Em vez de tijolos e cimento, astronautas levarão gelatina e fermento para Marte
Ainda sabemos pouco sobre Marte, mas as informações que temos indicam que lá é um lugar terrível para se construir uma casa: É extremamente frio, o ambiente é praticamente um vácuo e não há uma atmosfera razoável para proteger os moradores da radiação espacial. Isso sem contar os custos do serviço de entrega dos materiais de construção.
Por isso Ning Liu e colegas da Universidade de Hong Kong estão acalentando uma ideia que eles acreditam ser mais prática: Levar da Terra um mínimo de ingredientes leves e construir as casas marcianas usando uma impressora 3D.
E o segredo está na receita, uma combinação de rochas marcianas devidamente trituradas com ingredientes terrestres que devem caber na mala dos astronautas: Gelatina e fermento.
Depois de seco e endurecido, esse material de construção “vivo” fica quase tão resistente quanto o concreto, além do que ele pode ser decomposto, reciclado e reutilizado em novas construções.
“Este material é forte o suficiente para construir um prédio de um ou dois andares na Terra, cuja gravidade é três vezes maior que a de Marte,” garante o professor Jishen Qiu. “Portanto, provavelmente seria possível construir facilmente um prédio de vários andares em Marte com esse material.”
[Imagem: Ning Liu et al. – 10.1016/j.checir.2026.100120]
Areia e cola
Para criar o material imprimível, a equipe ajustou com precisão a mistura projetada para substituir areia e cimento. Este último foi substituído por uma mistura de gelatina e um tipo especial de levedura, formando uma espécie de cola.
Para isso, a equipe desenvolveu leveduras revestidas com proteínas altamente adesivas, incluindo aquelas que os mexilhões usam para se fixarem às rochas. A gelatina une os ingredientes e fornece um local para o crescimento das células, enquanto a areia confere massa e estrutura.
A equipe então testou o material em condições marcianas simuladas. Assim que a mistura passa pelo bocal da impressora, o frio extremo e a baixa pressão geram um processo de liofilização, similar à usada para secagem de frutas. A água congela e se transforma diretamente de gelo em vapor, deixando para trás poros microscópicos – o resultado se assemelha a uma espuma, leve e porosa.
Por enquanto, as estruturas se limitam a pequenas cúpulas do tamanho de rolhas de vinho, com 45 mm de altura e 30 mm de largura. Mas o material mostrou-se firme, com uma resistência à compressão entre 10 e 12 megapascais, comparável à de um concreto de baixa resistência.
[Imagem: Ning Liu et al. – 10.1016/j.checir.2026.100120]
Incertezas
Muitas propostas para a construção de cidades extraterrestres envolvem o aquecimento e a fusão de rochas marcianas ou poeira lunar para transformá-las em tijolos e vigas. Mas isso requer uma quantidade substancial de energia.
O material de base biológica não só economizaria energia térmica, ao adotar uma abordagem de fabricação completamente diferente, como também poderia sustentar uma economia circular em Marte: Os colonizadores poderiam recuperar o fermento de estruturas desmontadas e cultivá-lo novamente em biorreatores, defendem os pesquisadores.
Mas ainda há desafios: A equipe não sabe se as leveduras vão sobreviver às condições reais de Marte. Será necessário mandá-las para lá para descobrir.
Artigo: Engineered living building material for low-energy construction on Mars
Autores: Ning Liu, Wenwei Huang, Shing Chi Lam, Qikun Yi, Chaoyu Dou, Yihong Tang, Shaofeng Qin, Yiwei Weng, Fei Sun, Jishen Qiu
Revista: Chem Circularity
DOI: 10.1016/j.checir.2026.100120
