Cuidado na velhice: o dilema de quem escolheu não ter filhos
Mudanças demográficas no Brasil apontam para novo cenário sobre o cuidado nas próximas décadas. Especialistas afirmam que não se deve ter filhos pensando neles como possíveis cuidadores.
Quando a psicóloga Lara Vieira, de 27 anos, encerrou o atendimento a uma idosa solitária, ligou para a melhor amiga para propor um acordo. “Eu falei para ela que quando a gente fizer 65 anos, caso nenhuma das duas esteja casada, vamos morar juntas. E se uma estiver casada, vai acolher a outra que estiver solteira”, diz.
Ela conta que a idosa tinha filhos, mas nenhum era presente na vida da mãe. “Ela estava com uma solidão afetiva muito grande”, conta a psicóloga, que trabalha em uma área de apoio a mulheres vítimas de violência doméstica e familiar. “No meu trabalho, acompanho mulheres de todas as idades. Ainda que muitas dessas idosas tenham filhos ou companhia, muitas vezes é uma companhia ruim. Às vezes é uma companhia violenta, de certa forma.”
Os atendimentos a essas mulheres reforçam um desejo antigo de Vieira: o de não ter filhos. “Acho que isso vem desde pequena, quando entendi que ser mãe não é algo obrigatório”, afirma. “Eu via a minha mãe com tanto trabalho, que para mim aquilo não fazia sentido”, acrescenta.

Vieria critica a visão de que filhos são garantia de cuidado na velhice. A psicóloga afirma que eles podem apoiar os familiares idosos, inclusive ela planeja cuidar dos pais se necessário, mas defende que isso nem sempre é uma regra. “Seria muito mesquinho colocar alguém no mundo já pensando que vai ser uma pessoa para cuidar de mim. Isso nunca foi algo que imaginei fazer”, diz.
Conceito ultrapassado
Em meio às mudanças demográficas, o conceito de que filho é sinônimo de cuidado no futuro está cada vez mais ultrapassado, afirmam especialistas.
“Esse conceito é uma questão cultural que existe há séculos, mas é uma ilusão. Hoje o mundo não contempla mais isso. Muitos filhos, mulheres e homens, têm que trabalhar muitas horas por dia, em uma escala 6X1, em que mal têm tempo para dormir. Além disso, há muitos profissionais que trabalham em outra cidade ou país”, pontua o cientista social Jorge Félix, pesquisador sobre o envelhecimento e professor na pós-graduação em gerontologia da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH-USP).
Nem sempre a ausência dos filhos significa descaso ou falta de atenção. “Muitos deles não têm mais a vida adulta ao lado dos pais, isso vale para todas as classes sociais”, acrescenta Félix.
O novo cenário sobre os cuidados tem um componente importante: a diminuição das famílias. Ainda que filhos nunca tenham representado cuidado assegurado aos pais, eles eram considerados os primeiros responsáveis pelos idosos. Nas últimas décadas, porém, essa possibilidade ficou cada vez mais reduzida devido à queda da taxa de fecundidade no país.
Nos anos 1960, a taxa de fecundidade correspondia a 6,28 filhos por mulher em idade reprodutiva, segundo o Censo Demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Desde então, o índice tem caído com o passar das décadas. Em 2022, levantamento mais recente, o número despencou para 1,55 filho por mulher.
“Muitos já não querem ter filhos em função das demandas sociais e culturais, porque podem fazer escolhas pautadas na vida profissional, relacionamentos ou experiências diversas. E ter filhos já não é mais desejo de realização para muitas pessoas como era há 30 ou 40 anos”, diz a psicóloga Valmari Aranha, da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG).
Na contrapartida da taxa de fecundidade, os índices sobre envelhecimento no país crescem cada vez mais. No Censo do IBGE de 2022 havia mais de 32 milhões de brasileiros com mais de 60 anos, número 56% maior que o levantamento anterior, de 2010. Essa parcela da população deve aumentar ainda mais nas próximas décadas.
