biodiversidade valiosa, reporta o EuroNews.

Um estudo publicado em 2023 na revista científica Nature Climate Change prevê que, de um total de 2.234 estações de esqui existentes na Europa, 53% estarão em altíssimo risco de escassez de neve em um mundo em aquecimento climático de 2°C em comparação com os níveis pré-industriais. Nos Alpes franceses, um terço estará condenado e, nos Pirenéus, 89%.

Se a temperatura média global aumentar 4°C, a situação piora – e muito: até 98% das estâncias de esqui europeias não poderão contar com uma quantidade suficiente de neve.

“Há variações de região para região, mas podemos identificar três grandes categorias de maciços montanhosos na Europa”, disse François Hugues, pesquisador do Instituto Nacional Francês de Agricultura, Alimentação e Meio Ambiente (Inrae), ao Euronews.

De acordo com ele, o grupo dos Alpes interiores, principalmente na França, Suíça e Áustria, possui altitudes e condições bastante favoráveis. Ele acrescentou que o segundo grupo inclui situações intermediárias, que são muito mais vulneráveis às condições climáticas, como no caso dos Alpes eslovenos ou dos Pirenéus. O terceiro engloba os territórios onde a crise climática já levou ao limite: as montanhas da Península Ibérica ou os Apeninos na Itália.

Neve artificial

A neve artificial, lançada por canhões pode ajudar a manter o turismo de inverno, mas há um preço a se pagar. Levantamento da Agenzia Giornalistica Italia (AGI) revela que, para produzir neve em uma encosta com um quilômetro de comprimento, cerca de 50 metros de largura e 40 centímetros de espessura, o custo varia de 30 a 40 mil euros (R$ 189,5 mil a R$ 252,7 mil).

“Os custos associados à produção da neve [artificial] em si são, em qualquer caso, relativamente marginais em comparação com os custos totais de funcionamento de uma estância de esqui”, salientou Hugues. “Mas também existe um fator ambiental a ser considerado, que está ligado aos recursos hídricos e à sua disponibilidade.”

Neve. — Foto:  Kevin Trimmer/ Getty Images
Neve. — Foto: Kevin Trimmer/ Getty Images

Ele complementou: “Na verdade, muitas vezes é necessário criar lagos artificiais para garantir a disponibilidade da água necessária, e essas obras representam um custo considerável. Em geral, portanto, mesmo para resorts menos afetados pelas mudanças climáticas, precisamos repensar os modelos de negócios e adaptá-los às consequências do aquecimento global”.

Dados do World Wide Fund for Nature (WWF) mostram que, para a produção básica de neve (cerca de 30 centímetros de neve, frequentemente mais) em uma encosta de um hectare, são necessários pelo menos um milhão de litros de água, ou seja, mil metros cúbicos.

“Já a produção subsequente de neve artificial exige, dependendo da situação, um consumo de água consideravelmente maior, o que corresponde aproximadamente ao consumo anual de uma cidade de 1,5 milhão de habitantes”, continuou a organização ambiental.

Importante destacar que a eletricidade também é necessária para operar os canhões e lanças, o que leva ao aumento do consumo e, consequentemente, às emissões de gases de efeito estufa.

Para abastecer todas as estâncias de esqui dos Alpes europeus com neve artificial, calcula-se que seriam necessários cerca de 600 GWh, o equivalente ao consumo anual de 130.000 famílias de quatro pessoas, informou a Reuters em 2023.

“Esquiar vai se tornar um esporte para ricos”, explicou Christophe Clivaz, professor da Universidade de Lausanne, ao Valori.it. “Já é, mas será cada vez mais, porque os custos de manutenção das pistas vão aumentar. Sem falar que esquiar exige comprar ou alugar esquis e botas. E depois jaquetas, calças, luvas, óculos de proteção. Já hoje, em um país como a Suíça, grande parte da população não tem condições de esquiar, principalmente famílias numerosas.”

Hugues concluiu: “Os operadores de estâncias de esqui alpinas onde ainda será possível esquiar atrairão turistas ricos de locais mais distantes, clientes vindos, por exemplo, do Reino Unido, mas também da Espanha ou da Grécia, países onde será cada vez mais difícil esquiar. Isso pode ser positivo do ponto de vista econômico, mas complicará as coisas do ponto de vista ambiental e climático, pois aumentará as emissões de gases de efeito estufa ligadas ao turismo, intensificando ainda mais as mudanças climáticas”.