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ERT aposta em bioplásticos compostáveis para crescer em nichos onde o plástico tradicional perde espaço

ERT aposta em bioplásticos compostáveis para crescer em nichos onde o plástico tradicional perde espaço

Empresa com base produtiva no Brasil vende insumos para mercados como embalagens, agricultura e impressão 3D, com foco em exportação e expansão na Europa

Apenas em um ano, o mundo produz mais de 400 milhões de toneladas de plástico. Cerca de um terço – 139 milhões de toneladas – de uso único que, em poucos segundos, se torna um resíduo plástico, de acordo com dados do Índice de Fabricantes de Resíduos Plásticos de 2021, publicado pela organização sem fins lucrativos Minderoo Foundation. O plástico de uso único é aquele plástico descartável com uma vida útil extremamente curta, como mexedores de café e copo para água, além de sachês de condimentos e canudos.

Ainda que em cidades como São Paulo o canudo plástico esteja proibido há alguns anos, e bares, restaurantes, serviços de delivery e hotéis já o substituam por alternativas biodegradáveis, comestíveis e feitos de papel, o impacto de tais medidas ainda é ínfimo perto do problema. O próprio Índice de Fabricantes de Resíduos Plásticos apontou que o desperdício de plástico adicional produzido em 2021 equivale a quase um quilo a mais para cada pessoa no planeta em relação a 2019, puxado principalmente pela demanda por embalagens flexíveis, como filmes e sachês.

A escala e o preço são os principais obstáculos para acelerar a substituição dessas embalagens, de acordo com Kim Gurtensten Fabri, fundador da ERT Bioplastics, produtora de resinas certificadas e compostáveis feita a partir da fermentação da cana-de-açúcar e vendida a outras indústrias justamente como substituto do plástico convencional em itens de uso único.

Para o CEO, o Brasil segue atrasado na agenda regulatória. O país é o quarto maior consumidor de plástico do mundo e ainda aposta quase exclusivamente na reciclagem. “Existe uma narrativa única de que vamos reciclar plástico”, critica. Segundo ele, outros países da América Latina, além de regiões da Ásia, África, Estados Unidos e China, já avançaram em restrições a determinados utensílios. Para Fabri, o caminho passa por avanço regulatório e inovação industrial — sem retrocessos.

Um plástico é definido como bioplástico quando tem início de vida a partir de fonte renovável, ou seja, tem como matéria-prima fontes renováveis como soja, amido de arroz, milho e de cana-de-açúcar. O bioplástico tem as mesmas propriedades do plástico convencional, mas não necessariamente o bioplástico será biodegradável, embora seja possível reciclá-lo. No caso da ERT, o material – PLA (Ácido Polilático) – é também compostável, se decompondo em até 180 dias, transformando-se em adubo, sem a geração de microplásticos.

Fabri conta ao Um Só Planeta que a ERT Bioplastics nasceu na academia e ganhou forma como empresa anos depois. A tecnologia usada pela companhia começou a ser desenvolvida em 2009, na Clemson University, na Carolina do Sul, a partir de pesquisas com bioplásticos de fontes renováveis. Em 2018, o executivo teve contato com o bioplástico obtido pela fermentação da cana-de-açúcar durante uma viagem aos Estados Unidos e percebeu o filão de mercado que poderia ser, em um futuro próximo, dada a pressão regulatória e dos consumidores cada vez maior por alternativas ao produto de fonte fóssil. De volta ao Brasil, Kim decidiu, então, apostar na área e criou, em 2021, a ERT — sigla para Earth Renewable Technologies (Tecnologias Renováveis da Terra).

“A grande dúvida era a tecnologia, como sair de uma fonte fóssil”, afirma Fabri, CEO da ERT Bioplastics.

O desafio era desenvolver um material de origem renovável que fosse tecnicamente funcional, economicamente viável e escalável. A resposta veio da escolha da produção de poliácido lático (PLA) a partir de matérias-primas como cana-de-açúcar e milho. Além de terem características que conferem diferentes tipos de uso ao insumo, o fato de serem encontrados em abundância no Brasil também os torna mais competitivos em custo.

Segundo o executivo, outras rotas de bioplásticos exploradas pelo mercado, como algas e microrganismos, não entregavam desempenho suficiente. “Não pode usar quente, não tem flexibilidade, não tem barreira”, conta.

Kim Gurtensten Fabri, fundador da ERT Bioplastics: após testes, opção foi resinas feitas a partir da fermentação da cana-de-açúcar — Foto: ERT Bioplastics / Divulgação
Kim Gurtensten Fabri, fundador da ERT Bioplastics: após testes, opção foi resinas feitas a partir da fermentação da cana-de-açúcar — Foto: ERT Bioplastics / Divulgação

Entre os exemplos concretos de inovação está a substituição de embalagens de tomate-cereja, um dos pedidos de um cliente agricultor, que vende produtos orgânicos e se preocupa com o meio ambiente. Até pouco tempo, o PET usado nesse tipo de bandeja não era reciclado. A ERT desenvolveu uma resina específica, criou a bandeja e o filme de selagem, reduziu custos e aumentou a durabilidade do produto. “O projeto envolveu equipe interna, fabricante de máquinas e produtor agrícola”, conta Fabri.

A estratégia da ERT, no entanto, não é substituir todo tipo de plástico. Para Fabri, o plástico tradicional ainda tem papel relevante em aplicações de longa vida útil ou em cadeias consolidadas de reciclagem. “Nas engenharias e em outras situações, o plástico tradicional entra numa cadeia de economia circular ou tem um tempo de vida mais longo”, explica Fabri. Já os bioplásticos da ERT são pensados para produtos que normalmente acabam descartados junto com resíduos orgânicos.

Essa lógica levou a empresa a patentear uma tecnologia própria de modificação de bioplásticos, ajustando as propriedades do material conforme o uso. O foco principal está na substituição de plásticos de uso único, especialmente em embalagens e itens descartáveis. A ERT também não atua, por exemplo, na substituição de garrafas PET para bebidas. “A indústria de PET para bebida transparente tem reciclabilidade mais alta”, explica Fabri, citando barreiras técnicas e econômicas. Para ele, a sustentabilidade do plástico passa por entender onde cada material faz sentido.