Um novo conceito sobre os cuidados
Essas mudanças demográficas mudam o conceito de cuidado. Isso faz com que as pessoas comecem a se preocupar cada vez mais cedo com o próprio envelhecimento. Isso inclui pensar em rede de apoio, cuidados com a saúde e planejamento financeiro.

“Eu vou cuidar de mim mesma. Temos que se exercitar desde jovem para conseguir se cuidar sozinha na velhice. Nós somos as pessoas mais importantes da nossa vida, então primeiro a gente tem que se cuidar, até mesmo para cuidar do outro”, diz a publicitária Preta Araújo. Hoje, aos 34 anos, Araújo diz que a cobrança sobre ser mãe diminuiu. “Com o passar do tempo, as pessoas foram aceitando que não quero ter filhos. Mas quando eu era mais nova, havia uma cobrança muito grande.”
As mulheres costumam ser os principais alvos da pressão para ter um filho, dizem os especialistas. “Mas houve uma certa mudança na sociedade atual. A mulher não querer ter filho não é mais algo tão escandaloso como no passado, quando os filhos eram como se fossem parte das mulheres”, afirma a socióloga Helena Hirata, diretora emérita de pesquisa do Centro Nacional de Pesquisa da França e pesquisadora convidada do Departamento de Sociologia da USP.
No futuro, Araújo espera ter dinheiro para arcar com os cuidados necessários, caso precise, mas também planeja contar com uma rede de amigos. “Eu enxergo um futuro lindo, porque muitos dos meus amigos também não querem filhos. E eu acho sensacional, porque a gente fica idealizando comprar um terreno e fazer várias casas para a gente meio que morar junto, cada um na sua casa, mas estando perto e sendo essa rede de apoio”, conta.
Rede de amigos
Os amigos também são vistos como um apoio importante por Vieira no futuro. “Eu espero, ao longo da minha vida, criar laços que me sustentem na velhice até onde eu for. Isso me faz pensar nas relações que eu construo”, comenta a psicóloga.
Um estudo recente publicado no Jama Network Open, feito por pesquisadores da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, mostrou que amigos podem desempenhar um papel importante na rede de cuidados de idosos. A pesquisa analisou dados de 2,6 mil idosos com limitações para atividades e identificou os responsáveis por ajudá-los.
Com base nesses dados, os pesquisadores estimaram que cerca de 2 milhões de idosos com limitações recebiam algum tipo de ajuda de amigos, incluindo os vizinhos, nos Estados Unidos. A principal atividade desses cuidadores sem laços sanguíneos, segundo o estudo, era o transporte, para levar tarefas como compras em mercado ou para consultas médicas.
O estudo mostrou ainda que os idosos que recebiam ajuda de amigos eram mais propensos a morar sozinhos, não serem casados e terem menos filhos.
Os familiares também podem estar presentes de outras formas na velhice para quem não quis ou não pode ter filhos, apontam especialistas. Irmãos, sobrinhos ou primos muito próximos são algumas das pessoas que podem acompanhar esse parente e formar uma rede de apoio.
“O mais importante para lidar com essas pressões sobre não ter filhos é construir vínculos sociais. A solidão faz mal para muitas coisas, faz mal para a saúde física, faz mal para a saúde mental e faz mal para o envelhecimento. De maneira geral, construir vínculos de amizades também é importante, além de alimentá-los durante a vida”, diz Valmari Aranha.
Os casais sem filhos
Para os casais sem filhos, há um componente a mais no cuidado: um pode ajudar o outro ao longo dos anos. É o que planejam o diretor de marketing Fabio Zelenski, de 40 anos, e a estilista Ana Paula Mendes, de 41, que estão juntos há oito anos.
“Foi tudo muito rápido, a gente se conheceu e em três meses já estava morando junto, em seis meses já estávamos noivos e só não nos casamos na época por causa da pandemia”, conta Zelenski. Desde o início, um entendeu que o outro não planejava ter filhos. “Eu sempre deixei claro que essa era a minha vontade”, diz Mendes.

A vida sem filhos, dizem, permite atividades que dificilmente fariam se tivessem uma criança. “Eu me vejo podendo decidir se vou viajar ou vou para um lugar por vontade própria. Não tenho aquela preocupação de deixar o filho sob os cuidados de uma babá ou da família. Tenho essa autonomia de poder fazer as coisas por mim”, diz Mendes.
No futuro, eles planejam que um seja a principal companhia para o outro. “Sempre pensei: vou casar com quem eu amo. Mas além de tudo, queria casar com uma pessoa que eu pudesse envelhecer tendo boas conversas”, lembra Zelenski.
O casal conta que vários amigos compartilham da mesma decisão sobre filhos. “O nosso ciclo de amizade também é formado na maioria por pessoas que não querem ter filhos. Até imagino que a gente, lá no futuro, vai ser um grupo meio que um cuidando do outro”, diz Mendes.
A proporção de casais sem filhos dobrou no país entre 2000 e 2022, segundo o Censo Demográfico. Em 2000, eles representavam 12% dos arranjos familiares formados por casais, enquanto em 2022 esse percentual chegou a 24%.
Entre as configurações familiares que passaram a ganhar mais visibilidade estão aquelas formadas pela população LGBTQIA+, que nem sempre têm o desejo de buscar alternativas para ter filhos.
O psicólogo Marcos Souza, de 37 anos, é casado há mais de uma década. Ele e o marido pensaram em ter um filho, mas desistiram da ideia. “O que decidi é que com isso tento ser o melhor tio que posso ser para os filhos dos meus amigos”, afirma Souza. Ele avalia que não ter filhos representa mais liberdade para pensar em si e no relacionamento com o companheiro.

“Quem vai cuidar de mim no futuro é a minha aposentadoria, a minha rede de amizades e a minha família, tanto quanto eu mesmo. Nunca pensei que ter filhos teria alguma conexão com o cuidado no futuro. Acho, na verdade, que esse é um perigo muito grande nas relações parentais e das expectativas que são projetadas em seus filhos”, declara.
A mercantilização do cuidado
As pessoas que não planejam ter filhos costumam encarar o pagamento pelo cuidado como uma realidade possível no futuro. “Pra mim, faz mais sentido guardar dinheiro para investir em um lugar confortável na velhice para não precisar depender de alguém por causa de vínculos sanguíneos. Ter um filho pensando no cuidado futuro também é um gasto de dinheiro muito grande”, avalia Araújo.
Hirata, que estuda sobre a profissionalização dos cuidados no Brasil, na França e no Japão, afirma que as mudanças demográficas fazem com que a profissionalização do cuidado se torne cada vez mais comum.
“O familiarismo é dominante no Brasil, porque muitas famílias ainda conseguem cuidar dos idosos ou das pessoas dependentes. Por isso é muito presente a ideia de que se você tiver um filho, ele vai cuidar de você. Mas há uma desfamiliarização na medida em que existam programas para que o Estado também participe do cuidado”, acrescenta.
Em dezembro passado, foi lançado o Plano Brasil que Cuida, para implementar políticas públicas de cuidados no país, que inclui os idosos. Segundo o governo federal, a iniciativa tem o objetivo garantir o direito às pessoas que precisam de ajuda ou aos cuidadores. As medidas ainda são incipientes, segundo especialistas, mas o governo federal promete lançar dezenas de iniciativas referentes ao projeto nos próximos anos.
No Japão e na França já existem programas financiados pelos governos locais. Assim como em outros países, diz a socióloga, o Brasil também deve seguir pelo caminho de mercantilização do cuidado cada vez mais, por meio de iniciativas como instituições voltadas ao tema ou cuidadores particulares.
“Aqui no Brasil, essa profissionalização do cuidado ainda é relativamente recente. Mas esse mercado do cuidado vai mudar, por causa desse envelhecimento bastante importante e rápido no país”, pontua Hirata.
